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The book of stories

The book of stories

Sab | 18.08.18

Uma história ainda sem titulo (parte 11)

Elisabete Pereira

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 Capítulo 11

Lucy

 

Dobramos a esquina do corredor sem olhar um para o outro, há um silêncio desconfortavel entre nós. Não temos motivo de conversa, nos primeiros minutos ainda conseguimos conversar alguma coisa, pequenos nadas que rapidamente se extinguiram, e agora nenhum dos dois sabe o que dizer, os nossos passos são o único barulho que se ouve, a dada altura noto que o principe Peter mexe os dedos das mãos numa atitude de claro desconforto com a situação,  ele próprio não está á vontade. Nunca pensei que ele se fosse sentir assim comigo, de certo modo isso dá-lhe uma aparência mais normal, uma pessoa como qualquer outra e não um príncipe.

- Há alguma coisa nas minhas mãos que lhe tenha chamado a atenção? - pergunta ele, reparando no meu olhar - Tirando a cicatriz que tenho na mão direita, de resto não se diferem de outras mãos.

- Uma cicatriz?- pergunto de forma sarcástica - Cortou-se nalguma folha de papel?

- Não, foi um pouco mais grave do que isso, fui atingido por um punhal. - ele respondeu secamente - Há uns anos o palácio foi atacado, e ao tentar defender-me de um rebelde, ele deu um golpe na minha mão, a minha sorte foi um que um dos guardas deu um tiro no rebelde, e levou-me para um lugar seguro.

- Ah....não fazia ideia - Aquela resposta surprendeu-me, mas não me dou por vencida. - Eu tenho várias cicatrizes.

- Várias? - ele franze o sobrolho - Ou está apenas a tentar impressionar-me?

- Claro que tenho várias cicatrizes, asseguro que é verdade. - mostro com orgulho as minhas cicatrizes nos braços - Estas nos braços, eu tinha 9 anos, foi quando perdi uma aposta com Thomas, tive que invadir o galinheiro do velho Oliver Baggins e roubar uma galinha como castigo, o velho Baggins descobriu e veio atrás de mim com uma forquilha na mão, a dada altura coloquei mal um pé, e caí no chão, nem sei como não parti nenhum osso, foi uma queda um bocado feia, alem disso a galinha bicou os meus praços e abanava as asas para tentar fugir, mas mesmo assim consegui a galinha.

- Impressionante. - ele respondeu fingindo surpresa- Isso demonstra uma vida quase selvagem.

- Mas isso não é nada de mais- digo enquanto pego na saia do vestido, e levanto até á zona joelho da perna esquerda para mostrar uma cicatriz praticamente em forma de borboleta - Isto foi uma bala que passou de raspão, mas deixou o osso á mostra na altura, demorei semanas a recuperar.

- Uma bala? - noto que ele desviou a cara quando levantei o vestido, não deixa de ter a sua graça o seu lado de cavalheiro - Posso perguntar qual o motivo?

- É melhor não. - volto a baixar o vestido - Talvez noutra altura eu conte.

- É uma jovem cheia de mistérios - ele parecia divertido - Está a sair melhor do que a encomenda.

- Não sou assim tão misteriosa, mas tenho os meus truques na manga - respondo prontamente -aliás, como se costuma dizer, um mágico jamais revela todos os seus truques.

- Imagino que sim, no entanto para mim não deixa de ser um mistério a súbita intimidade entre si e o meu irmão - ele emenda logo de seguida - Embora eu fique contente por ele interagir com outras pessoas, para além da familia.

- Não me diga que tem medo de perder a amizade do seu irmão para mim. - digo com um sorriso brincalhão - Não se preocupe que não lhe pretendo roubar o lugar.

- Não é isso, o problema é outro, Noah tem 16 anos, e nunca se apaixonou por ninguém, e temo que ele esteja a confundir as coisas entre vocês - já não há vestigios do humor de à pouco no seu rosto - Não duvido que a Lucy sinta apenas uma sincera amizade por ele, mas no caso de Noah eu não tenho tanta certeza....

