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Uma história ainda sem titulo (parte 13)

por Elisabete Pereira, em 01.11.18

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Aquele fio é lindo, mas eu não posso aceitar, Hethel no entanto sem ligar aos meus protestos coloca-o no meu pescoço.

O delicado fio de ouro tem um ligeiro toque frio em contacto com o meu pescoço, o pendente em forma de estrela dança ligeiramente acima do decote do meu vestido, tenho que concordar que Violet é verdadeiramente uma mestre em criar vestidos, aquele em particular é de cortar a respiração, a combinação do corpete com o vestido de tule em tom de vermelho sangue, e bordado com fio dourado, que se vai ramificando pela saia de tule, dá-lhe um ar de sofisticação. Ela própria está satisfeita com a sua criação.

- O fio fica-te mesmo bem - respondeu Hethel afastando-se um pouco para me observar - Trata bem dele durante o baile, é muito importante para mim, foi me dado pela minha mãe na minha primeira apresentação em público,sempre me deu muita sorte.

Hethel é bailarina, lembro de a ter visto uma vez na t.v. na casa de uns vizinhos, num programa especial de Natal, há cerca de dois anos.

- Se é assim tão importante o melhor é ficares com ele... - digo enquanto levo a as mãos ao fio para o tirar - Não quero que se estrague ou se perca.

- Não sejas parva! - diz ela com um sorriso - são só umas horas, além disso o que é que iria correr de mal no baile?

**************

Dentro de momentos vamos entrar no salão de baile, tento distrair o meu nervosismo observando as pessoas á minha volta, embora sejam apenas eu e a familia real naquele lugar, a verdade é que á nossa volta gravitam vários criados á nossa disposição, a rainha ajeita o fato de gala do rei, este embora um pouco debilitado, consegue passar uma aura de poder e segurança, a rainha está mais bela do que nunca, desta vez optou pelo cabelo solto de um dos lados do rosto, o que lhe dá uma aparência mais jovem,e usa um vestido azul escuro de mangas transparentes, eles sorriem um para o outro, são o retrato vivo da felicidade. Peter está mais afastado encostado á janela, não dá para ver a sua expressão pois está de costas para mim, Noah está ausente, disseram que ele estava indisposto, mas eu sei que o motivo é outro, muito provavelmente voltou a ter uma crise, lamento muito por ele. Uma mulher jovem aproxima-se de mim, tem penetrantes olhos verdes como o rei, e o cabelo castanho igual ao da rainha, deduzo logo que se trate da princesa Ariana:

- Deves ser a Lucy, certo? - diz ela cumprimentando-me - Peter e Noah já falaram algumas vezes de ti, confesso que fiquei com curiosidade em te conhecer.

- Ah....obrigado, mas não sei se é caso para tanto. - digo meia envergonhada - tenho a certeza que a princesa vai ver que eu não sou assim tão interessante...

- Eu acho que não te valorizas o suficiente Lucy. Espero que não te importes que te trate por tu... - responde ela -  E não me chames de princesa, só Ariana.

- Pois, vou tentar, mas não prometo que consiga.- sorrio para ela - Nervosa?

- Não, já não é propriamente uma novidade para mim - ela dá de ombros - Basicamente é só mais uma formalidade, e tu?

- Só um pouquinho. - admito enquanto olho para Peter - Confesso que ser o centro das atenções deixa-me desconfortável.

- Isso é porque ainda não estás habituada. - ela acompanha o meu olhar para Peter - Vais ver que quando te habituares será apenas mais uma coisa normal.

- Habituar-me? - desta vez olho para ela surpreendida - O que queres dizer com isso?

- Nada. - ela pisca o olho para mim - Dou-te um conselho, diverte-te e aproveita o momento.

- Vou tentar. - digo respirando fundo - É só um baile, não é?

- Exactamente, é esse o espirito! - diz ela enquanto levanta o polegar e se afasta de mim para se juntar aos pais - Diverte-te!

Pouco depois as conversas cessam, está na hora, as pessoas vão se colocando na sua posição, Peter junta-se a meu lado, os reis vão logo atrás de nós, Ariana vai atrás dos reis acompanhado por um homem desconhecido para mim, provavelmente algum namorado, a rainha não parece muito bem impressionada com ele, a julgar pelo olhar que lhe deitou, noto que eles vão cochichando bastante divertidos, a rainha parece ainda menos satisfeita com isso, mas não dá para ver mais, porque sou interrompida por Peter.

- Vamos?- ele estende o braço para que eu segure -Está na hora.

-Certo - digo agarrando o braço dele com alguma força - vamos lá.

Fico cega por uns segundos, por causa da luz forte e do brilho da decoração do salão de baile, mal os meus olhos se habituam ao ambiente tive de fazer um esforço para não ficar parada a olhar para o salão, parece um cenário saido de um livro, reparo que a multidão que não tira os olhos de mim, sinto-me desconfortável, como se estivesse despida, Peter sussurrou no meu ouvido quando percebeu o meu desconforto:

- É só fazer de conta que eles estão a usar roupas ridículas...ou nús, comigo costuma funcionar.

- Acho que prefiro fazer de conta que eles não existem, a ter de pensar que estão nús! - faço um pequeno esgar de nojo ao sem querer começar a imaginar as pessoas sem roupa - Credo, acho que vou ter pesadelos esta noite.

