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Uma história ainda sem titulo (parte5)

por Elisabete Pereira, em 19.05.18

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Capitulo 5

 

Jane

 

O sol ainda não nasceu, mas fui despertada do meu sono agitado por um telefonema, não que me sinta incomodada por me terem interrompido o descanso, faz parte do meu dia-a-dia, como líder da "Villa", o nosso pequeno povoado nas árvores, tenho que muitas vezes abdicar dos pequenos prazeres da vida, para o bem da nossa comunidade

Desligo a chamada e ponho o velho telefone na secretária improvisada do meu escritório, também improvisado, que fica ao lado da minha cama, fico a pensar na conversa com Mcrae, o tipo sempre foi algo louco, no entanto,  a verdade é que as ideias dele sempre deram certo, mas acreditar que uma das miudas candidata a princesa, vai ajudar a nossa causa, é simplesmente algo inacreditável, e ainda por cima saber que ela já foi uma das crianças contrabandistas, mais estranho soava, não imagino uma dondoca a fazer uma coisa dessas. Sinto as minhas cicatrizes na cabeça a picar, o que é sinal de que me vou meter em sarilhos, mas decido ignorar, componho o lenço que tapa a minha cabeça, as memórias do passado assombram-me durante uns segundos, mas agarro no medalhão que tenho ao pescoço e as memórias rapidamente desvanece.

Tenho de pensar numa maneira de entrar em contacto com a tal rapariga sem levantar suspeitas, mas sou logo interrompida pela entrada frenética do Rafeiro, em miudo enfezado de idade indefinida, pode ter entre 9 e 13 anos, ninguém sabe, nem ele próprio.

-Jane, o Higgins está lá em baixo.

-Ok, já lá vou, obrigada Rafeiro.

O miudo desaparece num instante, provavelmente foi roubar alguma sandes da cantina, ás vezes os velhos hábitos são dificeis de desaparecer, ainda bem que Higgins está aqui, isso significa o abastecimento de provisões, e já estavamos mesmo a precisar de comida, desço rapidamente a casa da árvore, uma das várias que está escondida pela folhagem densa das árvores e que estão ligadas entre si por pontes feitas com cordas. Encontro Higgins ao lado da velha carrinha a fumar, e um tipo que não conheço ao lado dele a conversarem alegremente, aproximo-me deles e cumprimento com um aceno.

-E aí Jane?Como vão as coisas?

-O normal, então vieste trazer novas provisões?

-Não, o "Chefe" pediu para lhe fazeres um favor...

-Já vi que dai não vem grande coisa, posso ver as caixas? - digo enquanto me aproximo das várias caixas empilhadas na parte de trás da carrinha , ele não me responde, e vejo isso como sinal positivo, abro a tampa de madeira de uma delas - Bolas, o que é isto?! Eu já disse várias vezes que não quero armas aqui! 

-É só por uns dias....-começou ele enquanto revirava os olhos.

-Não! Não quero esta porcaria aqui á mão de semear dos meus miudos! Muitos deles já passaram um mau bocado na vida á conta delas, além disso pode haver algum incidente se algum deles pegar nisto.

O outro tipo olhava para nós com relativa curiosidade, mas mantinha-se em silêncio.

-Tens de ser razoavel Jane... -Continuou Higgins, enquanto se aproximava de mim.

-Não, não tenho, o "Chefe" sabe perfeitamente que posso aceitar muitas coisas cá, excepto armas.

-É importante, houve um pequeno incidente com o tipo que ia ficar com as armas da cidade mais próxima, e por isso tivemos que mudar de local á última hora, é só por três dias.

-Para que são as armas afinal?!- já que iria ficar com as armas, pelo menos queria saber o motivo -  o que é que o "Chefe" está a magicar agora?

-Isso é informação confidencial, não estou autorizado a dizer- disse enquanto atirou o resto do cigarro ao chão e apagando-o com o pé - há coisas que é melhor não saberes para teu bem.

-Muito bem, aceito com uma condição, quero o dobro de provisões na próxima entrega.

-Estás doida?! Sabes o que custa roubar mantimentos debaixo das barbas das autoridades? Não me vou arriscar por causa de um bando de putos ranhosos...

Pego no meu canivete e rapidamente agarro-o pelo pescoço com uma mão, e com a outra mão empunho o canivete em direção ao peito dele

-Repete o que disseste sobre os meus miudos e és um homem morto!

-Bolas, antes eras menos lamechas - respondeu ele com dificuldade enquanto observava a lâmina anormalmente grande do meu canivete a centimetros da pele dele - Estás a ficar demasiado mole, era só uma piada...Grace.

-Não me voltes a chamar por esse nome. - digo enquanto o solto de imediato - É a minha proposta, e não abdico dela.

