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The book of stories

The book of stories

Seg | 18.02.19

Uma história ainda sem titulo (parte 14)

Elisabete Pereira

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Capítulo 14

 

Jane

 

Bato com os dedos na mesa, como se esta fosse um piano, estou demasiado ansiosa, não é da minha natureza ficar á espera das coisas acontecerem, sou uma pessoa de acção. Tenho de manter-me na minha, prometi isso ao chefe, e não irei interferir no plano, mas isso não quer dizer que eu tenha de confiar naqueles dois, o rafeiro ainda não deu noticias, o que por um lado é bom sinal, mas prefiro estar preparada para o pior. Vou para a árvore mais alta observar as estrelas, sempre consigo ficar mais calma. Deve ser de madrugada, pois todos na "villa" já se deitaram, apenas os que estão de sentinela se mantém a pé, sinto-me inquieta, por causa do pesadelo que tive á pouco, quando adormeci sob a mesa. Não era um pesadelo, era o meu passado revivido, a doença e a morte da minha mãe, as agressões por parte do meu pai, como ele me rapava o cabelo e apagava cigarros na minha cabeça, o dia em que o medo levou-me a esconder uma faca debaixo da minha almofada, e quando á noite ele chegou pronto para voltar a agredir-me, espetei a faca directamente no peito dele, e fugi o mais rápido que pude, tinha nove anos, e não olhei para trás...

Uma buzinadela fez-me despertar dos pensamentos,  Higgins e o tal de Mike já devem ter chegado, desço o mais rápido que posso, ambos saltam da carrinha bastante satisfeitos.

- Sim senhor, isso é que é ser discreto! - reclamo - Põe-se a buzinar a esta hora?! Já devem ser umas três da madrugada! Está tudo a dormir.

- Calma Jane. - Higgins sorria para mim - Quando vires o que trouxemos já te passa o azedume.

- A miúda está lá atrás? - pergunto ansiosa - Deixem-me ver se ela está bem...

- Não te estiques Jane. - Higgins pegou no meu braço - Sabes que ela só vai ficar aqui de passagem, o chefe...

- Eu sei perfeitamente o que o chefe quer obrigado. - digo enquanto solto o braço dando-lhe um soco com o meu braço livre - Mas ela não é nenhum animal, não vai ficar presa enquanto o chefe não chegar.

-Não te preocupes, ela ainda está a dormir lá atrás. - Higgins deu de ombros enquanto tirava um cigarro do bolso da camisa e o acendia com um isqueiro - Não deve acordar tão cedo.

Talvez ele tivesse razão em estar tranquilo, mas mesmo assim, sentia que algo não estava bem, dirijo-me até á parte de trás da carrinha, e noto que uma das portas da mala está entreaberta, cautelosamente deito a mão ao meu canivete, e com a outra mão puxo a porta que está entreaberta, e para meu horror, vejo que lá dentro não há nada, apenas algumas cordas. Higgins e o amigo dele aparecem logo atrás de mim, e ficam pálidos quando vêem que a carrinha está vazia.

- Quero ver como se vão explicar ao chefe !- grito furiosa - Vocês nem sequer conseguem seguir um plano em condições! Deixaram a miúda fugir!

- Hum... isto não era bem o que...- Higgins tentou justificar - Pensei que a tivesse deixado inconsciente...pelos vistos não usamos tranquilizante suficiente, ela deve ter acordado durante o caminho...

- A sério?!  És um génio! - digo de forma sarcástica - Vocês têm ideia no sarilho em que ficamos? Além disso esta floresta é perigosa, existem zonas aqui que foram usadas para experiências científicas e animais também, alguns desses animais podem matar a miuda em dois tempos. Eu sabia que isto era um erro, a miuda devia vir de livre vontade, e não raptada.

- Pois...hum, o facto de também não termos verificado se as cordas estavam bem presas não ajudou muito...mas.. isso já não tem nada a ver connosco, eu e o Mike vamos andando...

- O quê? Vocês vão-se embora? Vão fugir? - olho para Higgins incrédula - Nunca pensei que fossem tão cobardes, e eu ainda tenho de "limpar" a vossa porcaria,  quem me ajuda a encontrar a miúda nesta floresta imensa?

- Não é bem uma fuga, é mais uma retirada estratégica. - Higgins entrou no lugar do condutor da carrinha - Não posso arriscar o meu pescoço, desculpa lá, não é nada contra ti, mas estás por tua conta. Boa sorte em encontrares a miuda.

- Idiotas!! - grito enquanto a carrinha desaparece rápidamente do meu campo de visão - Eu sabia que não podia confiar neles. E agora, o que faço?

Depois de ter tirado Ted da cama com dificuldade, e este a resmungar, foi para a sala de computadores localizar a miúda através das câmaras em diversas partes da floresta, contactei o rafeiro para que durante o trajeto da carrinha até á "villa" fosse procurar o rasto por onde ela poderia ter fugido. Ao fim de quase 2 horas conseguimos encontra-la, rapidamente peguei numa das nossas velhas moto4 e segui o trilho até chegar à localização onde se encontrava a miúda, rafeiro veio até ao meu encontro:

- Jane finalmente chegaste! - rafeiro parecia bastante aliviado por me ver - Ela está inconsciente e parece ferida...

- Leva-me até ela. - sigo-o por entre a folhagem de fetos - Depois vejo o que se passa. Há algum animal perigoso nas proximidades?

- Acho que não. - rafeiro abria caminho através de umas plantas espinhosas - Mas penso que ela pode ter sido picada por abelhas.

- Isso não é bom. - digo enquanto chegamos a uma clareira - A sorte é que temos antídoto para isso.

- Ela está ali Jane. - rafeiro aponta para umas árvores mais á frente - O veneno das abelhas deve tê-la feito desmaiar.

Quando cheguei até ela quase tive um susto, pois o seu corpo estava inchado, o que significava que se a tivessemos encontrado mais tarde, ela poderia não ter sobrevivido, com a ajuda de rafeiro e embora com alguma dificuldade, conseguimos levá-la para a moto e depois de estar bem segura, conduzi o mais rápido que podia até á "villa".

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