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Conto " O meu nome é Belle " (parte 1)

por Elisabete Pereira, em 28.09.18

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Falta pouco mais de uma hora para o comboio chegar á estação de Côte d'Azur, o Verão de 1946 está a ser particularmente quente, e mesmo com a janela aberta o calor teima em não ir embora, a nossa sorte é o nosso compartimento estar praticamente vazio, apenas mais uma pessoa partilha o espaço, uma senhora com os seus 40 anos, algo curvilinea que abana o seu leque de forma elegante, Mdme de Autibes é herdeira de uma fortuna, e não se importa de o demonstrar na sua maneira de vestir algo extravagante, no entanto foi simpatica o bastante para me ter oferecido uma caixa de bombons, ela diz que os chocolates são bem melhores do que amantes, porque só existe a parte do prazer e no fim não pedem dinheiro. Corine fica algo escandalizada com a conversa bastante atrevida da senhora,  mas eu não consigo deixar de sorrir, afinal tenho apenas 16 anos, e o que sei da vida? Eu nem me lembro de quem sou realmente, a minha memoria foi apagada no incêndio do Orfanato onde eu vivi até á bem pouco tempo.

-A senhora não devia ter esse tipo de conversa com uma criança presente aqui!- retorquiu Corine- É de um profundo mau gosto!

-Não estou a ver nenhuma criança aqui. - Mdme de Autibes sorri antes de apontar com o leque para mim - Ela já tem desenvoltura suficiente para ser uma mulher, e saber como as coisas funcionam, provavelmente não demorará muito para casar,  e é importante ir sabendo ao que vai, se a minha mãe o tivesse feito quando eu era mais nova, muito provavelmente nunca me teria casado.

-Como pode dizer isso de forma tão leviana? - Corine olha para ela estarrecida - O casamento é um contrato sagrado!

-Diz isso porque nunca casou obviamente! - responde Mdme de Autibes sem se alterar enquanto acende um cigarro e o coloca na boquilha - Posso lhe afirmar que agora que sou viuva, sou muito mais feliz do que quando era casada, Gastón era um imprestável enquanto foi vivo, quase delapidou a nossa fortuna no jogo e em mulheres, felizmente consegui trava-lo a tempo e dar a volta por cima, e hoje em dia consegui multiplicar a fortuna que tinha.

- Uma mulher deve sempre apoiar o seu marido, independentemente dos seus deslizes. - Corine contra-ataca - É verdade que nunca casei, para me poder dedicar á familia Tuvier, mas não me arrependo da minha escolha, e se tivesse casado era assim que iria proceder, a mulher deve ser sempre o pilar do seu marido, e nunca apontar as suas falhas.

- Os tempos são outros minha cara, a guerra mudou tudo, na época em que casei as mulheres eram obrigadas a casar com o homem que a sua familia escolhia, a sua vontade não era tido em consideração, assim foi comigo também. - ela dá uma pequena baforada na sua boquilha antes de continuar - Eu tive de aguentar muita coisa que não gostava, o divórcio estava fora de questão, o meu pai deserdava-me caso o fizesse, hoje em dia as coisas são mais praticas nesse aspecto, e ainda bem.

-É a sua opinião. - Corine decide voltar ao seu crochet e dar conversa por finalizada - Mas agradecia que não enchesse os ouvidos de Elise com as suas ideias "progressistas".

-Acho que ela é inteligente o suficiente para fazer as suas escolhas - diz madame de Autibes enquanto se levanta e sai do compartimento - Vou dar um passeio por onde as minhas ideias não escandalizem ninguém, se me dão licença...

Ela fecha a porta do compartimento, e quando o seu chapeu verde desaparece de vista, Corine dá um suspiro de impaciência. Ela já tem bastante idade, e imagino que isto lhe faça muita confusão,  mas eu adorei conhecer a Mdme de Autibes, ela é uma mulher muito segura de si mesma. Ajeito a manga do vestido por cima da gase que protege as marcas mais profundas das queimaduras que sofri no incêndio do orfanato, já não doi muito, mas o que custa mais é ter perdido a memória, não ter nada que me agarre ao passado, fui descoberta apenas por causa do medalhão que trago ao pescoço e assim ganhei uma identidade, sou Elise Tuvier, mas o nome soa muito estranho para mim. Corine nota o meu desconforto:

- Está tudo bem Elise? - Corine larga o crochet e olha para mim - As queimaduras estão a doer muito?

-Não mais do que o habitual. - respondo enquanto largo a manga do vestido - mas a gaze é um pouco desconfortável com este calor.

-Realmente está muito calor - ela retoma o crochet - mas a menina tem de usar a gaze até melhorar totalmente, além disso a pior parte já passou.

-Sim é verdade. - estremeço quando me lembro de quando acordei no hospital e as dores horriveis que tive de suportar - Há coisas muito piores.

- Como essa Mdme de Autibes! - Corine fala de maneira azeda - Onde já se viu uma mulher falar daquela maneira?!

 -Eu gostei dela. - digo encolhendo os ombros - é no minimo uma pessoa original.

- Original? É uma fresca, isso sim - ela olha para mim seriamente  - A menina não ligue aos disparates dela, por amor de Deus, essa mulher não tem juizo nenhum.

Sorrio em resposta, pelo menos serviu para me distrair dos meus pensamentos, sei que a minha mãe está á minha espera na estação, é terrivel não ter uma memória que seja dela, para mim é um fantasma sem rosto, tenho a esperança de que ao vê-la as minhas memórias possam começar a voltar, mas de momento a minha vida é um ponto de interrogação .

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publicado às 17:18



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