Dou uma gargalhada perante o ridiculo da situação, até entendo a atitude de irmão protector, e é só por isso que eu aceito que ele diga isso, mas afirmar uma coisa daquelas, é algo que supera o bom senso.

- Desculpe, mas acho que está a exagerar. - digo sem rodeios - Somos amigos e é só.

- Será? - de repente ele para e volta-se para mim com um ar sombrio - Não sei se deveria contar isto, mas aquele incidente que viu na primeira noite no palácio não foi totalmente inocente... Noah viu as raparigas a chegar através da janela do quarto dele, ele nunca assistira a tanto movimento á sua volta, normalmente ele nunca participa em cerimónias oficiais devido ao seu "problema" ,e curisamente ele ficou fascinado por uma das raparigas, e por causa disso, nesse dia ele esteve bastante instável, não parava de falar da tal rapariga, na altura não associei as coisas, e no meio de tudo isso, ele aproveitou uma distração minha e roubou a chave do quarto dele, no auge da crise ele acreditava que a tal rapariga estava á espera dele no lago do jardim, quando não a viu mergulhou no lago á procura dela, a sorte é que eu descobri a fuga dele a tempo, e foi quando eu vi a Lucy a fugir da varanda, não deu para ver bem se você era a tal rapariga que ele viu. No dia seguinte quando a chamei á biblioteca também era para me certificar se era você a misteriosa rapariga por quem Noah se tinha encantado, e verifiquei que realmente era...por isso fiquei de sobreaviso caso ele arranjasse maneira de ir ter consigo, o que realmente acabou por acontecer, não nas melhores circunstâncias . Mais tarde ele foi inteligente em atrai-la até ao mundo dele, através do xadrez para conseguir chamar a sua atenção e assim conquista-la.

- Isso é um absurdo! - digo peremptoriamente - é uma completa distorção da realidade.

- Assim o espero. -  ele dá um leve suspiro - mas conheço o meu irmão o suficiente para ter motivos para me preocupar.

O ambiente estava pesado sobre nós, como se algo incomodo tivesse sido revelado, até que me lembrei do encontro que ele teve hoje:

- Sinceramente, acho que está apenas a criar macaquinhos no sotão. E acredito que neste momento deve ter coisas mais importantes em que pensar - digo parecendo chateada - Mais precisamente no encontro que teve com a Josie Fleetwood.

- Pois, realmente não foi bem que eu esperava- ele parecia recordar algo verdadeiramente incomodo - Ela tinha dito que a familia criava cavalos, mas no final nem sabia montar a cavalo...foi um desastre de encontro, no fim acabou por cair em cima de um monte de...fezes, não foi bonito de se ver, fez um autêntico escândalo.

Não sabia se devia rir ou ter pena dele, mas honestamente a escolha em ter um encontro com ela foi dele, preferi continuar a ouvir a narrativa dele sem dizer nada.

- Ela é uma pessoa famosa, e pensei que fosse alguém capaz de se adaptar bem á vida na realeza, daí ser a minha primeira escolha para um encontro, ela seria supostamente uma das melhores opções , e por isso queria conhece-la melhor, saber se tinhamos pontos em comum, se era alguém interessante de se conhecer, mas não existe mais nada por detrás daquela personagem que ela criou, é uma pessoa completamente vazia de conteúdo...e adora mexericos, a quantidade de histórias que me contou sobre a vida alheia, deixou-me completamente sem palavras.

- Então vai manda-la embora?

- Não posso, os conselheiros não o permitem, ela é uma pessoa extremamente influente na população de Eran, se a mandar embora, isso poderá não ser bem visto, pelo menos para já tenho que a manter aqui.

- Imagino que já tenha alguém em mente para um próximo encontro.

