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The book of stories

Um blogue que é o meu reflexo, e onde, as pequenas e grandes histórias têm lugar

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Um blogue que é o meu reflexo, e onde, as pequenas e grandes histórias têm lugar

Sex | 01.03.19

Encurralada numa teia de dor e sofrimento

Elisabete Pereira

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Ana tem 23 anos, terminou a licenciatura à pouco tempo, e rapidamente se dispôs a procurar emprego na sua área, mas infelizmente não encontrou nada, por isso, optou por alargar a procura acabando por encontrar emprego num escritório numa área completamente diferente daquela que tinha estudado. A maioria dos trabalhadores do escrtório, era essencialmente masculina, mas Ana não se importou, até preferia, porque as mulheres são mais complicadas e intriguistas. Facilmente adaptou-se ao ritmo da empresa, e até aguentava com certa tranquilidade, as piadinhas que os colegas lhe lançavam, que embora fossem desconfortáveis e sexistas, ela preferia desvalorizar, afinal, o patrão não se iria preocupar com o facto de ela se sentir desconfortável com algo tão inofensivo, além disso, achava que aquilo era um pouco culpa dela, porque não devia abusar tanto da maquilhagem, e a roupa que usava também podia ser um pouco mais discreta, não valia a pena fazer uma tempestade num copo de água e no final acabar por perder o emprego.

Tudo parecia correr normalmente, mas havia um colega em particular, que por algum motivo que ela não conseguia explicar, lhe metia um pavor de eriçar os pêlos da nuca, ela não conseguia perceber o motivo, mas sentia um medo irracional de partilhar o mesmo espaço com ele. Durante meses, ela evitava-o, embora ele fosse bastante educado e respeitador com ela, mas mesmo assim, ela sentia-se insegura com ele. Um dia desabafou com as amigas a respeito, e elas achavam que Ana exagerava, davam risadas e diziam para ela tirar aquelas ideias da cabeça, que o mais provável era ela confundir medo com atração, e que para tirar as dúvidas, deveria marcar um encontro com ele, Ana, ficou um pouco na dúvida, mas acabou por concordar com as amigas, afinal, já fazia muito tempo que não saía com um homem, o último namorado que teve, ainda ela andava na secundária. Não houve necessidade de marcar encontro, porque pouco tempo depois houve um convivio de Natal no escritório, Ana acabou por beber demais, e o tal rapaz aproveitou a oportunidade para se aproximar dela, pouco depois ele conduziu-a até a uma sala vazia, Ana dava risadinhas á conta da bebida, e a última coisa de que se lembrava daquela noite, foi de ele a tentar beijar á força e de ela o rejeitar com dificuldade, tudo o resto ficou nublado na sua cabeça. No dia seguinte, Ana acordou numa cama completamente desconhecida, com uma enorme dor de cabeça, e para seu horror, notou que estava nua, e que não estava sozinha na cama, o tal colega de trabalho, dormia profundamente ao lado dela, com cuidado ela levantou um pouco os lençóis e vê que ele está nu também, rapidamente ela chegou á conclusão do que aconteceu. Morta de vergonha, pegou nas roupas dela que estavam espalhadas pelo quarto, e o mais rápido que conseguiu, vestiu-se e fugiu dali. Durante dias, Ana evitou ir para o emprego, tinha medo de ser julgada pelo que podia ter feito na festa de Natal da empresa, e também não queria se encontrar com o colega, mas ela não podia fugir para sempre, e num esforço enorme, conseguiu voltar à rotina laboral, e para sua surpresa, ninguém deu muita importância ao seu deslize, também ajudou o facto do deu colega lhe ter pedido desculpas pelo comportamento dele, e mal ela deu por isso, já tinha começado a saír com ele. 

