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A noiva de papel (parte 3)

por Elisabete Pereira, em 01.12.18

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Passado pouco tempo, veio-se a descobrir que Higgins tinha razão, as ossadas pertenciam a um recém-nascido, no entanto não se sabia a quem pertencia, no entanto, em busca de novas pistas a mansão de white lake foi praticamente tomada pela policia:

- Isto é ridículo! - John Morgan entregou o mandato de busca de volta para o policia claramente irritado - Temos obras para continuar, um projecto a fazer, o prejuizo...

-Sr Morgan, lamento, mas há uma investigação a fazer. - o policia não se intimidou com o ar irritado de John Morgan - Terá de se ausentar de casa por uns dias para não interferir nas buscas da polícia.

- Incrivel, até parece uma piada de mau gosto! - John resmungou - Nem em casa posso ficar!

Apesar da irritação e da apreenção dos Morgan, pouco tempo depois, eles colocaram algumas malas no carro, e rumaram para um pequeno hotel próximo da aldeia, as investigações foram decorrendo, até ao momento em que fizeram uma nova descoberta no jardim, um novo conjunto de ossadas foi encontrado, relativamente próximo do local onde foi encontrado as do recém-nascido, Higgins foi chamado pela policia para ajudar a identificar as ossadas, e os aldeões estavam em polvorosa, os boatos eram variados, mas ninguém sabia a verdade.

- E então Higgins? - Patrick perguntou assim que o viu dias depois - A quem pertenciam?

- Pertenciam o quê?! - Higgins estranhou a pergunta - Não me digas que...como é que soubeste?

- Vá lá, já toda a aldeia sabe que te chamaram para reconhecer novas ossadas. - Patrick cruzou os braços de impaciência - Não há necessidade de esconderes, somos amigos há muitos anos.

- Pois, mas não vou contar. - Higgins virou as costas, mas antes de ir embora disse - É um mau hábito querer se saber de coisas que não nos dizem respeito, pensei que com a idade fosses ganhar mais noção em relação a isso, mas pelos vistos enganei-me, provavelmente a companha de Judy e Emily está a afectar-te.

Patrick viu-o desaparecer na rua completamente perplexo:

- Não entendo, a chamar-me bisbilhoteiro, francamente... - disse ele indignado enquanto voltava para dentro do pub - Mas também...ele não vai conseguir esconder isto por muito tempo, deve achar-se muito importante...

Afinal as ossadas pertenciam a algum animal que fora enterrado, provavelmente um cão de estimação, o que se tornou uma desilusão para os habitantes de Aubrey, que adoravam a ideia de terem a mansão de white Lake ligada a um crime, além disso as investigações não deram em nada, embora ainda estivessem á procura de quem seria aquele recém-nascido.

- É uma pena realmente - Emily pousou a revista que estava a ler enquanto Judy lhe estendia uma chávena de chá. - Sempre nos veríamos livres dos Morgan, e eramos deixados em paz, imagina a nossa aldeia cheia de turistas.

- Pois, mas poderia acontecer o mesmo, caso se tivesse descoberto mais alguma coisa... - Judy pegou na sua chavena de chá e disse - As pessoas adoram ver desgraças, aquilo ia se tornar um local de peregrinação.

- Nisso tens razão -  Judy comeu um biscoito antes de continuar - É esperar que o negócio deles não dê em nada. Tu nunca deste conta de nada enquanto estiveste a trabalhar na mansão? Não fazes ideia de quem era aquele bebé?

- Não duvidava nada. - Judy deu mais um gole no seu cha - Não me perece que sejam pessoas muito entendidas no assunto. Em relação ao bebé, bem... eu pensava que conhecia os Lane, mas pelos vistos eles tinham mais esqueletos no armário do que eu imaginava, embora eu acredite que o bebé deve ser da meia irmã de Henry, agora falta saber o porquê de a criança ter morrido, e porque a mãe desapareceu sem deixar rasto.

- Realmente a situação é um bocado estranha. - Emily terminou o seu chá antes de continuar - Mas, mudando de assunto, no outro dia ouvi rumores sobre alguém que poderá estar a trair o marido...

