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The book of stories

Um blogue que é o meu reflexo, e onde, as pequenas e grandes histórias têm lugar

The book of stories

Um blogue que é o meu reflexo, e onde, as pequenas e grandes histórias têm lugar

Qua | 23.01.19

Talvez eu não seja boa pessoa...

Elisabete Pereira

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...mas eu não sou grande fã daqueles actos solidários, que por vezes surgem por aí, em certas alturas do ano, e quando vêm até mim crianças sorridentes com sacos de papel na mão, aceito o saco, mas não o uso (a estratégia de usarem crianças é muito inteligente, porque raras são as pessoas que dizem não). Mas, só por aí já da para ver que estas campanhas não têm nada de inocente, e honestamente, eu não acredito que as coisas vão parar a quem realmente precisa; e depois, se houvesse uma verdadeira vontade em apoiar, não seria por este caminho, ou melhor, em vez de se dar o "peixe", devia-se ensinar a "pescar", mas como é óbvio, estas instituições deixariam de ter utilidade, (existem muitos interesses por trás, e convenhamos que estas campanhas movem muito dinheiro directamente, e indiretamente também ). Este desabafo vem pelo facto de eu ter presenciado algo que pode servir de metáfora para aquilo que eu escrevi em cima; onde trabalho existe uma parte em que os carros se deslocam até a uma janela para levantarem as refeições previamente pedidas, e por vezes surgem pessoas a pedirem dinheiro aos condutores, há quem dê dinheiro, há quem não dê nada, e há aqueles que em vez de dinheiro, dão comida, e até aqui tudo bem, afinal cada um faz o que a sua consciência lhes pede, o problema é quando há quem se cubra com um manto de dignidade e goste de mostrar que é solidário, mas depois também quer beneficiar com isso. Um distinto indivíduo, de carro topo de gama, faz o seu pedido, no entanto é interpelado por uma dessas pessoas que lhe pede dinheiro, este decide que em vez de dinheiro, vai lhe dar comida, chegado o distinto indivíduo á janela, pede para eu juntar ao seu pedido inicial, mais alguma comida para oferecer á pessoa que lhe pedira dinheiro, eu atendo ao pedido do indivíduo distinto e entrego a comida, nisto, a pessoa que pedira dinheiro, vira-se para mim e pergunta se tenho talheres de plástico, eu digo que não, e então o distinto indivíduo do carro de alta gama, indigna-se comigo, e pergunta se não posso dar talheres normais, eu digo que não o posso fazer, mas o indivíduo torna-se um pouco mal educado comigo, e eu para não descer ao nível do distinto indivíduo, opto por chamar o gerente, e este entrega talheres normais á pessoa que estava a pedir dinheiro, no fim, o distinto indivíduo pede factura do seu pedido e do pedido que entregou á pessoa que estava a pedir dinheiro (o valor era de 3.70€, mas mesmo assim o distinto indivíduo pediu factura), no fim lá foi o distinto indivíduo satisfeito com a sua "boa acção" do dia.

Talvez até esteja a exagerar, e o caso não seja para tanto, embora eu não ponha toda a gente no mesmo saco, nem acho que seja melhor pessoa do que o restante da Humanidade, mas este tipo de situações dá-me azia, porque para mim isto é "brincar á caridadezinha" (já dizia a canção), existem muitas pessoas que ajudam de forma desinteressada e que doam o seu tempo e dedicação sem ganharem nada com isso, nem fazem publicidade de tal, mas infelizmente há outros que aproveitam a onda, para no fim arrecadarem alguns cobres e lucraram com a desgraça alheia, mesmo que seja por menos de meia dúzia de euros.