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Uma história ainda sem titulo (parte 3)

por Elisabete Pereira, em 01.04.18

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Capítulo três 

 

Charlotte 

 

Viramos a esquina e chegamos ao bairro mais caro da capital, estou a poucos metros de casa, mas há algo que não bate certo, este é um bairro algo movimentado, e por algum motivo não se vê ninguém na rua, um silêncio pesado enche a atmosfera do carro, estou com um mau pressentimento, quando vejo ao fundo a minha casa, compreendo o porquê do mau pressentimento.Não quero acreditar no que estou a ver, como é possivel? Esta não é a minha casa de certeza, há algum engano, pergunto ao motorista se por acaso não se terá enganado na morada, mas ele afirma que é mesmo ali. Saio do carro estarrecida, o que fizeram á minha casa...está irreconhecível, a mansão branca de estilo moderno e o jardim com os seus arbustos perfeitamente simétricos foram alvo de vandalismo, as paredes da casa estão cheias de graffity com palavras de ódio contra a minha família e palavrões que o pudor me impede de os repetir em voz alta, várias janelas foram partidas, o jardim foi totalmente arrasado, nem noto que o motorista já havia colocado as minhas malas ao meu lado e partido, estou sozinha na rua completamente imovel e chocada com o que vejo. Sou interrompida da minha estupefacção quando a minha mãe abre a porta de casa e chama por mim:

-Charlotte és tu?- ela corre para me abraçar- graças a Deus que estás aqui. Como estás meu anjo?

-Bem- minto, encarando-a com um pequeno sorriso -o impacto foi forte, mas não caio com facilidade.

A minha mãe olha para mim desconfiada, mas logo puxa pelo meu braço para entrar dentro de casa

-As minhas malas estão lá fora mãe, tenho que as ir buscar...

-Não há tempo, temos de ir embora daqui o mais rápido possivel, vai ao teu quarto, pega no essencial e põe numa mochila.

-Quê?! A Alice onde está? Ela pode ajudar-me com essa tarefa enfadonha- a nossa governanta está connosco há muitos anos, e é uma grande ajuda no âmbito de arrumar malas de forma impecável num curto espaço de tempo. E os outros criados onde estão? O que se passa mãe?

- Eles abandonaram-nos, não ficou ninguém, se ficarmos aqui, corremos perigo, vai lá buscar as tuas coisas, temos 30 minutos para sair daqui, sei que pode parecer muito confuso, mas depois explico tudo pelo caminho.

Ainda estou atordoada com tudo o que está a acontecer á minha volta, quando eu e a minha mãe seguimos num velho carro (não sei onde ela o arranjou) até á estação de comboio, sei que fui infantil em insistir pelo menos em guardar as minhas malas na garagem de casa, mas só a ideia de alguém pegar nas minhas coisas deixa-me agoniada, no fim anda consegui para além da mochila, levar duas pequenas malas, uma pequena vitória no turbilhão que tem sido a minha vida ultimamente.

-Afinal para onde vamos mãe? Porque parece que estamos a fugir?

-Porque estamos mesmo a fugir, soube de fonte segura que tencionavam atacar-nos, assim que voltasses para casa, já não é seguro ficarmos aqui.

-E o pai? Não o podemos abandonar!

-O teu pai tem o melhor advogado do reino a tratar do caso, não ha nada que possamos fazer por ele, de momento temos de tratar da nossa segurança, infelizmente a nossa casa na praia em Alley também foi vandalizada, não podemos ir para lá...

-Então vamos para onde? Não temos mais casa nenhuma.

-Para Norte, para o castelo dos antepassados do teu pai.

-Aquilo é uma ruina velha de pedra!! É o fim do mundo! E porque não ficamos em casa de algum amigo da nossa família?

-Não é nada, além disso lá ficamos em segurança...praticamente é isolado o suficiente para nos irem procurar. Infelizmente depois do que aconteceu todos os nossos "amigos" viraram-nos as costas, não temos ninguém a quem recorrer, excepto Martin, foi ele quem me ajudou a planear a nossa fuga.

-O pai da Meghan?! -reviro os olhos de tédio, o tipo é um chato de primeira e só a minha mãe não nota que ele tem uma queda por ela, é viuvo á varios anos, e tem uma filha que consegue ser mais chata do que ele, a minha mãe queria que fossemos amigas quando éramos crianças mas nunca tive paciência para a aturar. - Nunca pensei que ele fosse capaz de algo tão inteligente, passa a vida a falar de algas e cenas do género.

-Ele é boa pessoa, e conseguiu um grande feito com as algas, basicamente limpou a mairia da poluição dos oceanos gerada durante séculos.

-Não acredito que vamos atravessar o país de comboio para irmos viver num lugar como aquele -resmungo enquanto observo uma rachadura no verniz de uma das minhas unhas

-Ainda há outra coisa que não te contei, nós vamos em terceira classe, temos de passar despercebidas, não vá alguém nos procurar na primeira classe, além disso vamos viajar com nomes falsos.

-O quê?! Que nojo, ter de me misturar com essas pessoas vulgares, ainda vamos apanhar piolhos.

-Que exagero Charlotte! São pessoas como nós!

-Não, não são, que vergonha! Há pouco mais de uma semana, eu vivia como uma princesa e agora...

-...Já não és princesa. Desculpa dizer-te isto assim mas estás a ser infantil, aliás eu tambem já fui uma dessas "pessoas vulgares", não nasci rica, os meus pais lutaram muito para eu ter tido a formação académica que tive, e tenho orgulho disso, ou queres dizer que tens vergonha de mim?