- Quem? - Judy ficou alerta - Não me digas que estás a falar da Louise.

- Como sabes? - Emily ficou surpreendida - Eu soube disto de fonte segura... essa pessoa não tinha contado a mais ninguém, só a mim.

- Já desconfiava da Loise há algum tempo. - respondeu Judy com ar velhaco - O comportamento dela ultimamente também não deixa muita margem para dúvidas, coitado do Peter, não merecia isto, lembro muito bem de lhe ter falado antes de ele casar, para ter cuidado com a Louise, ela sempre foi muito dada, se é que me entendes, mas ele estava apaixonado e nem ligou aos meus conselhos, e só fiz isto pela amizade que eu tinha com a mãe dele, que coitada deve estar neste momento a dar voltas no túmulo.

- A juventude é assim Judy. - Emily resmungou - Acham que sabem mais do que nós, e depois acabam por se dar mal, no fim ainda nos dão razão.

                                                                                    ********

As obras em white lake estavam quase a chegar ao fim, depois de vários meses, a casa ganhou um novo aspecto, tudo parecia ter voltado á normalidade, todos já se tinham ambientado á ideia de terem um hotel rural, e até os Morgan já praticamente faziam parte da aldeia, arotina de ambos era conhecida por toda a gente, de manhã bem cedo os Morgan percorriam a aldeia a correr, mais tarde Kate Morgan ia de bicicleta até á mercearia da aldeia fazer compras, e ao fim do dia ambos iam ao pub "Trevo de ouro" :

- Então, qualquer dia a mansão está pronta, não?- Patrick perguntou a John - Imagino o alivio que deve ser.

- Alivio? - John deu uma gargalhada - O trabalho ainda agora começou, amanhã vou até Londres para tratar dos últimos detalhes, parece que quanto mais fazemos, mais coisas aparecem por fazer. Mas se tudo correr bem daqui a duas semanas vamos inaugurar o hotel.

                                                                     ************

Durante 3 dias, ninguém pôs a vista em cima dos Morgan, mas ninguém estranhou pois deveriam estar atarefados com a mansão, mas no 4° dia, já era noite quando John Morgan surgiu no pub, estava lívido e com ar preocupado: 

- Alguém viu a Kate por estes dias? - John virou-se para as pessoas que estavam no pub  - Voltei hoje à tarde e não a encontrei em casa.

- Ela não foi consigo a Londres? - perguntou Emily

- Não, ela ficou cá.- John esclareceu - Uns fornecedores iam levar algumas coisas lá a casa e era preciso estar alguém para os receber.

- Quando foi a última vez que a viu? - Patrick perguntou preocupado

- Foi antes de viajar, ela ia dar uma pequena corrida pelo lago - ele estava confuso - Não entendo, ela não se ia ausentar assim sem dizer nada a ninguém...

- Talvez ela tenha ido ter com a familia... -alguém atalhou

- Isso é impossível, ela iria avisar antes, pelo menos ligava-me para não me preocupar.

- Mas não lhe tem ligado por estes dias? - Patrick perguntou - Isso deveria ter sido um alerta que alguma coisa se passava.

- Não temos o hábito de ligar um para o outro com frequência, bem pelo contrário, só ligamos quando há um problema ou algum imprevisto, por isso não estranhei a falta de contacto, ainda por cima ela deixou o telemóvel em casa.

John Morgan saiu pouco depois do pub cabisbaixo sem saber o que fazer, todos no pub ficaram preocupados, aquilo não era sinal de bom agouro.

- Meteram-se com um fantasma e agora vê-se o resultado. - Emily abanou a cabeça - Acreditem no que digo, mas o mais provável foi isto ter sido obra do fantasma de Hanna Lane, nós bem avisamos, e agora aí está a consequência.