-Tenho de falar com o "Chefe" - diz ele enquanto esfrega o pescoço - não te posso prometer nada.

Nisto ele vai em direção ao lugar de condutor da carrinha e oiço-o vagamente a falar pelo rádio, poucos minutos depois ele está de regresso e acena afirmativamente. Sorrio por ter conseguido uma pequena vitória , de imediato carrego num botão camuflado no tronco de uma árvore e um alçapão abre-se próximo de mim:

-Podem colocar as armas neste esconderijo - digo enquanto volto a subir pela escada de corda para a casa da árvore - Depois não se esqueçam de fechar o alçapão.

-Quê!?- gritou o tipo que estava ao lado de Higgins- Não vais dar uma ajuda?

-Tenho coisas mais importantes para fazer - respondi antes de desaparecer pela folhagem - Se começarem agora, terminam antes do almoço.

Oiço os insultos lá em baixo, e seguro-me para não me rir, já deviam saber que ninguém me desafia sem ter consequências, e até estou a ser muito simpática em deixar aquela porcaria nos meus dominios.

Entro num dos espaços mais importantes da "Villa", Ted está defronte de varias tv's da sala de informática que exibem imagens, do que imagino serem câmaras de segurança.

-Ted, como estão a evoluir os nossos planos?

-Tudo ok Jane, já temos imagens do palácio,  consegui acesso ás câmaras de segurança sem problemas.

-Temos de iniciar a segunda parte do plano, mantém-me actualizada Ted.

-Sim senhora.

-Aquela deve ser a miúda que o Mcrae falou... - exclamei em voz alta enquanto apontava para um dos monitores, Ted olhou para mim surpreendido, eu ainda não lhe tinha falado do telefonema -Desculpa Ted, não te tinha dito, mas o Mcrae ligou hoje de manhã cedo, depois explico tudo, mas supostamente o velho disse que essa miúda poderia vir a ser nossa aliada, mas o que ela está a fazer naquela sala com o príncipe?

-Lamento, mas não consigo obter som - respondeu Ted encolhendo os ombros- as câmaras devem ser daquelas que não gravam áudio, de qualquer das formas parece que ela se meteu em sarilhos, pelo jeito como está encolhida na cadeira e de olhar baixo, parece estar a levar um ralhete.

-Achas que ele a vai expulsar? - perguntei receosa, a nossa melhor hipótese de espia no Palácio estava por um fio- Era mau demais, ainda nem começamos e vamos perder logo este trunfo.

-Sabes que a rapariga pode nem aceitar a proposta.

-Ela vai aceitar, se o Mcrae disse que ela alinharia connosco é porque o irá fazer, ele é louco, mas não é parvo.

-Dás demasiado crédito a esse velho Jane, o tipo já se devia ter reformado, principalmente quando Justin tentou roubar o seu negócio, o seu melhor discípulo tentou passar-lhe a perna.

-Ele é uma lenda no nosso meio, o "Chefe" confia plenamente nele, e eu também.

-Por falar em "Chefe"...o que o Higgins estava a fazer lá em baixo?

-Armas - respondi num suspiro de pesar - querem que fiquem aqui guardadas uns dias, uns problemas com o tipo que as iría receber, enfim, lá temos nós que ficar com elas.

Ted não respondeu, observava fixamente os monitores enquanto afagava a barba grisalha, ao fim de algum tempo de silêncio, fez uma pergunta estranha:

-Tens saudades de alguma coisa da tua antiga vida...como Grace?

-Não - respondi sem pestanejar- para mim Grace está morta e enterrada, o passado é algo que não vale a pena ser relembrado.

-Entendo - respondeu sem me olhar, imagino que ele esteja a pensar em Jessica e Mary, a filha e a esposa dele, que morreram num ataque á varios anos, se a filha estivesse viva teria quase a minha idade. - Hoje era o dia de aniversário da Jessica...

-Ah...não sabia...-sinto um incómodo repentino, como se estivesse a mais naquele lugar, dou uma desculpa rápida e vou-me embora.

No fundo, todos nesta comunidade, temos os nossos fantasmas do passado, todos queremos fugir daquilo que já vivemos, guardando cicatrizes físicas e emocionais, mas Ted era uma excepção, o seu passado fora feliz, e o presente um pesadelo. Ele teve uma vida tão normal quanto possivel, fora um informático brilhante de uma grande empresa da capital, era uma pessoa respeitada no seu meio, tinha uma familia que amava, até ao dia em que por se ter recusado a fazer algo ilegal, a sua familia foi chacinada como vingança, hoje é apenas uma mera sombra que se arrasta na sala de informática da "villa". Quase que juro que me pareceu ouvi-lo cantarolar baixinho "os parabéns a você" antes de eu sair de lá.

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publicado às 16:47


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