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The book of stories

The book of stories

Qui | 04.04.19

Hotel Imperial (parte 2)

Elisabete Pereira

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Olivia fez carranca, quando voltei a recusar saír com ela, mas eu não lhe dei muita atenção, estava mais preocupada com outras coisas naquele momento.

-Maria, como podes fazer isto comigo? -ela fez beicinho enquanto pegava no chapéu ao lado da cama- Eu pedi ao Lucas para trazer um amigo com ele...

- E podem perfeitamente sair os três sem mim. - corto-lhe a palavra sem sequer olhar para ela, estou mais focada em coser um botão num casaco - Que eu saiba, não te pedi para fazeres de casamenteira.

- É a nossa folga! - Olivia voltou á carga - É Domingo, podemos passear por Paris á vontade.

Olivia é um autêntico furacão em miniatura, adora passear, namorar e usar os vestidos que estão na moda, é uma parisiense de corpo e alma e uma verdadeira coquette, chama a atenção dos homens por onde passa.Somos bem diferentes uma da outra, já que eu sou bem mais discreta, mas curiosamente, a nossa amizade foi praticamente imediata.

- Talvez, mas não me apetece sair. - digo com sinceridade -Vou ficar por aqui mesmo, tenho algumas coisas para tratar...

- Como coser botões em casacos. - Olivia responde com ironia - Não há duvida que é um tempo bem passado.

-Pois, mas não te queixaste no outro dia quando consegui arranjar o teu vestido favorito.- respondo prontamente - Até porque mais tarde disseste que eu fui a tua salvadora e que por causa do vestido...

- Pronto, já percebi. - Olivia ergue os braços dando-se por vencida - Fiz os possiveis, mas não posso obrigar ninguém a fazer o que não quer. Desta vez escapaste, mas para a próxima vou conseguir levar-te comigo.

-Vou pensar no teu caso. - não consigo deixar de sorrir ao vê-la tão animada em sair com Lucas - Diverte-te!

- Vou fazer por isso - ela pisca-me o olho antes de sair - Au revoir ma chérie.

Volto á minha costura, e mal oiço a porta a fechar, coloco o casaco de parte e pego na minha mala que está debaixo da cama, pego na folha de papel que tinha começado a escrever, mas que ainda está inacabada, tenho de terminar antes que Olivia volte:

 

"Paris, 20 de Outubro de 1937

Querida Madame Berger, espero que se encontre bem, assim como toda a sua família, envio-lhe esta carta para lhe agradecer a ajuda que me deu, afinal, se não fosse por si, não teria conseguido este emprego. Pierre Langlais, o director do hotel, ainda olha para mim algo desconfiado, como se no momento seguinte eu fosse fazer alguma asneira terrível, mas Olivia diz que é o jeito normal dele, para eu não me preocupar com isso. A adaptação tem sido rápida e acredito que em pouco tempo vou conseguir o meu objectivo..."

Pego na pena para continuar a escrever, mas as palavras custam a fluir na minha mente, tenho tanta coisa para dizer, mas por fim decido por uma linha de raciocinio:

"...Tenho muitas saudades de casa, da minha família e do meu país, mas enquanto não conseguir o que me trouxe aqui, não conseguirei ter paz na minha vida. Eu sei, que me avisou que seria uma tarefa muito difícil, mas eu prometi aos meus avós que iria fazer-lhes justiça. Também sei, que me inclui nas suas orações, e agora, mais do que nunca, necessito do seu apoio, nem que seja em pensamento.

Um abraço 

Maria Woziscky"

**********

Deve ser quase meia-noite, quando oiço a porta do quarto a abrir, Olivia tenta ser silenciosa, mas sem sucesso, quando um dos pés bate contra a cadeira.

- Raio da cadeira! - grita ela agarrada ao pé - Como é que ela aparece no meio do caminho?

- Acho que sempre esteve aí. - digo, divertida em vê-la naquela situação caricata - Se tivesses aceso a luz do quarto, provavelmente não terias batido contra a cadeira.

- Não te queria acordar. - noto naquele momento um brilho nos olhos dela - Mas, já que estás acordada, tenho de te contar...o Lucas pediu-me em casamento!

- A sério?! - olho para o anel no dedo da mão que ela estende para mim - Parabéns!  Fico muito feliz por vocês.

Ela não responde, apenas sorri de felicidade, de repente sinto uma enorme tristeza, porque relembro que já passei pela mesma situação que a dela, e que mal eu sabia nessa época, que o pedido de casamento seria o inicio do inferno para mim e para a minha família.