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publicado às 17:11


A noiva de papel (parte2)

por Elisabete Pereira, em 22.11.18

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Judy duvidou daquilo, provavelmente era só uma história inventada, como tantas outras, ninguém no seu perfeito juizo iria comprar aquela mansão.
- Ouve lá, tens a certeza disso? – perguntou ela para Emily – Dificilmente alguém iria querer enterrar dinheiro naquele lugar, ainda por cima assombrado.
- Juro que é verdade! – Emily ficou indignada – Sabes que a minha filha é amiga da agente imobiliaria que está encarregue de vender a casa, eu era incapaz de inventar o que quer que fosse. Ela não lhe deu grandes detalhes, mas disse que quem comprou o imovel era um casal jovem de Londres.
- São doidos, só pode. – Patrick abanou a cabeça – Nem que eu fosse milionário compraria um lugar daqueles, credo!
- Muito provavelmente, não vão ficar nem uma semana. – Judy atalhou – Acreditem no que vos digo.

                                                                                 *****
Rapidamente a novidade se espalhou, e poucas horas depois já toda a aldeia sabia, as pessoas faziam apostas sobre quanto tempo iam ficar com a casa, mas só quase um mês depois é que viram os novos donos da mansão pela primeira vez. Rapidamente se tornaram objecto de curiosidade por parte dos habitantes de Aubrey, quando colocaram os pés no “ Trevo de ouro “ pela primeira vez.
Eram um casal bem disposto, ela era loira e magra, ele era também magro e usava barba, pareciam um casal saido de uma revista de moda, estavam vestidos com roupas casuais manchadas de tinta branca, pareciam despreocupados e alheios aos olhares de curiosidade. Chegaram ao balcão e pediram algumas cervejas.
- Não se preocupe, não são todas para nós. - riu-se o homem virando-se para Patrick vendo este a levantar a sobrancelha - São para levar para os outros trabalhadores da obra, claro que também vamos beber uma ou outra…afinal também temos direito, já que estamos á horas a pintar a casa, sabe como é.
-John, és mesmo parvo! – repreendeu a mulher – Não ligue ao meu marido, ás vezes ele pensa que é engraçado.
Patrick entregou as cervejas em silêncio, enquanto as restantes pessoas do pub continavam a observar os estranhos, de repente alguém pergunta:
- Foram vocês que compraram a mansão de White lake?
O casal olhou um para o outro antes da mulher responder:
- Sim compramos. – ela virou-se para a pessoa que lhe fez a pergunta – Porquê?
-Devo dizer que vocês têm coragem – disse Patrick – Não é qualquer um que compra uma casa assombrada.
- Nós não acreditamos nessas coisas – John sorriu – Mas respeitamos as vossas convicções.
- Não são convicções, são factos! – Patrick respondeu veementemente – O fantasma é real, a maioria da aldeia já a viu rondar a mansão, ela não gosta de estranhos...
- Eu entendo a vossa posição. – a mulher colocara o saco das cervejas numa cadeira vazia e continuou – Mas não se preocupem, a nossa intenção é construir um alojamento rural, para quem quer sair da rotina da cidade e passar uns dias no campo, todos têm a ganhar, a própria aldeia vai lucrar com isso.
- Ninguém está a por a vossa conduta em causa. – Patrick respondeu – Mas podiam usar outra casa ou propriedade da zona, até porque naquela mansão ninguém fica muito tempo, só vão gastar tempo e dinheiro. Oiçam o que vos digo.
- Não se preocupe, acreditamos que o nosso dinheiro será bem entregue – John pousou também os seus sacos e colocou as mãos nos bolsos – Por falar nisso, alguém conhece um jardineiro na zona que possa tratar do jardim da mansão? Aquilo parece um matagal.
- Podem falar com o Higgins, ele vive próximo daqui. – Patrick respondeu – Se quiserem posso dar-vos o contacto dele.
- Agradeciamos muito! – a mulher pegou num papel e numa caneta da bolsa e entregou a Patrick – Pode escrever o contacto dele?
Alguns minutos depois os dois foram embora, um velho que estava ao balcão resmungou com Patrick:
- Então tu foste dar o número de Higgins? Mais valia dizeres que não conhecias ninguém, com o tempo iam desistir da loucura de reabilitar a mansão e punham-se a andar daqui para fora.
- Não vale a pena, nota-se que são casmurros, deixa-os estar. – Patrick encolheu os ombros – Eles vão aprender por eles mesmos que nós temos razão, quem se mete com fantasmas acaba mal…

