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Uma história ainda sem título (parte 10)

por Elisabete Pereira, em 27.07.18

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Capítulo 10

Lucy

 

"Querido Thomas, envio-te esta carta para te pôr a par de tudo o que tem acontecido por cá, a vida no palácio é bem diferente daquilo que eu imaginava, é bem mais complicado ser candidata a princesa do que se aparenta, todos os dias aprendo algo novo, desde usar vestidos compridos e sapatos de salto (imagina o meu esforço em me equilibrar neles, não te rias!), a minha criada ( sim, cada uma de nós tem uma criada ao nosso dispor) ajuda-me a vestir e maquilhar, é verdade, a maquilhar, eu que nunca usei maquilhagem na vida, mas aqui é a norma, temos de andar sempre muito apresentavaeis, caso surja uma câmara de repente por detrás de algum jarrão, mas continuando, depois também temos aulas de etiqueta para sabermos nos comportar em público, desde o caminhar, saber estar em público, aprender linguagem corporal...a esta hora já sei que estás a dormir de tédio, mas podia ser pior, imagina que eras tu no meu lugar. Enfim, um monte de chatices que por vezes me levam a pensar se foi boa ideia eu ter decidido participar da seleção, mas depois penso no meu irmão, e isso dá-me força para continuar. Já agora, que história é essa de quereres começar agora a ler e a escrever? Vamos ter de falar seriamente sobre isso quando nos voltarmos a encontrar e sabes bem porquê. Por agora é tudo, espero brevemente receber uma carta da tua parte em resposta á minha. Um abraço da tua melhor amiga

Lucy"

 

Releio a carta para ver se encontro algum erro ou se deixei escapar algo, e coloco-a no envelope, omiti de propósito a parte dos meus encontros "acidentais" com o principe Peter e o principe Noah, sou uma mulher que cumpre a sua palavra, e por isso mantenho segredo sobre o sucedido. Embora neste momento eu me sinta um pouco aborrecida com o principe Peter, como ele pode ter um encontro com aquela idiota da Josie Fleetwood , o primeiro encontro de todos e foi logo escolhê-la? Josie praticamente espalhou a noticia na véspera, mostrando a todas nós o bilhete escrito pelo principe a convida-la para um passeio a cavalo. Ele podia escolher outra rapariga, mas não, tinha mesmo de ser ela. Amarfanho um pedaço de papel e atiro-o para o cesto de papeis, mas não vale a pena pensar sobre isso, e por isso pego no envelope e chamo por Claire:

- Claire, não te importas de me levar esta carta ao posto dos correios do palácio?- ela para de imediato de limpar coisas que já estavam limpas e sorri com a perspectiva de fazer algo útil - Eu até ía lá, mas com o meu péssimo sentido de orientação o mais provável é que eu me vá perder.

- Claro menina, eu volto num instante - diz ela ao pegar na carta e colocar no bolso do uniforme - não me demoro nada.

- Podes demorar o tempo que quiseres - ela quase protesta, mas eu rebato - Isto está tudo imaculado, não há nada para fazeres aqui, podes tirar o dia de folga.

- Obrigado menina, mas tem a certeza? - ela olha para mim claramente agradecida mas receosa ao mesmo tempo - por acaso precisava de tratar de umas coisas, mas como não é muito habitual darem-nos folga com muita frequência ...

- Vocês não têm folga? - pergunto incrédula - Mas isso não faz sentido, que eu saiba todos os trabalhadores têm direito a uma folga semanal, está na lei.

- Aqui no palácio as coisas funcionam de uma maneira...um pouco diferente. Mas não a quero aborrecer com coisas de criadas, se ma dá licença, eu vou então tratar da entrega da sua carta.

- Obrigada Claire.

Ela responde com um aceno e rapidamente abandona o meu quarto. Por vezes sinto-me egoista, e este foi um desses momentos, perceber que a Claire e as outras criadas do palácio tem uma vida que basicamente gira em torno do que acontece com os outros, e que praticamente não têm tempo para elas mesmas, e pensar que ás vezes reclamo por coisas tão mesquinhas. Preciso mudar um pouco isso, e portanto, tomei uma decisão, conhecer um pouco melhor aqueles que vivem nas sombras do palácio mas que são fundamentais para que tudo funcione. Sou interrompida por uma batida na porta do meu quarto.

- Quem é? - pergunto.

- Emma, a criada da menina Violet, posso entrar?

