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Uma história ainda sem titulo (parte 8)

por Elisabete Pereira, em 27.06.18

Capítulo 8

 

Charlotte

jenna-norman-291022-unsplash.jpg

 

O pó entranhou-se em todo o lado, por mais vezes que eu limpe, o sotão ganha rapidamente uma nova camada de pó e teias de aranha surgem espontaneamente, é uma tarefa da qual já deveria ter desistido, mas que no entanto, me consegue manter ocupada, a ideia de tornar este espaço num estúdio de pintura, está a dar mais trabalho do que imaginava, eu sempre adorei pintar, e este espaço tem uma luz natural muito boa, parecia uma boa ideia. Dou uma trégua aos panos e á esfregona, para observar a aldeia ao longe através da janela, neste momento a minha mãe deve estar a dar mais uma das suas consultas lá, ela conseguiu arranjar uma velha bicicleta que estava esquecida algures num canto deste castelo, e com a ajuda de Nick, ela conseguiu pôr aquela sucata a andar, para se deslocar até á aldeia, infelizmente os aldeões têm pouco dinheiro, e por norma pagam em géneros alimentares, se fosse noutros tempos eu iria sentir-me indignada pela minha mãe se sujeitar a tão pouco, mas os tempos são outros, e tudo o que vier é bem vindo, pelo menos não passamos fome . De repente o silêncio é quebrado por um buzinar de um carro, será algum condutor perdido por estas bandas?Desço para ver o que se passa, quando a meio do caminho cruzo-me com Nick que traz uma mala de ferramentas na mão, deve tir ido arranjar mais alguma coisa neste amontoado de pedras a que chamam de castelo, de repente ele pára e olha para mim, e para meu espanto, desata a rir, fico chocada com a atitude dele, mas depois noto o porquê de ele se rir de mim, ao ver o meu reflexo numa janela, noto que estou repleta de pó e teias de aranha, e parte dos meus cabelos saiu fora do lenço que eu havia colocado na cabeça para proteger do pó, estou assustadora. Corro imediatamente para o meu quarto, cheia de vergonha do meu aspecto e para me arrumar devidamente, quando Eleanor bate á porta:
-Menina está aqui um advogado que quer falar com a sua mãe. - fico tensa de imediato, será que ele traz alguma novidade sobre o meu pai? - Quer que eu lhe peça para aguardar?
- Sim - digo enquanto enfio um vestido á pressa, e apanho o cabelo num rabo de cavalo - Diz-lhe para aguardar, que eu vou já falar com ele.

- Com certeza menina.

Num ápice chego á sala de estar, onde o advogado do meu pai se encontra sentado num sofá a observar a pintura de uma antepassada minha na parede em frente dele, a figura algo curvada e careca, segura uma pasta nas mãos:

-A minha tia avó Enid, era uma mulher lindissima - digo enquanto eu própria observo o quadro - Infelizmente morreu demasiado jovem, uma tragédia terrível, foi atacada subitamente por um vírus que a matou em pouco tempo, o seu noivo enlouqueceu e enforcou-se pouco depois.
-Era uma jovem extraordináriamente bela, não há dúvida, mas a menina Halle não lhe fica atrás. Como vai? - diz o advogado enquanto me cumprimenta com um aperto de mão, algo bajulador para o meu gosto - Desculpe vir incomodar, mas trago novidades sobre o processo e gostaria de falar com a sua mãe.

-Infelizmente ela não está, e ainda vai demorar, mas pode transmitir-me as novidades, ou esperar por ela, mas asseguro-lhe que ela ainda vai demorar cerca duas horas a voltar. Desculpe os meus modos, quase me esquecia, vai desejar tomar algo? A Eleanor pode trazer um café, ou um sumo natural.

-Obrigado, aceito um café com todo o gosto.

Chamo Eleanor, que rapidamente traz uma bandeja com café e bicoitos caseiros, e serve uma chavena de café para mim  e outra para o advogado, durante uns minutos ficamos ambos em silêncio.

-Bom, o café estava excelente, mas infelizmente não tenho tempo para esperar pela sua mãe - diz enquanto pousa a chavena vazia e se serve de alguns biscoitos - por isso se não se importa, vou direto ao assunto, até porque não posso me demorar muito, o caminho para cá foi mais complicado do que eu pensava e tenho outros assuntos pendentes para tratar, mas enfim....Como o seu pai está numa situação muito dificil, neste momento ele só tem uma saída. 