                                                                                 *****
Durante os dias seguintes foram vendo um grande movimento em volta da mansão, a casa aos poucos ia ganhando uma imagem nova, para surpresa da população de Aubrey nenhum incidente ocorreu durante as obras, com o tempo as população de Aubrey começou a pensar que o fantasma tinha ido embora, mas, semanas depois um acontecimento revelou o contrário.
Higgins havia saido mais cedo da mansão, e foi até ao pub “Trevo de ouro", que áquela hora não tinha ninguém, Patrick ficou surpreendido por o ver por lá tão cedo.
- Então Higgins?! - exclamou Patrick - O trabalho terminou por hoje?
- Mais ou menos… - Higgins parecia incomodado – Na verdade, foi por causa de algo que encontrei no jardim.
- Então homem? - Patrick parecia divertido – Não me digas que viste uma toupeira que te assustou.
- Quem me dera que fosse uma coisa tão simples. – o rosto de Higgins ficou sombrio – A verdade é que encontrei um osso enquanto cavava o jardim...
- Ora, isso podia ser de algum cão falecido…
- Era um osso humano! - guinchou Higgins visivelmente irritado - Os Morgan também pensaram o mesmo que tu, mas eu tenho a certeza de que é um osso humano.
- Humano?! Tens a certeza?
- Patrick, o meu pai era coveiro, como bem sabes, ajudei-o muitas vezes no cemitério, posso te afirmar que sei identificar um osso humano de um de animal até de olhos fechados.

- Mas isso não explica porque saiste mais cedo.

- Bem, como é óbvio, recusei a continuar o trabalho. - Higgins respondeu nervosamente - Não vou mexer com provas de um possivel crime.

- Crime? Não achas que estás a exagerar um pouco?

- Não, não acho. - Higgins ficou aborrecido com aquela afirmação - Aliás, eu chamei a polícia para verificar a ocorrência, até porque os Morgan acharam que eu estava a exagerar, ou a inventar uma desculpa para não trabalhar. Senti-me insultado, nunca em tantos anos de trabalho, faltei aos meus deveres de jardineiro, era só o que faltava, um casal de miúdos acusar-me de preguiça! Pedi a demissão na hora.

Ficaram ambos a conversar durante algum tempo, quando chegou o filho mais novo de Patrick que era polícia daquela região, este sentou-se na cadeira ao lado de Higgins.

- Então Fred, vai ser a cerveja do costume? - Patrick perguntou ao filho - Não contava contigo hoje.

- Não posso pai, ainda estou de serviço. - depois virou-se para Higgins - Tenho que te fazer umas perguntas Higgins. Por causa daquele osso que encontraste no jardim da mansão de White Lake.

- Pergunta o que quiseres. - Higgins levantou as mãos - Não tenho nada a esconder.

- Sabes mais ou menos determinar a idade da pessoa através das ossadas? - Fred tirou uma fotografia do bolso entregando-a a Higgins e continuou - Encontramos várias no jardim da mansão de White Lake, foram levadas para ser analisadas, mas isso vai levar semanas, e precisamos de investigar o mais rápido possível,  era uma ajuda termos para já uma ideia do que encontramos no jardim.

- Bem, pelo tamanho do ossos e do estado de deterioração, eu diria que pertence a um recém nascido - Higgins observou a foto por um momento e depois voltou a entrega-la a Fred - E mais, esse recém-nascido esteve enterrado mais de vinte anos.

- Tens a certeza? - Fred perguntou enquanto guardava a fotografia no bolso - Isso significa que...

Foram interrompidos pela entrada de Judy que tranportava consigo o trolley das compras, resmungava mais para si mesma, quando notou que todos olhavam para ela.

-Hum, interrompi alguma coisa? - perguntou ela com curiosidade - Se quiserem eu venho cá mais tarde.

- Judy, por acaso estava a pensar em passar por sua casa. - Fred levantou-se e pegou na cadeira ao lado dele - Gostava de lhe perguntar algumas coisas, podia sentar-se á minha beira?

- Claro filho. - Judy sentou-se de imediato na cadeira que Fred lhe indicou - O que queres saber?

- É sobre os Lane - ao ver Judy a erguer as sobrancelhas esclareceu - Apareceram novos indicios, e eu precisava que me ajudasse.