- Sim podes. - digo enquanto abro a porta- Foi a Violet quem pediu para vires cá?

- Não menina, na verdade pediram-me para lhe entregar um bilhete. - ela entrega-me um pequeno papel - da parte do principe Noah.

Leio o bilhete num instante, onde está escrito para eu ir ter á porta do quarto dele daí a umas horas.

- Obrigada Emma...hum, posso pedir-te um favor?

- Sim pode, de que se trata menina?

- Podias levar-me até ás cozinhas do palácio? - Achei que era uma boa ideia agradecer o convite do principe Noah oferecendo biscoitos feitos por mim - Se não houver problema, claro.

- Desculpe a minha pergunta, mas porque lá quer ir? -ela olha para mim preocupada- alguma reclamação, algo não a agradou?

- Não, não é nada disso, mas gostaria de fazer uns biscoitos caseiros para oferecer ao principe Noah, podes levar-me até lá?

- Não me importo nada de a levar lá.- ela olha para mim desconfiada- Mas tem a certeza de que quer fazer isso?

-Tenho, vamos lá? - digo entusiasmada - Não quero perder tempo.

******************************************

Olho para o temporizador, ainda faltam 15 minutos para os biscoitos ficarem prontos, por isso começo a arrumar a confusão que fiz na bancada ao preparar os biscoitos, mas os ajudantes de cozinha não me deixam

- Nem pensar menina, nós arrumamos isto -diz uma senhora baixinha pegando no pano que eu tinha na mão- Vá, sente-se ali um bocadinho enquanto espera pelos biscoitos.

Sorrio com a amabilidade, mas ao mesmo tempo sinto-me desconfortável por ser tratada como se fosse de porcelana, em casa estava habituada a fazer de tudo.

Quando entrei na cozinha á cerca de uma hora com Emma atrás de mim, o movimento da cozinha parou, senti vários olhares fixos em mim, principalmente quando pedi uma parte da bancada para fazer os meus biscoitos, mas lá me deixaram, entretanto, um grupo de curiosos juntou-se atrás de mim a observarem o que eu estava a fazer, aos poucos começaram a falar comigo, a fazer perguntas, e no final já conversava com eles quase como se os conhecesse desde sempre, inclusive um deles quis oferecer-me um copo de licor, que eu recusei de forma educada.

- Então John? -ralhou a senhora baixinha, parecia ser a líder daquela cozinha- Ainda nem é meio-dia e estás a oferecer uma bebida alcoólica á menina?

- É só um gole de licor de arroz Esther! -diz o cozinheiro - Isto quase nem tem álcool.

- Desculpe menina, John é um excelente cozinheiro, mas por vezes há qualquer coisa naquela cabeça que não funciona - diz Esther censurando o comportamento do colega - espero que este incidente não influencie a sua opinião sobre nós.

- Não se preocupe, eu adorei estar aqui.

- Pode vir as vezes que quiser.

- Eu gostaria muito.

O temporizador finalmente tocou e fui ver os meus biscoitos, rapidamente um cheirinho a canela e chocolate inundou a cozinha enorme, dei vários dos biscoitos para eles e fiquei com uma pequena parte para mim, eles arranjaram-me uma pequena caixa de papel onde os guardei.

- Obrigada. - digo ao pegar na caixa e a preparar-me para sair - Fica prometido que eu irei voltar.

Regressamos pelo corredor em silêncio, mas eu noto que Emma me olha de um jeito curioso, por várias vezes parecia que ia dizer alguma coisa, mas perdia a coragem, por fim chegamos até ao meu quarto, mas antes de cada uma seguir o seu caminho pedi-lhe para ela não contar nada a Violet sobre a minha incursão nas cozinhas.

- Não se preocupe. - diz ela educadamente - Não irei contar nada, até porque a menina Violet por vezes é um pouco...excêntrica, e não me parece que ela fosse ficar indiferente sobre esse assunto, se é que me entende.

- Entendo sim, obrigada Emma.

- De nada menina, se precisar de mais alguma coisa, é só pedir.

Fecho a porta do meu quarto e coloco a caixinha com os biscoitos na secretária, o bilhete diz para ir ter á porta do quarto do principe Noah daí a umas horas, o que me dá tempo para dar uma vista de olhos nos livros de estudo, e por isso, decido começar pelos exercicios mais dificeis de cálculo.

***********************************

Um segurança mal encarado olha para mim de alto a baixo, o que me faz sentir algo desconfortável, no entanto até consigo perceber a atitude dele.