-E qual é?
-Afirmar que sofreu de insanidade temporária...
-O meu pai não é maluco!- digo indignada.
-Oiça menina, é a única saida que ele tem, se ele afirmar isso será transferido para o hospital psiquiátrico de imediato, e assim ganhamos tempo para melhorar a sua defesa.
-Mas...
-Eu compreendo que seja difícil aceitar, até porque está em causa o o bom nome da sua familia, mas sabe, eu sou advogado há muito tempo, mais do que a menina tem de vida, e já vi muito, já defendi muita gente, culpados e inocentes, e posso lhe assegurar, que o seu pai atingiu o rei com a espada, não sei o porquê do motivo, mas ele fez isso, e a acusação também o sabe, por isso cabe-me defender o meu cliente da melhor forma possível, e esta é a a única jogada que irá salvar o seu pai da pena de morte.
Afundo no sofá ao meu lado e ponho as mãos na cabeça, o meu pai a ser dado como louco é uma verdadeira humilhação para o nosso nome, além disso isso significa que as minhas hipóteses em reconquistar Peter estão a ir por água abaixo. 

-Lamento menina, mas é o único caminho. Bem, se me dá licença, ainda tenho um longo caminho a fazer. - diz enquanto me entrega uns documentos, imagino que seja uma cópia do processo do meu pai. 

-Claro - digo em voz quase sumida - a Eleanor acompanha-o á porta.

Oiço os passos deles a afastarem-se, e pouco depois o barulho da porta de entrada a ser fechada, Eleanor rapidamente chega á minha beira.

-Menina...

-Eleanor, peço-te que não fales com ninguém sobre o que aconteceu aqui.

-Mas...

-A ninguém!! -grito fazendo-a dar um salto de susto.

-Sim menina, se é o que deseja.

-Óptimo, podes sair e ir fazer as tuas coisas, já não preciso de ti.

-Com certeza .- diz enquanto coloca as chavenas vazias na bandeja e as leva para a cozinha.

Fico parada no mesmo lugar durante um bom tempo, até que oiço a voz da minha mãe:

-Hoje o dia foi bem produtivo, não temos dinheiro, mas temos legumes frescos e ovos caseiros. - diz ela alegremente enquanto coloca uma enorme cesta á minha frente, e só depois é que repara em mim - Então Charlotte,o que se passa? Não me digas que voltaste a encontrar mais um rato no sotão.

-É pior do que isso, o advogado do pai esteve cá, e disse que a única forma de ele se safar é se declarar que sofreu de insanidade temporária.

-Se é a única forma de salvar o teu pai, o melhor é aceitar.

-O quê?! Não percebes? Isto é uma tragédia, uma nódoa terrível no nome da família, agora é que o Peter não vai querer voltar a olhar para mim!

-Querida, por vezes a melhor maneira de resolver as coisas não é exactamente as que idealizamos.- diz enquanto afaga o meu cabelo - A vida do teu pai é mais importante do que tudo o resto.

Afasto-a de forma brusca, e levanto-me do sofá rapidamente, ela não compreende o que tudo isto pode implicar para mim.

-Charlotte...- diz ela, mas eu não respondo, estou com demasiada raiva-...filha...

-Eu não sou tua filha!!! - grito-lhe de volta, mas arrependo-me logo- ....eu...não era isso o que eu queria dizer...

-Eu vou levar isto á Eleanor, acho que ainda deve sobrar alguma coisa para comermos durante uns dias, mas tenho de pedir ao Nick a ver se ele concerta o frigorifico - ela pega na cesta e rapidamente abandona a sala.

Sei que a magoei de várias maneiras, por vezes sou tão estupida! A minha mãe sempre foi a minha melhor amiga, como a pude magoar tanto? Arrependo-me amargamente do que disse, mas já não dá para desfazer aquilo que foi dito. Eu sempre tive uma grande admiração pelo meu pai, mas também sei dos terriveis segredos que ele esconde da sociedade, apesar da aparência perfeita da nossa familia, aliás, eu sou a maior prova desses deslizes da parte dele.