- Sim, tenho uma ideia de quem será, mas como é obvio, não lhe poderei contar. 

- Nem eu pedi para o fazer, apenas constatei um facto. - Olho para os meus sapatos e respondo com um certo azedume - Somos apenas peões no seu jogo de xadrez alteza, vê em todas nós um motivo de interesse mas que é puramente apenas para o seu bem, se alguma não tem aquilo que pretende, descarta-a sem qualquer pudor, como fez com todas as outras que já abandonaram o palácio.

- Eu acho que você não se pode queixar. - diz ele respondendo alto mas sem gritar - Já teve praticamente três encontros comigo e ainda não foi "descartada".

-Três encontros? - bufo mostrando o meu desagrado - Isso não foram encontros de verdade! O primeiro foi praticamente para me dar uma bronca, o segundo foi para tirar as mãos do seu irmão do meu pescoço, e a terceira é esta, mas nem conta, pois foi o seu irmão que pediu para me acompanhar...

- Quer um encontro de verdade? - pergunta ele encarando-me de um jeito que me deixa desconfortavel - É disso que se trata?

- Eu não disse isso..eu...quer dizer..eu gostava de podermos nos conhecer melhor...- sinto as minhas bochechas a ferver enquanto gaguejo, nem sei porque reajo assim - Sem...sem segundas intenções claro, apenas duas pessoas que um dia eventualmente possam ser amigos, a palavra encontro pode levar a interpretações erradas.

 - Está a dizer que não tem interesse mais nenhum em mim, que não a amizade? - ele demonstra um sorrisinho que me deixa bastante nervosa - Então porque se candidatou? Quais são então as suas verdadeiras intenções para comigo? Ou apenas quer aproveitar-se de mim?

- Eu... - ele aproxima-se mais de mim, e começo a sentir uma estranha eletricidade entre nós - Eu não sei...

- Não sabe? - ele coloca um dos bracos á volta da minha cintura e aproxima a cara dele cada vez mais próxima da minha - Ou não quer dizer?

Ele estava tão proximo do meu rosto que eu conseguia sentir a sua respiração, eu sentia o meu coração a bater descompassadamente, institivamente fechei os olhos, no entanto, um barulho de fundo, leva-nos a afastar um do outro, e embora não tenhamos visto ninguém a passar, o momento perdeu-se, e ficamos completamente constrangidos com o nosso comportamento inconsciente de há pouco.

Ele pigarreia um pouco, antes de falar:

- Peço imensa desculpa pelo meu comportamento, não é de todo do meu feitio...

- Não tem mal - digo evitando olhar para ele - eu também peço desculpa pelo que fiz.

- Se me dá licença, tenho uns assuntos importantes a fazer. - ele está claramente embaraçado com o que aconteceu, ou ia acontecendo - ...hum...uns documentos urgentes que preciso de tratar... lamento não a puder acompanha-la até ao seu quarto...

- Sem problema, eu vou bem sozinha - respondo fingindo ajeitar o vestido - Eu compreendo.

- Antes que me esqueça, o meu pai vai ter alta daqui a três dias, e vai haver uma cerimónia formal e um baile para comemorar a sua recuperação...e...bem, eu terei de entrar com uma das candidatas para dar inicio ao baile...hum...por isso, aceitaria ser a minha acompanhante?

- Será uma grande honra. - digo fazendo uma pequena vénia para ele não ver que estou a corar - Alteza aceito o seu convite.

- Obrigado.

Sigo o meu caminho sem olhar para trás como se nada tivesse passado, mas ao mesmo tempo com milhares de pensamentos confusos na minha cabeça.