- Mau, outra vez?! - Judy bufou de impaciência - Parece que eu é que estou amaldiçoada, mais de 25 anos depois ainda sou perturbada por causa deles. Não é nada contra ti, mas isto já cansa.

- Eu entendo a sua situação -  Fred sorriu para a idosa - Mas é mesmo importante o seu depoimento.

- Muito bem, diz lá o que precisas de saber. - Judy suavizou um pouco o semblante - Mas acho que não te vou dar nada que já não saibas.

- Sabia se Hannah teve um outro filho? - perguntou Fred - Que tenha morrido ao nascer?

- Não filho, que disparate! - Judy respondeu  - Hanna só teve dois filhos, era demasiado vaidosa para estragar o corpo, além disso, ela teve complicações no parto do filho mais novo, o que fez com que fosse quase impossível voltar a engravidar.

- Então é impossível que ela tenha tido um terceiro filho? - Fred sentiu-se desapontado - Então estamos novamente na estaca zero.

- Mas, agora que falas nisso, lembrei de uma coisa - Judy fez em esforço de memória antes de responder - Henry tinha uma irmã mais nova, ou melhor, meia irmã, o pai traiu a mãe dele com outra mulher. Notava-se que ele não gostava da irmã, um dia ela apareceu na mansão de White Lake, teria uns 20 anos, estava num estado de gravidez avançado, ele aceitou-a lá mesmo de má vontade, ela esteve lá cerca de duas semanas, até que um dia desapareceu no ar. Eles disseram que Henry se desentendeu com a irmã e esta foi embora.

- Não soube de mais nada?

- Não, também não perguntei claro, não sou bisbilhoteira.

- Pode ser alguma coisa...- Fred levantou-se rapidamente - Tenho de ir embora, algo me diz que vou ter ainda um dia longo de trabalho. Adeus a todos.

Judy virou-se para Patrick mal Fred saiu do pub:

- O teu filho trabalha demais, já mal pára por cá. - depois notou Higgins na mesa ao lado com uma expressão estranha - O que é que se passa convosco? Até parece que morreu alguém.

 

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publicado às 17:25


A noiva de papel (parte 1)

por Elisabete Pereira, em 13.11.18

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Os habitantes de Aubrey dizem que ainda se vê em noites de lua cheia, a vaguear pela mansão do lago, o fantasma de Hannah Lane, vestida de noiva, da mesma maneira que foi encontrada á 25 anos numa manhã de Inverno pela criada da Familia, o momento ainda é contado nos dias de hoje no pub da aldeia, Judy entrou esbaforida pelo pub "Trevo de ouro", seria ainda bem cedo, Patrick o dono do pub ainda estava a arrumar as cadeiras que estavam ainda em cima das mesas, quando ela lhe pergunta se podia usar o telefone, que era muito urgente, Patrick ao vê-la naquele estado ficou algo confuso, mas acedeu ao seu pedido, daí a pouco a polícia chegava ao pub e Judy foi ter com eles, e desapareceram logo em seguida, só naquela noite quando Judy voltou ao pub é que se soube o que aconteceu. Perante uma plateia intrigada ela contou o insólito e macabro, Judy trabalhava três vezes por semana na casa dos Lane,  e na manhã seguinte lá foi ela fazer o seu trabalho quando viu a patroa enforcada á entrada do quarto vestida com o seu antigo vestido de noiva.

- Foi horrível. - disse ela com ar aterrado - Nunca irei esquecer aquela visão por mais anos que viva.

- A policia desconfia de alguém? - pergunta um velhote num canto do pub.

- Ainda é cedo para isso - Judy bufou -pelo menos foi o que disseram.

- E o marido dela Judy? E os filhos? - uma mulher próxima levantou a duvida - Ouvi dizer que ele desapareceu. Não é um pouco suspeito?

- Ora Emily, posso te afirmar que o marido não tem nada a ver com isso - Judy levantou-se indignada com a pergunta - Eu vi-o abandonar a casa com os filhos no último dia que lá estive, ele deixou a esposa de vez.