O nome dele era Pedro, tinha 28 anos, e já trabalhava naquele escritório desde que tinha terminado o 12ºano, era um homem bonito e elegante, era uma pessoa que sabia cativar, e por isso o namoro começou pouco tempo depois, o pedido de casamento chegou um ano depois. Toda a familia de Ana adorava-o, assim como as amigas dela, era de opinião geral que ela tinha tirado a sorte grande no amor, Ana também pensava o mesmo, até ao dia em que o Pedro lhe pediu para deixar o emprego, ela estranhou o pedido, mas ele dizia que ía ser promovido em breve e que com o aumento que iria receber, era mais do que o suficente para eles dois viverem bem, Ana acabou por aceitar, seria bom ter um pouco mais de tempo livre, principalmente quando tivessem filhos.

O dia de casamento foi lindo, parecia um sonho tornado realidade, Ana estava feliz, e acreditava que aquele seria o primeiro dia de um futuro risonho, mas enganou-se, o castelo começou a desmoronar, pouco depois da lua de mel, quando ela foi á empresa de surpresa, buscar algumas coisas que tinha deixado quando aínda trabalhava lá; ao chegar ao seu antigo posto de trabalho, escutou uma conversa na porta ao lado, era Pedro que conversava com um colega, e para choque dela, ouviu o marido a dizer de forma descontraída que tinha deitado algo na sua bebida, para poder fazer sexo com ela sem esta se debater, naquela maldita festa de Natal, que não era a primeira vez que ele fazia aquilo com uma mulher, além disso ele tinha um caso amoroso com uma outra colega de trabalho. Ana saíu de lá a sentir-se mal consigo própria, como podia ter sido tão cega com ele, mas mesmo assim, não contou ao marido que o tinha ouvido aquela conversa, mas começou a ficar mais distante e fria para com Pedro, até ao dia em que ficou tão farta, que resolveu pedir o divórcio, ele riu-se e disse que ela era doida, que ela nunca se iria livrar dele, então Ana contou sobre a conversa que ouviu, sem aviso, ele deu-lhe um estalo na cara, e a partir daquele dia, as agressões tornaram-se frequentes.

Ana não entendia porque se mantinha naquela relação, não conseguia desabafar com ninguém, pois ela sabia que a sua família e as suas amigas não iam acreditar nela, o seu marido era uma pessoa exemplar para os outros, só ela sabia o monstro em que ele se transformava entre quatro paredes, ele era tão meticuloso na sua malvadez, que só a magoava em zonas do seu corpo que estavam sempre tapadas...e apesar de tudo, de toda a violência, ela permanecia ali. Era terrivel, quando os pais lhe perguntavam por netos, Ana tinha terror em engravidar de Pedro, mas felizmente até ali, não engravidara, para evitar mais perguntas, Ana foi deixando de visitar a família com frequência, de sair com as amigas, fechou-se em si mesma e na sua dor, ela já não se reconhecia mais...

Havia uma ponte próxima da sua casa...era madrugada e Ana não conseguia dormir, aquela noticia do hospital, continuava a assombrar a sua mente, então levantou-se de fininho, e vestindo apenas o vestido de noite saíu de casa, os pés descalços não faziam barulho enquanto chegava até á ponte, ela ficou um bom tempo a observar o rio lá embaixo, pela primeira vez, sentia-se tranquila e em paz. Depois, como numa epifania, ela ultrapassou as grades da ponte, abriu os braços, fechou os olhos, e com um sorriso no rosto deu um salto, como se fosse voar e finalmente ser livre...

A família de Ana recebeu a noticia da sua morte em choque, o corpo tinha sido encontrado a boiar na margem do rio, ninguém entendia porque se matou, ela tinha uma vida aparentemente perfeita, era jovem e feliz, pelo menos parecia que fosse, até que começaram a reflectir nos últimos acontecimentos, e começaram a perceber alguns comportamentos estranhos que ela demonstrou nos últimos tempos de vida. Dias depois, quando as amigas arrumavam as coisas de Ana para serem doadas, encontraram numa gaveta uma carta do hospital, que estava endereçada para Ana, ao abrirem o envelope e lerem o subscrito, descobriram que Ana estava grávida.