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The book of stories

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Dom | 21.04.19

Hotel Imperial (parte 3)

Elisabete Pereira

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Passou algum tempo desde que Olivia e Lucas ficaram noivos, mas como ainda não tinham dinheiro suficiente para a cerimónia de casamento, resolveram aguardar mais um pouco, o casamento estava marcado para Janeiro de 1940, no dia do aniversario de Olivia, seria uma cerimónia bem simples, mas mesmo assim, eles pareciam felizes. Era a 31 de Agosto de 1939, quando Olivia veio ter comigo esbaforida, embora parecesse bastante animada:

-Maria, preciso da tua ajuda! - vi que ela trazia algo numa das mãos, parecia uma revista de noivas - A costureira que ia fazer o meu vestido de noiva ficou bastante doente, e não tenho quem me termine o vestido a tempo do casamento...

- Mas eu não conheço nenhuma costureira.- digo confusa - Não sei como te posso ajudar.

- Tu tens jeito para costura. - ela estende-me a revista que tem na mão - Podias termina-lo. Basta tirares umas ideias daqui.

- Não sei...- olho receosa para a revista de noivas que ela me estende - Nunca fiz nada parecido, acho que é demasiado complexo para mim.

- Mas tu fazes coisas maravilhosas. - ela sorriu para mim - Tenho a certeza de que vais fazer algo incrível.

- Bem...eu aceito, mas se correr mal não me venhas culpar.

- Obrigada! Obrigada! - Olivia agarrou as minhas mãos enquanto dava pulos de alegria - Tenho a certeza que vai ficar perfeito, salvaste a minha vida!

- És uma exagerada. - respondi rindo - É só um vestido.

- É mais do que isso! - ela olhou para mim seriamente - É a minha felicidade.

Revirei os olhos, mas não disse nada, ela estava feliz e era o que importava, peguei na minha caixa de costura para iniciar a tarefa de lhe acabar o vestido de noiva.

***********

Era uma manhã calma de inicio de Setembro, o verão estava a acabar mas o tempo anda se encontrava quente, os primeiros hóspedes desciam a escadaria do hotel para tomarem o pequeno almoço, Philippe, o porteiro trazia os jornais debaixo do braço para serem deixados na recepção, habitualmente comprimentava-me com um sorriso, mas desta vez parecia preocupado:

- Então Philippe? Que cara é essa?- pergunto-lhe - Algum problema?

- Ai menina Maria, nem imagina. Ou muito me engano, ou vamos entrar numa nova guerra. - Philippe desdobrou um dos jornais e mostrou-me a notícia de capa - Repare, a Alemanha invadiu a Polónia! Agora me recordo, é a sua terra não é verdade?!

- É sim. - digo enquanto leio a noticia do jornal assustada - Oh, é terrível! Valha-me Deus!

- Receio que venham dias negros menina. - Philippe fitou um ponto acima da minha cabeça - Que Deus nos valha, voltar a passar por todo aquele tormento novamente...não sei se a minha Josephine vai aguentar, perdemos o nosso filho mais velho na Grande Guerra, e agora se os nossos netos tiverem que se alistar também?

- Vamos esperar para ver o que realmente virá a seguir. - digo de forma a tentar dissipar o medo - Provavelmente será um conflito que se irá resolver rapidamente.

- Eu já ando por cá á muito menina, para saber que isto não vai acabar bem - Philippe deu um sorriso triste - Você ainda é muito nova para entender.

Ele pega no chapéu e lentamente se afasta de mim, fico a observa-lo enquanto ele passa pelas portas de vidro da entrada do hotel, realmente isto é terrível, o meu país invadido pela Alemanha, a minha identidade... No final do expediente decido escrever um telegrama para Bathilda, preciso saber se estão a salvo.

******

1940 chegou mais rápido do que imaginavamos, em poucos meses Paris mudou completamente a sua atmosfera, até parecia haver menos gente na cidade, menos brilho menos alegria, a guerra deu um tom cinzento à cidade luz.

No dia do seu aniversário, Olivia passou o dia observando a janela, de semblante fechado, observando a chuva que caía lá fora. Lucas alistara-se para combater na guerra sem ela saber, tiveram entretanto uma discussão terrível, e ele partiu para a guerra sem fazerem as pazes. No final do dia, ela trouxe uma caixa de papelão que deixou no balcão da recepção:

- Desculpa estar a chatear na tua hora de serviço. Mas preciso que me faças algo...

- Claro. - digo de imediato - O que é?

- Quero que faças isto desaparecer. - ela apontou para a caixa - Não quero voltar a ver esta coisa à minha frente.

Com curiosidade abri a caixa, e para meu espanto vejo o vestido de noiva que eu tinha terminado de costurar há pouco mais de um mês:

- Posso saber porquê? - pergunto confusa - Pensei que era o que mais querias...

- Já não me interessa, de qualquer das formas não o irei usar.- ela cruzou os braços decidida - Eu e Lucas terminamos antes de ele ter ido para a guerra.

- Tens a certeza que é isso que queres? - olhei para ela na dúvida - Acho que devias pensar melhor no assunto.

Ela não me ouviu, apenas virou costas e foi embora. Dou um pequeno suspiro, ela por vezes deixa vir ao de cima o seu lado mais precipitado, era uma pena perder um vestido daqueles, ainda por cima o trabalho enorme que tive em fazer do jeito que ela queria. Acabei por guardar o vestido, num lugar longe do olhar dela, talvez um dia ainda me agradeça.

******

Sinto que um peso me saiu de cima, no último telegrama, Bathilda contou que conseguiu fugir com Sonya para o Reino Unido para a casa de uns familiares dela que viviam nos arredores de Londres, pelo menos para já, posso respirar de alivio.

Estou tão distraída que nem dou conta que já à alguns minutos se encontra ali um oficial ao balcão:

- Desculpe menina, sabe onde posso encontrar Olivia Montoya?

- Pode aguardar um pouco?- pergunto com delicadeza - Ela de momento está a arrumar os quartos, mas posso chama-la num instante.

- Não será necessário. - ele entrega-me uma carta fechada - Só preciso que lhe entregue esta carta.

O dia foi passando e quase esqueci a dita carta, só mais tarde é que lembrei dela, Olivia não sabe ler, e por isso, normalmente sou eu que lhe leio a correspondência que chega para ela. Abro a carta para lhe poder transmitir o conteúdo mais tarde,mas a meio da leitura deixo cair a carta em choque, ela vai ficar devastada com a notícia, como lhe vou dizer algo tão terrível? Nem de propósito ela chega até mim naquele momento:

- O que foi Maria? - ela pergunta alegremente - Parece que viste um fantasma.

- Entra aqui, preciso de falar contigo em privado. - abro a porta de um dos quartos que se encontra vazio - Infelizmente não tenho boas noticias para te dar.

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