-Quê?! - quase todos perguntaram surpreendidos, os Lane eram conhecidos por serem uma familia modelo na aldeia.

- É verdade, e eu até acho que ele demorou em deixa-la de vez - ela rebate - Era uma galderia, e uma preguiçosa de primeira, não que eu lhe desejasse este fim...mas o marido dela passou por muito, acreditem que vi muita coisa naquela casa. Pobre sr. Jameson, ele sempre se preocupou demasiado com a filha, mais do que ela merecia, por isso ele contratou-me para ajudar a filha mal ela casou, infelizmente ela saiu á mãe, não fazia nada em casa nem tinha vontade de fazer, nem mesmo com os filhos.

Todos conheciam Hannah Lane, desde que ela nasceu, ela era a filha mais nova dos Jameson, uma familia remediada da aldeia que tinham uma padaria, a mãe de Hannah fugiu quando esta tinha quatro anos, e foi o pai que sozinho criou os três filhos ao mesmo tempo que trabalhava na padaria, enquanto que os irmãos mais velhos eram trabalhadores e esforçados, Hannah era o oposto, até na escola, era inteligente e esperta, mas não gostava de estudar, e o pai temendo pelo seu futuro, acabou por coloca-la a trabalhar ao balcão da padaria da familia, infelizmente ela não revelava interesse, e quando um dia Henry Lane apareceu na padaria pela primeira vez, ela decidiu seduzi-lo e conquista-lo, ele não era rico, mas era trabalhador e ambicioso, e rapidamente colocou o seu plano em prática, não foi fácil, porque ele era um homem timido e respeitador, mas ela conseguiu dar-lhe a volta, e pouco tempo depois ela ficou grávida, foi um choque para o pai dela, mas Henry disse que assumiria a criança e que iria casar com ela. O pai dela e a família dele queriam que eles casassem o mais rapidamente possível, para não se notar a barriga, mas Hannah bateu o pé, ela queria uma grande festa, e não um casamento á pressa, queria usar um vestido de princesa, e não um vestido para ocultar a barriga, a contragosto a família de Henry concordou, e para espanto da população de Aubrey, Hannah desfilava sem pudores a sua enorme barriga pela aldeia, as pessoas comentavam sobre o seu estado, mas ela nem ligava para isso. Meses depois, o casamento realizou-se, era digno de um conto de fadas, Hannah estava felicíssima, e foi sem dúvida o grande destaque com o seu vestido de noiva, que chegou a escandalizar algumas almas mais conservadoras devido ao seu generoso decote.

A vida parecia correr na maior tranquilidade para os Lane, inicialmente eles foram viver para uma casinha alugada, mas Henry rapidamente foi promovido no emprego e cerca de três anos depois ele comprou uma mansão ao lado do white lake que fica um pouco afastado de Aubrey, nessa altura Hannah estava grávida novamente, foi nessa altura que o pai de Hannah contratou Judy para esta ajudar a filha, e assim as coisas foram andando durante quase onze anos, em aparente harmonia, até ao dia em que Hannah foi encontrada morta.

As pessoas remexiam-se incomodadas nas cadeiras do pub "Trevo de ouro", ninguém imaginava aquilo, todos acreditavam que Henry era apaixonado por Hannah, ele era muito dedicado á familia e á esposa.

- o que aconteceu Judy? - perguntou uma mulher ao lado dela - Porque ele foi embora?