**********

O jantar foi bastante silencioso, depois do que disse à tarde fui incapaz de dizer uma palavra de jeito durante todo o jantar, a minha mãe também não falou muito, apenas o essencial, e rapidamente foi para o quarto dela.

Mais tarde o sentimento de culpa fez com que eu fosse ter com ela, mas também entender melhor sobre o meu passado, eu nunca abordei muito a minha mãe sobre isso, e a discussão de hoje fez aumentar a minha curiosidade. Mas claro, para isso, tenho de lhe levar aquilo que é o seu ponto fraco, chocolate quente.

- Podes entrar Charlotte. - diz a minha mãe em resposta mal bato á porta do seu quarto - Desde que tragas chocolate quente, claro.

Sorrio, e entro de imediato, o quarto dela é dos mais bonitos do castelo, e o mais bem conservado, a cama enorme de dossel é algo de se fazer inveja, até na nossa antiga casa não tinha nenhuma cama tão bonita, transporto duas canecas vazias numa mão e um termo com chocolate quente na outra, ela vem ter comigo e pega numa das canecas e no termo enchendo logo em seguida a sua caneca com o líquido fumegante e sentado-se numa cadeira, eu pego e faço mesmo mas sento-me na cama dela, brinco com um dos buracos da colcha com a mão livre, não é facil para mim perguntar sobre isto, porque não sei como a minha mãe iria reagir, mas é algo que eu tenho de lhe perguntar, embora não tenha coragem de o fazer:

-É bom de vez em quando podermos ter estes pequenos luxos - diz ela enquanto sente o cheiro do chocolate na sua caneca - não sei por quanto tempo ainda teremos dinheiro para estas coisas, vou ter de concentrar o pouco que temos no essencial.

-Eu posso trabalhar - mas já sei qual é a resposta dela a isso- posso ensinar na aldeia as crianças a tocar algum instrumento ou algo do género, ou...

-Charlotte, isso está fora de questão, sabes bem qual é a minha opinião sobre isso.

-Ok, ok. E alugar uma parte do castelo? Sempre entrava mais algum dinheiro, isto tem tantos quartos.

-Pois mas para isso era necessário restaurar o castelo, e para isso é necessário dinheiro, coisa que neste momento pouco temos. De qualquer forma não quero neste momento falar de dinheiro, vamos mudar de assunto? Como têm andado as coisas por cá?

-Nada de especial, o Nick passa o dia a concertar coisas sem concerto possivel, e eu ando a ver se consigo dar uso áquele sotão imundo, mas sem sucesso. Tirando a Eleanor, que cozinha maravilhosamente, mesmo com poucos ingredientes.

-Sempre te decidiste voltar a pintar? -pergunta a minha mãe com um brilho nos olhos - pensei que era apenas um ato de teimosia da tua parte.

-De inicio era, - digo com sinceridade - mas agora penso que seria boa ideia voltar a pintar.

- O teu avô iria gostar muito - diz ela com a voz um pouco embargada de emoção - vocês eram os melhores companheiros de pintura.

Sorrio com a recordação de infância que surge na minha mente eu e o meu avô a pintarmos a paisagem de um lago que ficava próximo da casa dele, eu comecei a pintar muito nova, o meu avô materno era um pintor exímio, e para além da loja de artigos eletrónicos, ele por vezes era convidado para fazer exposições de pintura na cidade onde vivia, eu comecei a imita-lo e com o tempo fui também adquirindo o gosto pela pintura, eu pintava sempre com o meu avô ao lado, foi o melhor mestre que podia ter, até que ele faleceu, tinha eu 15 anos, e a partir daí abandonei a pintura.

-Mãe posso fazer-te uma pergunta? - pretendo mudar de assunto, não me quero recordar da perda do meu avô, e também porque o motivo que me levou a ter com ela é outro - Porque ainda continuas casada com o pai? E eu, porque me aceitaste? 