- O que traz aí? - pergunta olhando para a minha caixinha de cartão - não são permitidos objectos desconhecidos no aposento do principe Noah.

- São biscoitos que eu própria fiz- digo num resmungo- não é nenhuma bomba.

A porta por traz dele abre-se com um rangido e a cabeça do principe Noah surge por entre a fresta aberta.

- Alguém falou em biscoitos?- perguntou ele divertido - Podes deixa-la entrar Nigel.

- Com certeza, menino.- o tipo tão grande como um armário desvia-se da porta e permite a minha passagem.

O Quarto do principe Noah é o reflexo de um jovem adolescente, eu nunca diria que estava no quarto de um principe, tirando o facto de aquele quarto ser enorme e ter mais coisas do que qualquer outro adolescente, a cama está completamente desarrumada, roupas espalhadas por diversos lados, pôsteres nas paredes de filmes de ficção científica, vários livros abertos na secretária, num canto ao lado de uma das janelas estão dois bancos e uma pequena mesa com um tabuleiro de xadrez. Noah pega na minha caixa e coloca-a em cima da cama, o que me leva a torcer um pouco o nariz, ele ri da minha expressão:

- Não te preocupes, que a cama está limpa. Vamos lá começar com a diversão ! - diz ele guiando-me até á mesa de xadrez - vou começar por te ensinar as regras.

Meia hora depois, estava a ser cilindrada por ele.

- Acho que nunca irei atinar com isto - digo desanimada enquanto Noah derruba mais um dos meus peões, e as minhas peças amontoam-se cada vez mais do lado de fora do tabuleiro- posso desistir?

- Vá lá Lucy, isto está a ser divertido.

- Só se for para ti que estás a ganhar- resmungo cruzando os braços- não tenho nada contra, mas isto não é para mim...

- Eu também achava isso de inicio, quando a minha mãe começou a ensinar-me, eu odiava o xadrez, mas isso foi uma ponte de aproximação entre nós dois, é dos poucos momentos que temos de mãe e filho...

- Desculpa se te vou magoar ao dizer isto, mas não acho muito normal o relacionamento entre vós. Eu e os meus pais sempre fomos muito próximos, sempre tivemos uma ligação muito forte.

- Os meus pais não são pessoas comuns, o que já de si justifica um pouco a sua distância para com os filhos, mas para além disso, a minha mãe sempre foi algo reservada, e nunca foi dada a grandes relações de afectos.

Como o tema está a criar um momento contrangedor entre nós, mudo de assunto:

- E os teus irmãos? Como é vocês se relacionam?

- Ariana é a mais velha, mas pela lei, não pode vir alguma vez a ser rainha por ser mulher, embora eu ache que ela desse uma rainha tremenda, nasceu para reinar, mas infelizmente nasceu no corpo errado, embora isso não a tenha tornado infeliz, ela adora a viajar pelo mundo conhecer novas culturas, no fundo é um pouco como uma diplomata do nosso reino, quando regressa tem sempre muitas histórias para contar sem contar com os presentes que traz. Peter é dois anos mais novo do que Ariana, e é o seu oposto, acho que se ele pudesse escolher, não iria querer ser rei, não tem vocação para isso, e tem plena consciência de tal, mas sabe que é isso que esperam dele, e por uma questão do dever e lealdade para com o reino, ele submete-se a isso.

- Mas, porque não mudam as leis? - digo eu surpreendida com aquela revelação inesperada - assim só tornam duas pessoas infelizes....

- Ainda tens que compreender muita coisa sobre o que é a realeza de Eran, é tudo uma questão de imagem, nós temos que saber manter as aparências desde muito cedo,além disso as leis são muito antigas, e não é propriamente o rei que manda ou cria as leis, são os seus conselheiros, muitos deles bastante mais velhos do que o meu pai, que fazem e mudam as leis, no fundo o rei é apenas um actor das vontades dos bastidores. Acredita que o meu pai tentou durante anos mudar as coisas, mas infelizmente nunca o conseguiu.

- Mas não devia ser assim. - pego na caixa de biscoitos e coloco-a na mesinha de xadrez, enquanto Noah arruma o tabuleiro e as peças - Eu sempre pensei que o centro do poder era o rei, pelo menos deveria ser assim.

- Nós somos um pouco vitimas do nosso título - Noah responde com um suspiro - Não é propriamente divertido pertencer á realeza.

