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The book of stories

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Qui | 30.05.19

Silverlinning, a cidade do futuro - capítulo 1

Elisabete Pereira

 

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“Há 200 anos o nosso país entrou em colapso, resultado de um presidente corrupto que levou á miséria e à discórdia, foi uma era de trevas que dividiu o nosso país e que aínda hoje tem eco. Na esperança de uma nova união, as várias regiões divididas assinaram um tratado de paz e o nosso país recebeu um novo nome “Liberty Land”, no entanto essa paz durou pouco tempo, e os conflitos continuaram, felizmente nessa altura, John Evans, meu antepassado, teve uma ideia revolucionária, criar uma cidade que seria o exemplo para todo o país, então ele escolheu uma pequena vila esquecida e muito pobre, e mesmo ninguém acreditando nele, a vila foi crescendo rapidamente e tornou-se hoje nesta belíssima cidade, Silverlinning.”
Astrid Evans, presidente de Silverlinning

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Ela sorri para o espelho, revelando os perfeitos dentes brancos, o cabelo loiro e liso cortado acima da linha do queixo dá-lhe um aspecto sofisticado, ela termina de se arranjar passando um batom vermelho nos lábios, está pronta para encarar a multidão que aguarda a sua chegada, veste um fato prateado com um cinto azul a condizer com a côr dos olhos, os sapatos de salto ressoam no chão de pedra, por onde passa deixa um leve aroma floral, os guardas baixam a cabeça á sua passagem, finalmente ela chega ao exterior do edifício de mármore rosa, o palácio da presidencia é o principal símbolo do poder e da grandiosidade de Silverlinning. Sem hesitar, vai até ao púlpito preparado para o efeito, próximo da escadaria de acesso ao palácio presidencial, a multidão aguarda as suas palavras, o discurso da sua líder, vários fotógrafos tiram fotografias sem cessar, a tv do estado está neste momento a mostrar em directo para milhões de pessoas aquele momento, ela sorri de forma discreta antes de falar :
- Cidadãos de Silverlinning, hoje é um dia importante para nós, há 150 anos, um homem ousado e visionário criou as bases daquilo que hoje é a nossa cidade, um exemplo perfeito de que o que deve prevalecer, a capacidade de criar um futuro melhor para as novas gerações, e é por isso que estamos aqui, para que esse gesto nunca seja esquecido, também nós não podemos esquecer isso, também temos o dever de transmitir ás futuras gerações esses ensinamentos.
A multidão aplaude quando ela faz uma breve pausa no discurso, para retomar pouco depois:
- Com o passar dos anos, as feridas das guerras e dos conflitos em Liberty Land, levaram outras regioes a procurar a nossa ajuda, somos vistos como um oasis num deserto destrutivo, e como é obvio, não poderiamos virar as costas aos nossos irmãos, e por isso começamos a recrutar pessoas capazes de apoiar e recuparar zonas de conflito, pessoas essas, que noutras regioes são perseguidas devido às suas "habilidades especiais", aqui são recrutados e valorizados, são os nossos herois. Contudo, existe algo que mancha tudo isto, há quem tenha a ousadia de acreditar que nós mentimos, que usamos jogos sujos para manipular as pessoas, e ainda por cima fazem uso de mentiras e esquemas para envenenar a mente, é verdade que há muito tempo, as pessoas que nasciam com certas habilidades especiais eram perseguidas, torturadas e mortas, mas isso hoje em dia já não acontece mais, muito pelo contrário, são os nossos maiores aliados, são eles que põe a sua vida em risco para ajudarem quem é mais frágil. Por vezes é necessário eliminar as ervas daninhas, para que o jardim possa florescer, é preciso eliminar quem apenas quer destabilizar a nossa paz, quem apenas se sente feliz ao ver o caos á sua volta. Por Silverlinning, por um futuro próspero e de paz!


A multidão aplaude novamente de forma entusiástica, pouco depois, surge de forma discreta, um homem de cabelos escuros ao lado da líder, este usa um fato semelhante ao dela, e segreda-lhe algo ao ouvido, esta franze ligeiramente a testa e faz um gesto com mão direita, de imediato surge um individuo de cabelos ruivos que também veste um fato semelhante ao dela, ela segreda-lhe alguma coisa, este faz um gesto de assentimento com a cabeça e sai rapidamente de vista, o primeiro indivíduo tem um ar preocupado, mas ela mostra-se tranquila. Os fotógrafos aproximam-se para tirar mais fotografias, ela sorri quando um jornalista chega mais próximo dela e começa a fazer perguntas:
- Como serão as comemorações deste ano Presidente Astrid, haverão surpresas?
Ela dá uma gargalhada divertida e responde:
- Então Nicholas?! Não posso contar, até porque depois saberiam tanto quanto eu e logo deixaria de ser surpresa, mas de uma coisa podem ter a certeza, será um evento inesquecivel!
- Tem toda a razão Presidente. - o jornalista dá um sorriso amarelo, está claramente constrangido com a resposta cortante dela - Está entusiasmada com os novos recrutas deste ano?
- Claro que sim, a cada ano, a nossa academia forma cada vez melhor os futuros agentes, além disso este ano temos um número excepcional de recrutas formados, 50 mais precisamente, nunca tínhamos tido um número tão grande.
- Realmente são muito boas notícias. Bom, não querendo maçar mais a nossa Presidente num dia de celebração, termino a emissão.


Cerca de 5 minutos depois e várias perguntas respondidas, a imprensa dispersa, e Astrid regressa ao edifício, mas desta vez visivelmente preocupada, o homem de cabelos escuros vai apressado atrás dela para a alcançar:
- Eu avisei que isto podia acontecer Astrid!
- Eu sei Eliot, não precisas de me repetir isso, agora é tarde, temos que pelo menos abafar isto por enquanto.
- Até quando? Sabes que é um grande risco.
- Não sei, pedi ao Vincent para tratar do assunto, vamos ver como corre.
- Sabes que estás a arriscar demais.
- Eu não posso perder a presidência Eliot, lutei muito para chegar aqui, não vou deitar tudo a perder agora.
- Astrid, ainda nem tens 30 anos, podes sempre recomeçar noutra coisa...
- Nem penses! – sibilou ela furiosa - Não vou abdicar agora que estou tão perto do meu objectivo.
- Tu é que sabes...
- Pois sei, agora se me dás licença tenho que entregar os diplomas aos novos formandos.
Eliot desaparece por uma porta lateral, deixando Astrid a sós com os seus pensamentos.

Mais um problema para ser eliminado, Astrid bufa de raiva, as coisas não estão a correr exactamente como ela queria, no entanto agora é tarde, demasiado tarde para voltar atrás. Uma criada traz uma bandeja com o habitual comprimido e copo de água, Astrid manda a criada embora, pega no comprimido e engole rapidamente seguido pelo copo de água, durante segundos ela contempla o copo de cristal, agora vazio, para logo o atirar contra a parede mais próxima e se partir em milhares de pedaços. Pouco depois ela recompõe-se, e vai directa ao salão principal, afinal, a vida continua, e há um grupo de jovens recrutas entusiasmados à espera dela para receberem os seus diplomas. De momento os problemas podem esperar.