-Bem...eu só sei que tudo teve a ver com um diário, era tudo o que eu entendia nos gritos dele. - ela respondeu pensativa - Pelos vistos ela tinha um diário secreto onde escrevia, e ele encontro-o. Devia estar mesmo bem escondido porque eu limpava aquela casa de uma ponta a outra e nunca o encontrei. Mas não me esqueço da cena, ela estava na sala a ver televisão, as crianças estavam a dormir nos quartos, e eu estava num anexo ao lado da sala a passar roupa a ferro, deviam ser quase quatro horas da tarde, quando oiço um carro a parar do lado de fora da casa, estranhei porque ele só chegava a casa por volta das sete da tarde. Rapidamente Henry foi ter com a esposa á sala, só ouvi gritos da parte dele, ela ouvia tudo calada, quando quis ver o que se estava a passar ele veio ao meu encontro e pediu-me para eu fazer a mala dele e das crianças pois eles iam embora dali, obedeci e pouco tempo depois ele colocou as malas no carro e eu ajudei a levar as crianças ainda sonolentas para o carro, ele por fim pagou-me adiantado o mês e disse-me que não era necessário eu voltar mais ali, ele depois voltou para dentro de casa, e eu fui embora. Foi a última vez que o vi, eu tive pena dela e decidi ir hoje fazer umas limpezas na casa, ver se ela precisava de algo, tentei ligar para casa deles mas a tempestade da noite passada deitou abaixo o poste do telefone que fazia ligação para minha casa, e por isso fui a pé até lá, quando a encontrei pendurada na trave da porta do quarto. Provavelmente matou-se porque sabia que não ia voltar a ter a vida de rainha. Enfim, pelo menos que isto sirva de exemplo para quem lhe quiser seguir as passadas .

Durante dias a polícia rondou a mansão, mas chegaram á conclusão de que aquilo terá sido suicídio, o funeral foi realizado, com muitos curiosos das redondezas a encher a pequena igreja da aldeia, inclusive o jornal local deu destaque aquela morte bizarra. Mas passado pouco tempo tudo passou ao esquecimento. E assim foi durante 25 anos. Pelo meio a mansão passou por várias pessoas, mas nunca ninguém ficava muito tempo, nos últimos 10 anos não vivia lá ninguém e a casa deteriorou-se bastante, o jardim parecia uma selva, a vegetação subia sem critério pelos muros, a própria casa mostrava sinais de obras urgentes. 

Num dia aparentemente igual a tantos outros, os habitantes de Aubrey descobriram que a casa havia sido novamente comprada, tudo começou quando Judy tinha regressado de Londres e passou pelo trevo de ouro.

- Olá Patrick. - acenou ela para o dono do estabelecimento - Queria a bebida de costume. 

- Então, como foi a semana em Londres Judy? - Patrick entregou-lhe um copo com xerez - Gostaste de lá estar?

- Aquilo não é para mim Patrick - ela pegou no copo e deu um gole - É demasiado movimentado para mim, demasiadas pessoas...

- Mas pelo menos estiveste com a tua filha e os teus netos. - Patrick voltara para o balcão para continuar a limpar copos - Sempre deu para matares saudades.

- Um pouco, mas os meus netos já são adolescentes, são bons miúdos, mas as maquinetas estragam um pouco...Bem, não ligues aos meus resmungos, coisas de velha. E por cá, houve alguma novidade na minha ausência?

- Sabes como é, nada de especial ou relevante, tirando a cadela de Algie que finalmente teve cachorros, infelizmente todos mortos.

- Pobre Algie, a criação de cães galgos é o seu ganha pão, ainda por cima ele perdeu quase todos os cães que tinha no ano passado, a esperança dele estava na velha Magie e na sua última ninhada.

- É, ele está devastado, está inclusive a pensar em deixar Aubrey e...

Emily entrou interrompendo a conversa, estava com ar de quem sabia de coisas que os outros não sabiam.

- Vocês não imaginam o que eu acabei de saber- ela fez uma pausa dramática antes de continuar- compraram a casa dos Lane!

- O quê? - Patrick perguntou atónito- Quem iria querer comprar aquela velharia?

(Continua)

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publicado às 17:01


Conto "A metamorfose da água"

por Elisabete Pereira, em 27.09.18

Há umas quantas luas, participei de um concurso literário, e como não ganhei, pensei em colocar o conto no blogue, e assim o fiz.