- Conheço umas quantas raparigas que não se importariam nada de fazer parte desse circulo - respondo enquanto pego num biscoito - Desde que usem uma coroa, para elas está tudo bem.

- É nestas alturas que sinto pena do meu irmão - ele sorri um pouco antes de comer um dos biscoitos - Ter de lidar com um bando de raparigas dispostas a tudo para conquistar um lugar de destaque, não é para todos, eu teria mandado para casa mais de metade delas na hora.

- Eu incluida? - pergunto em jeito de provocação - Por vezes consigo ser bastante temperamental.

- Claro que não, onde encontraria alguém que fosse perder comigo no xadrez? Assim tenho sempre a vitória assegurada.

- Isso é só porque ainda sou uma novata, daqui a pouco tempo dou-te uma abada.

- Ah! Isso é uma promessa de que vais jogar comigo mais vezes?

- Talvez,mas com uma contrapartida.

- E qual é a contrapartida?

- Bem, eu sinto-me um pouco mal em dizer isto...mas...percebi que os criados do palácio não têm tantos beneficios como os outros trabalhadores do reino, nomeadamente...as folgas, era possivel eles terem um dia de descanso semanal?

- Lucy, eu não te posso prometer isso, nem sei como poderia fazer algo a respeito... - Noah coça a cabeça num gesto pensativo - mas, se eu falar com o Peter talvez ele consiga algo.

- Não quero nada vindo da parte dele - digo de forma algo rispida, mas arrependo-me logo - quer dizer, não lhe quero causar mais transtornos...

- Até parece que não gostas dele Lucy. - responde ele divertido - Ou será outra coisa?

- A conversa não está a ir por um bom caminho, se calhar está na hora de ir embora...

- Pelo que me recordo, ele hoje tem um encontro com uma das selecionadas... - ele levanta-se e vai até a uma das janelas do quarto - Uma tal de Josie...Fleetwood, se não me engano. Devem estar neste momento a passear a cavalo.

-Acho que sim. - digo fingindo tirar um cabelo do meu ombro -  Faz parte do jogo não é? Isto no fundo é um concurso, e a melhor ganha a coroa.

- Não deveria ser o principe? - pergunta Noah confuso- Além disso é ele quem escolhe.

- Deveria, mas para algumas isso não faz qualquer diferença. Como é o caso dessa Josie. - respondo sem rodeios - Ela é uma alpinista social, e não terá o menor problema em mostrar o seu pior lado para o conseguir.

- Ainda assim acho que o meu irmão terá bom senso na hora de escolher a sua futura companheira. - Noah diz peremptoriamente - Não me parece que ele se vá deixar levar com tanta facilidade.

- Como o foi com a Charlotte Halle? - a minha pergunta apanhou Noah de surpresa - Não acho que seja um bom exemplo da capacidade de discernimento do principe Peter.

- Tu não o conheces, por isso é que não confias nele - ele cruza os braços antes de continuar - A Charlotte é um assunto diferente, foi o pai dela quem fez o que fez, não ela. Por muito que a deteste, sei que ela gostava demasiado de Peter para lhe fazer algum mal.

Poucos segundos depois a porta do quarto abre-se com um rangido, e o principe Peter entra sem cerimónia resmungando alguma coisa que não consigo perceber, só uns segundos depois é que ele dá conta da minha presença no quarto do irmão: 

- Desculpe, não sabia que Noah tinha companhia - ele dá meia volta e dirige-se para a porta - Eu volto noutra altura.

- Deixa-te disso Peter -responde Noah - Podes estar cá á vontade, tenho a certeza de que a Lucy não se irá importar com a tua presença.

- Claro que não - respondo levantando-me -Aliás, eu já estava de saída, tenho de tratar de algumas coisas.

- Se é assim, tenho a certeza de que Peter não se vai importar em te acompanhar ao teu quarto - responde Noah com entusiasmo - Tenho a certeza que devem ter muito para conversar.

- Eu...não sei se a menina Brown irá querer a minha companhia...

- Por mim é indiferente - respondo encolhendo os ombros - Não tenho qualquer problema em relação a isso.

Mas claramente eu importava-me demasiado com isso, custava-me aceitar como em tão pouco tempo ele estava a tomar um lugar de destaque nos meus pensamentos, o que não quer dizer que eu esteja a gostar dele, é impossível eu sentir algo por ele.

 

 

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publicado às 16:04



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