 

**************************

 

O salão da princesa, que é um espaço dedicado á futura princesa de Eran, mas que para já são as candidatas da seleção que o ocupam quando têm tempo livre, está cheio de animação, o dia do baile chegou rapidamente, todas as selecionadas estão bastante animadas com o acontecimento, porque é um baile aberto a várias familias importantes do reino, além disso vai passar em directo na televisão, e quem sabe, caso não fiquem com o principe, consigam arranjar um futuro marido, ou pelo menos sondar os melhores partidos. Eu estou apenas nervosa, depois daquele pedido, não voltei a ver o principe Peter, e ainda tenho a cabeça presa naquele momento entre nós.

-Hoje não estás mesmo aqui pois não?! - Violet surgiu de forma repentina no cadeirão ao meu lado -Aliás de há uns dias para cá que tens estado muito ausente.

-Não é nada de especial, só saudades de casa. - tento mudar de assunto - Sempre conseguiste acabar o vestido?

- Claro que sim. - mas ela olha para mim desconfiada - Mas porque é que andas tão preocupada com o vestido? Andas constantemente a perguntar por ele.

- Por nada de especial - tento fazer de conta que não é nada de mais - Só que, como vou acompanhar o principe Peter na abertura do baile, o vestido tem de estar á altura da ocasião.

- O quê? - ela fica de olhos arregalados - Ele convidou-te? E não me dizias nada?

-Posso experimenta-lo já... - digo ansiosa - Caso haja algum ajuste a fazer ainda vamos a tempo...

-Espera, espera...qual é a pressa? - ela está ainda mais desconfiada- O que se passa Lucy? Até parece que queres agradar alguém.

- Não tem mal nenhum se de vez em quando uma pessoa queira dar nas vistas. - digo tentando parecer normal - É uma coisa normal.

- Mas não no teu caso. - ela coloca a mão no meu ombro num gesto de preocupação - Lucy, o que é que estás a esconder?

-Nada, mas pensa comigo, se eu vou abrir o baile com o príncipe, eu tenho de estar no meu melhor, toda a gente em Eran vai ver. - faço figas mentalmente para que ela acredite no que estou a dizer - por isso é fundamental que o vestido seja no mínimo deslumbrante, e tem de estar perfeito, nada pode sair do lugar.

-É, tens razão. -ela coloca a mão no queixo pensativa - Realmente, agora que falas nisso, e sabendo agora que vais entrar com o príncipe, o caso muda de figura, vou ter que fazer umas alterações no vestido, nada de especial, mas que lhe vai dar outro aspecto. Vou já tratar disso, até porque já não tenho muitas horas para fazer essas alterações.

Ela põe-se de pé num pulo e desaparece rapidamente da minha vista, suspiro aliviada, para já consegui distrair a sua atenção, temia que ela fosse fazer demasiadas perguntas, se nem eu própria sei as respostas.

 Hethel, uma rapariga loira e com bastantes sardas no rosto senta no cadeirão onde esteve à pouco Violet, ela sorri timidamente para mim, não a conheço muito bem mas parece ser bastante simpática:

- Violet é uma rapariga engraçada, mas por vezes fica demasiado obcecada nos vestidos. - ela olha para mim com compreensão - Não nota as pessoas á sua volta, nem mesmo quando uma amiga está a ficar apaixonada. 

- Não..eu nunca... - olho para ela atrapalhada - Eu não estou apaixonada por ninguém.

- Não te preocupes que eu não conto a ninguém. - ela coloca as suas mãos nas minhas num gesto de conforto - Se um dia quiseres falar sobre isso, tens uma confidente á tua disposição, sei que não nos conhecemos muito bem, e que isto é uma espécie de competição, mas isso não significa que não possamos fazer amizades com as restantes selecionadas.

Sorrio de volta, e agradeço a sua gentileza, ela levanta-se pouco depois, e vai ter com um grupo de raparigas que está a jogar ás cartas, fico a pensar nas suas palavras, e lamento pelo facto de não me abrir tanto com as outras candidatas, provavelmente poderia encontrar outras raparigas como a Hethel, mas nunca é tarde para começar, e por isso também eu me dirijo para o grupo que está a jogar ás cartas.