Peter dá uma pequena gargalhada, o que me faz sentir um pouco menos nervosa, até consigo esboçar um sorriso para a multidão, rapidamente chegámos próximo a um púlpito onde o rei vai discursar antes do inicio do baile, o rei apesar da sua fragilidade, tem um andar decidido, e ligeiramente apoiado na rainha aproximou-se do púlpito:

- Povo de Eran, o meu discurso será breve, infelizmente tive pouco tempo para o preparar como deve ser, mas eu queria, mesmo assim, demonstrar que apesar do duro golpe que me causaram, que tenho um compromisso para convosco, para o meu reino, eu não quero que vocês sintam que vos abandonei, jamais irei virar as costas. Mesmo ainda não estando a 100%, o momento é de celebrar, e por uma noite, deixar-mos as preocupações para trás. Divirtam-se!

Todos batemos palmas, pouco depois, as luzes baixam e percebemos que é a hora do baile começar, Peter guia-me até ao meio do salão, a  multidão afasta-se para nos dar espaço, a orquestra no canto inicia uma melodia lenta e nostálgica, Peter coloca uma das mãos nas minhas costas e a outra segura a minha mão, ele vai-me guiando na valsa, sinto como se estivesse a deslizar nas nuvens, no entanto sinto-me ao mesmo tempo embaraçada pela proximidade com ele, a dança parece durar uma eternidade, é uma tortura para mim estar tão próxima dele. Quando a música termina, praticamente fujo dele e escondo-me entre as pessoas que se aproximam da pista de dança, ele nem teve tempo para me procurar, várias mulheres estavam á volta dele para poderem dançar com ele. Pouco tempo depois a orquestra inicia uma nova música, e eu aproveito para me ir sentar ao lado de Violet.

-Já te cansaste do principe? -diz ela com um copo de champanhe na mão, claramente ela já se encontrava "alegre" - Se fosse comigo, não o deixava escapar.

-Pois...- respondo enquanto lhe seguro no copo,que balança perigosamente da mão dela- Não achas que ainda é muito cedo para apanhares um pifo?

- Buhhh...a Lucy está a ser muito mandona hoje! -ela ri e volta a pegar no copo- Relaxa, hoje é dia de Festa!!!

Hethel vem ao nosso encontro sorridente, ela senta-se ao nosso lado, está radiante, estranhamente feliz.

- Lucy, estavas linda! - ela suspira ao falar comigo - A noite está incrível não acham!?

Então noto algo que brilha na mão esquerda nela, um anel...

- Isso é aquilo que estou a pensar? - franzi o olho - Não sabia que tinhas um namorado!

Ela cora ligeiramente e sorri, mostrando o anel de brilhantes antes de responder:

- Eu e o Neill namoramos há vários anos, e hoje ele veio ao baile de propósito para pedir-me em casamento, amanhã vou falar com o príncipe Peter para deixar de ser candidata a princesa, estamos a planear casar daqui a poucos meses, Lucy, não imaginas o quanto eu me sinto feliz!

- Desejo-te as maiores felicidades, e espero um convite para o casamento claro, mas tenho uma dúvida, porque te candidatas-te a princesa?

-Foi uma estupidez da minha parte, mas dias antes tinha discutido com o Neill, e por ciúmes inscrevi-me, é escusado dizer que me arrependi quando descobri que era uma das selecionadas...mas, agora está tudo resolvido entre nós.

- Ainda bem que alguém está feliz hoje. - sorrio para ela - Que pelo menos alguém se divirta.

-Que queres dizer com isso? - Hethel olha para mim surpreendida - Vá lá,  hoje é um dia diferente é para nos divertirmos, porque não vais dançar para te animar?

-Hum, acho que não... - respondo enquanto observo Peter a dançar com uma senhora bastante desastrada e que de vez em quando lhe pisa os pés - Vou só ficar mais uns cinco minutos, e depois vou para o meu quarto.

-Pareces uma velha a falar! - Ela riu - Fica por mim, sim? Vou te apresentar o Neill, vais adorá-lo!

Nem tenho tempo de responder, ela desaparece entre a multidão e cinco minutos depois volta com o rapaz que deve ter uns vinte anos, é bastante alto e parece ser simpático, comprimento-o e logo se inicia uma alegre conversa entre nós, de vez em quando dou uma espreita para Peter, mas ele afastou-se da pista de dança, e encontra-se a conversar com um homem de farda militar, noto que Violet desapareceu, provavelmente deve estar encostada a alguma sanita, contando com o que bebeu, deve estar neste momento a aliviar todo o conteúdo do estômago.

Passado um tempo, pareceu-me ver algo pelo canto do olho, mas o que sucede a seguir é demasiado rápido para eu perceber o que se passa, Peter vem de repente na minha direção e atira-me para o chão, oiço o som de tiros e de coisas a partir, uma confusão de pernas á minha volta, rastejo cuidadosamente para não ser pisada por alguém para debaixo da mesa mais próxima, não conversamos, apenas observamos aterrorizados o que está a acontecer, muitos fogem em pânico, há pessoas caidas no chão, algumas gemem, outras estão imoveis, provavelmente estão mortas a julgar pelas poças de sangue que as rodeiam, dou um grito quando encontro com o olhar o corpo de Hethel no chão, os seus olhos estão abertos, e próxima á orelha esquerda está um orifício redondo de onde jorra um pequeno fio de sangue, percebo de imediato que está morta, olho para Peter, mas ele já não se encontra ao meu lado, também não vejo ninguém da familia real. Estou tão distraída que mal percebo alguém a tentar agarrar-me pelas costas, instintivamente dou um pontapé para trás e atinjo a pessoa que dá um urro de dor, mas logo a seguir sou imobilizada, e colocam um lenço no meu nariz, de repente tudo fica negro á minha volta.

 

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publicado às 09:53



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