-Ah, porque me casei com o teu pai?...essa é uma boa questão. Quando me casei com o teu pai, eu era muito nova, muito ingénua, ainda era estagiária no Hospital, ele no entanto, já era um homem feito, afinal temos quase dez anos de diferença,era um homem com um grande carisma, e charme. Fiquei logo fascinada por aquele homem misterioso. É engraçado, mas, a minha mãe na altura tentou travar o nosso namoro dizia que ele era como "um poço sem fundo", que assim que eu me atirasse nunca mais iria conseguir sair, palavras sábias as dela. Só que na altura eu não quis saber, achava que era excesso de protecção da parte dela. Entretanto casamos, e mais tarde, sofri um duro golpe em saber que não podia ter filhos, e foi pouco depois que descobri que ele me traia, só que eu sentia que ele fazia isso por culpa minha, como eu não podia ter filhos, ele procurava outras mulheres. Até que um dia apareceu á porta de nossa casa uma rapariga com pouco mais de 18-19 anos, ela tinha a roupa muito estragada e um ar de quem não se alimentava como deve ser há algum tempo, e nesse momento reparei também que ela trazia nos braços algo envolto em trapos, quando me aproximei vi que era uma bebé de poucas semanas, ela disse que a bebé era filha dela e do teu pai, mas que ela não tinha como manter a criança e por isso veio entregar ao pai, confesso que quando vi aquela bebé a senti de imediato como filha, nunca senti nenhum género de repulsa ou raiva, tomei a decisão naquela hora, de ficar com a bebé, e assim, dei algum dinheiro há rapariga para que ela fosse recomeçar a sua vida noutro lado, e fiquei com a bebé. O resto da história já tu a conheces. 

Escuto-a em silêncio enquanto bebo o meu chocolate quente, e reflicto no que ela acabou de dizer:

- E o pai, como ele reagiu a isso?

- Ele não ficou muito feliz na altura, mas depois percebeu que isso iria calar muitas vozes e boatos dos que nos criticavam na época por ainda não termos filhos.

-E mesmo assim depois de tudo, ainda continuas casada com ele? 

-Sabes, ao fim de um tempo, as coisas...a vida encaixa-se de um jeito estranho...eu habituei-me a estar casada com o teu pai...não me iria habituar a uma vida sem ele, sabes, no fundo acho que nem eu própria sei explicar o porquê. 

-Hum, entendo. E aquela mulher...a minha...a..

-A tua mãe biológica? Nunca mais ouvi falar dela. Mas gostavas de a conhecer?

-Não, não é isso, mas era bom saber que ela alguma vez se tenha preocupado comigo, se quis saber como eu estava, sei lá...

-O facto de ela te ter deixado comigo já prova que ela se preocupava contigo, ela soube que ficaste em boas mãos.

-Talvez. Bem, não te vou maçar mais- pego na minha caneca vazia e na dela- vou levar isto para a cozinha e vou-me deitar em seguida. Até amanhã mãe.

-Dorme bem querida - a minha mãe beija-me a testa- e não fiques a pensar demasiado em coisas que não valem a pena.

***********

Vou pelo corredor na penumbra da noite, as janelas altas absorvem a luz da lua, e os meus pensamentos estão longe, como será a minha mãe biológica? Ainda é viva? Terei irmãos? Uma violenta dor de cabeça desperta-me para a realidade, bati contra alguma coisa, depois percebo que não é uma coisa quando oiço a praguejar:

-Não sabes ter cuidado por onde andas?- Nick esfrega o ombro no local onde eu embati contra ele - Lá porque és magra, não quer dizer que não magoe á mesma.

-Uau! Que cavalheiro! - digo sarcástica - sempre com um comentário apropriado.

-A princesa quer que eu lhe faça uma vénia é?! - responde ele com uma venia grosseira- Esqueci que o mundo gira á sua volta.

-Não, não gira. Mas adiante, por acaso eu até precisava de falar contigo.

-Sobre?-ele franze a testa desconfiado- Se é para eu te ajudar naquele sotão, esquece, tu é que te meteste nisso. 

-Não é nada disso! - digo de forma impaciente - Ouvi o teu tio a dizer que estavas a estudar advocacia, é verdade?

-É sim, porquê?

-Porque preciso de um favor teu, vou só buscar uns documentos ao meu quarto e venho já. 

Entrego-lhe as canecas vazias, e vou a correr até ao meu quarto. Não sei porquê mas fiquei com a impressão de que o advogado do meu pai estava a ocultar alguma coisa, e por isso preciso de uma segunda opinião sobre o processo. Algures dentro de mim acende-se uma pequena luz de esperança. 

 

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publicado às 21:48



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