-Desculpa mãe... -respondi envergonhada, sei que ela tem razão, e por momentos quase me esquecia que a minha mãe tinha uma posição social elevada pelo casamento com o meu pai, ela antes era médica num pequeno hospital de uma pequena cidade dos arredores da capital e vivia com os meus avós que eram donos de uma pequena loja de aparelhos eletrónicos - pronto, ganhaste, mas aviso que se vir algo assustador fujo para a primeira classe.

-Deixa-te de coisas, ás vezes és demasiado dramática!! - respondeu a minha mãe dando risada e colocando o braço no meu ombro - vais ver que não te custa nada.

 

**************************************

Não disse nada por respeito á minha mãe, mas odiei a viagem, os assentos eram demasiado duros, as pessoas demasiado ruidosas, a comida pessima e quando fui á casa de banho do comboio fiquei com vontade de vomitar, mas fiz de tudo para me distrair daquela situação, acabei por adormecer e sonhar com Peter, no sonho eu estava separada dele por um vidro, e ele não me via, eu gritava e gesticulava, mas ele nem reagia, depois uma rapariga vestida de noiva aproximou-se dele e ele colocou-lhe uma aliança no dedo e a beijou, e nisto os dois desaparecem e eu sem poder fazer nada, até que dei um grito no sonho e acordei daquele pesadelo. Era de noite, a minha mãe dormitava ao meu lado, imagino que esta situação não seja facil para ela também, mas ainda não a vi queixar-se uma única vez, admiro-a muito, ela sempre foi um mar de calma em qualquer tempestade , e consegue ver sempre o lado positivo de tudo ás vezes gostava de ser mais como ela, ajeito a manta que lhe descai de um dos ombros, não sei com o que sonha, mas a dada altura ela sorri, deve ser algo bom, decido voltar a dormir, o comboio só chega ao nosso destino daí a umas seis horas, só espero poder ter um sonho bom.

 

************************************************

Uma carrinha azul celeste de caixa aberta está á nossa espera ao lado da pequena estação de Rockview, mas dizer que aquela velha carripana era azul demonstra que estou a ser muito simpática, pois a ferrugem ocupa mais espaço do que a tinta; um senhor de bigode e algo anafado sai do lugar do condutor e vem comprimentar-nos:

-Sra e menina Halle, é uma honra para nós a vossa presença por cá. - claramente as noticias ainda não chegaram a este vilarejo, a julgar pela maneira servil com que ele nos abordou, se soubesse o que aconteceu provavelmente seriamos recebidas com pedras- Deixe estar senhora Halle, eu ajudo com as malas.

-Não é preciso.-respondeu a minha mãe de forma amável - trazemos pouca coisa connosco.

O senhor gesticulou negativamente e virou-se para a carrinha gritando:

-Nick, vem comprimentar as senhoras e ajudar com as malas! - depois virou-se para nós desculpando-se - É o meu sobrinho Nick, é bom miudo, mas vive mergulhado nos livros, está a estudar na universidade, e como agora está de férias veio dar uma ajuda .

Observo o rapaz que saiu do lugar do pendura e vem na nossa direção, é bonito, para quem gosta do género, mas bem que podia cortar o cabelo, dá-lhe um certo ar desmazelado.

Ele comprimenta-nos com um aceno, o que faz com que eu repare nos olhos semi-ocultos pelo cabelo castanho comprido, eram de um cinzento quase transparente, mas ele não faz o meu género, e por isso não dou importância.

Chegamos á beira da carrinha, quando noto um cão castanho tipo beagle, deitado no banco do pendura, o senhor deve ter notado o meu ar, porque acrescentou:

-A lily é uma cadela muito limpa e não tem pulgas,não se preocupe, pode sentar no banco á vontade

-Deixe estar, de qualquer forma não cabemos todos, eu vou lá atrás.

-Mas olhe que o caminho tem muitos buracos e ainda pode cair e magoar-se...

-Tudo bem- respondi enquanto subia com dificuldade para a traseira da carrinha, não ia ser confortavel, mas pela primeira vez em várias horas ia poder estar sozinha que era mesmo o que estava a precisar naquele momento- eu aguento, não sou uma florzinha de estufa.

 

**********************************

 Ao fim de uns vinte quilometros de curvas, contracurvas, buracos e um bando de galinhas que se atravessou á nossa frente chegamos ao antigo castelo da minha familia, há qualquer coisa de imponente e decadente no aspecto da fachada em pedra, diz a lenda que há 300 anos o primeiro duque de River Castle Tobias era o único herdeiro ao trono porque era sobrinho do rei Leopold, conhecido como O Louco, o rei nunca teve filhos nem foi casado,mas após a sua morte surgiu um filho supostamente ilegitimo de Leopold, Tobias jurou vingança,e durante muito tempo tentou arranjar provas de que aquilo era tudo forjado, mas nunca encontrou nada que comprovasse a sua teoria, por fim, humilhado retirou-se para uma propriedade que tinha nas montanhas, bem longe da civilização e construiu este castelo, como forma de prémio de consolação. Entro e vou directamente para a sala de jantar, o retrato pintado em tamanho natural de Tobias que se encontra lá arrepiava-me em criança, embora viesse cá com pouca frequência, agora só me faz pensar que o tipo era completamente lunático ; mal chego á mesa e sinto um cheiro delicioso a comida no ar, o meu estômago começa a roncar bastante alto, coro imediatamente ao ver a minha mãe e os outros dois tipos a olhar para mim surpreendidos com o barulho do meu estômago, á varias horas que não como nada decente, mas sento na cadeira ao meu lado e pergunto como se não tivesse passado nada:

-O que é o almoço?

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publicado às 16:20



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