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The book of stories

The book of stories

Seg | 20.05.19

Homens com h microscópico

Elisabete Pereira

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Numa destas noites de trabalho, que parecia igual a tantas outras, um grito de raiva surge de repente vindo de um sector longe do meu, reconheci a voz da minha colega que gritava coisas que eu não conseguia entender, mas parecia ser algo grave. Minutos depois, soube que fora um outro colega que lhe "passou a mão", vi o tipo no sector dele a dar um sorrisinho nojento, de quem mais uma vez se divertiu em tirar alguém das estribeiras, infelizmente já não é a primeira vez que ele faz este género de coisas, uma das mais graves levou a que outra pessoa fosse despedida por culpa dele, enfim, estamos perante uma joia de pessoa. O "nojento", lamento o termo usado, tem por hábito ser um idiota com os colegas no geral, e com as mulheres em particular, dizendo alarvidades do género " todas as mulheres brasileiras que vêm para Portugal são umas P****!" (disse á frente de uma colega minha brasileira, que não respondeu nada, mas que ficou muito incomodada), ou " e tu fulana, usas biquini, ou fato de banho?", isto perguntado várias vezes a outras colegas minhas, que se sentiam incomodadas com a insistência dele, até que eu lhe disse "Olhe lá, você não é casado? Porque se põe a fazer este tipo de perguntas?" e ele diz, "Sou casado, mas gosto de ver." , comigo ele não tem muita sorte porque corto logo, ou então ignoro completamente. Desta vez ele não ficou a rir por muito tempo, pois foi mandado embora (não foi despedido, mas apenas foi de castigo, infelizmente), o problema é que isto não vai dar em nada, e mais uma vez ele vai voltar a desfilar no trabalho como se fosse o maior, até porque a moça tem "um parafuso a menos", porque ele está num sector que é mais necessário do que ela, porque ela é solteira e porque é mulher. Infelizmente há muito homem que pensa que pelo facto de uma mulher estar solteira que pode chegar e passar a mãozinha como se esta fosse um naco de carne, afinal "não tem dono" e por isso qualquer um pode fazer o que quiser...não, não pode, uma mulher, qualquer que seja a sua condição, merece ser respeitada como ser humano.

Há mentalidades que precisam ser mudadas, e tem de ser desde a infância, é lá que começa a disparidade de género, como exemplo disso, quando mudei de escola aos nove anos, e fui para uma escola mais pequena (eramos só 8 no total) passei por bullying, que curiosamente era feito por dois rapazes, foi uma altura complicada na minha vida que durou mais de dois anos, com uma ou outra pausa pelo meio, e tudo começou pelo facto de ter começado a chamar a atenção por ser boa aluna...e eles não. Quando passei para o ciclo, um desses colegas foi também, e lembro bem das humilhações que ele me continuou a fazer, e os outros rapazes da turma, riam ou incentivavam a atitude dele, e eu na época não entendia porquê de nenhum me apoiar, quando praticamente todas as raparigas da turma estavam do meu lado, aliás durante muito tempo ganhei raiva dos rapazes (ainda hoje não confio muito nos homens). Mas hoje sei que isso tem muito a ver com a ideia da submissão e da humilhação da mulher, para eles era normal aquela situação, provavelmente alguns viam em casa o pai a humilhar a mãe (ou pior) e achavam isso normal, ou então porque os paizinhos iam ensinando que a mulher deve obedecer ao homem, e outras barbaridades do género.

Mas pronto, isto foi há cerca de 20 anos, de lá para cá muita coisa mudou, mas é assustador ver o resultado de um estudo feito há pouco tempo, em que muitas jovens acham normal o namorado ser violento com elas, que faz parte do namoro. Parece que há coisas que pararam no tempo, e é preciso mudar pensamentos, ideias e convicções, para uma sociedade melhor.

Termino este texto dizendo, "adoro ser mulher, mas ás vezes é uma m****!"

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