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A metamorfose da água


Quando me olho ao espelho vejo aquilo que os outros não vêm, a Alice que aparece no reflexo do espelho esconde um segredo. Até aos 12 anos eu tive uma vida miserável, vivia com a minha mãe, uma mulher abusiva e instável que me usava como meio de sustento. Andava-mos de terra em terra como nómadas, onde eu era obrigada a pedir dinheiro ou a roubar, dormia-mos em lugares abandonados. Numa noite igual a tantas outras vi a viajar pelo céu, uma estrela tão brilhante que quase parecia o sol. Quando a vi cair sob o lago à frente da cabana onde estávamos, esgueirei-me porta fora, era quase fim do inverno e a neve e o gelo tomavam conta da paisagem, eu estava descalça mas mesmo assim segui caminho pela paisagem nevada até chegar ao lago, aproximei-me da margem, e verifiquei se estava gelado o suficiente até conseguir alcançar a estrela, escorreguei várias vezes até chegar ao centro do lago onde ela se encontrava. A estrela parecia pulsar com maior vigor, o seu brilho era quase hipnótico, mas quando estiquei o braço para lhe tocar, oiço um ruído por baixo de mim, o gelo começou a estalar e rapidamente caí dentro do lago. A água ia preenchendo os meus pulmões e o meu corpo, era como se quisesse fazer parte de cada célula de mim mesma, eu debati-me, mas era em vão, naquele momento eu sabia que ia morrer, a última coisa que me lembro foi de ver a estrela a aproximar-se de mim como se me fosse abraçar no meu último suspiro, eu não ia morrer sozinha, aquela luz quente iria ficar comigo, até que de repente tudo ficou escuro.
Fui resgatada do lago horas depois, por um grupo de caçadores que andava por aquela zona, inicialmente achavam que eu estava morta, foi praticamente um milagre ter sobrevivido. Levaram-me para o hospital local para fazer exames e para recuperar do sucedido, mas a minha mãe com receio da minha exposição nos jornais, e que isso chamasse atenções indesejáveis, achou melhor levar-me do hospital onde eu estava internada, e novamente regressamos aos velhos hábitos.
Até que conheci Eric, era filho dos donos de um supermercado dos arredores de onde vivíamos, era mais velho do que eu, foi o meu primeiro amor, sempre que podia, entregava-me sacos com comida ás escondidas dos pais. Nessa mesma altura, apercebi-me de que algo começava a nascer dentro de mim, inicialmente era uma espécie de ansiedade que eu sentia no peito, depois foi-se espalhando pelo meu corpo, como algo que borbulhava quase á superfície da minha pele, até que um dia percebi que conseguia controlar a água devido a um pequeno incidente, mas depois desse episódio, comecei controlar a técnica. Infelizmente um dia a minha mãe descobriu a minha habilidade e trancou-me em casa. Pouco depois, Eric soube o que a minha mãe me fez, e ajudou-me a fugir, mas ela apercebeu-se e alertou a policia da minha fuga, dizendo que eu tinha sido raptada por Eric, a policia da região andou á nossa procura, e em pouco tempo ficamos encurralados por um rio, nem eu nem Eric sabíamos nadar, não tínhamos fuga possível, então usei os meus poderes como último recurso, utilizei água do rio como parede de proteção entre nós e a policia, mas eu ainda não controlava bem a água, e infelizmente no meio da confusão, Eric foi inadevertidamente atingido pela parede de água e morreu afogado. Tentei reanima-lo mas era demasiado tarde, doeu demais saber que a única pessoa que me amava, havia morrido por minha culpa, além disso, iria ser presa e perder a pouca liberdade que tinha, até que eles apareceram. Duas pessoas, um homem e uma mulher, com um uniforme que eu desconhecia aproximaram-se de mim, eu tentei fugir deles, pensava que poderiam ser de algum hospício, e que me iriam levar para lá, mas asseguraram-me que não.
Mas eu tinha medo e não sabia quem eram, no entanto a mulher disse que vinham da parte de uma organização que apoiava pessoas como eu, e que a partir dali, se eu fosse com eles, não teria mais contacto com a minha mãe, ainda assim eu não podia deixar o corpo de Eric. Eles disseram que não havia mais nada que pudesse fazer por ele, mas ainda assim, eu não me sentia preparada para ir com eles, era muita coisa para processar naquele momento, lembro-me de olhar para os dois, de forma a tentar descobrir se existia algum indicio de que me estariam a enganar, mas momentos depois acenei afirmativamente, já não tinha mais nada a perder, a mulher sorriu para mim e estendeu-me a mão, instintivamente apertei-a. Segundos depois a paisagem mudou, e percebi que tinha sido teletransportada pela primeira vez na minha vida.

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