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Conto "A metamorfose da água"

por Elisabete Pereira, em 27.09.18

Há umas quantas luas, participei de um concurso literário, e como não ganhei, pensei em colocar o conto no blogue, e assim o fiz.

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A metamorfose da água


Quando me olho ao espelho vejo aquilo que os outros não vêm, a Alice que aparece no reflexo do espelho esconde um segredo. Até aos 12 anos eu tive uma vida miserável, vivia com a minha mãe, uma mulher abusiva e instável que me usava como meio de sustento. Andava-mos de terra em terra como nómadas, onde eu era obrigada a pedir dinheiro ou a roubar, dormia-mos em lugares abandonados. Numa noite igual a tantas outras vi a viajar pelo céu, uma estrela tão brilhante que quase parecia o sol. Quando a vi cair sob o lago à frente da cabana onde estávamos, esgueirei-me porta fora, era quase fim do inverno e a neve e o gelo tomavam conta da paisagem, eu estava descalça mas mesmo assim segui caminho pela paisagem nevada até chegar ao lago, aproximei-me da margem, e verifiquei se estava gelado o suficiente até conseguir alcançar a estrela, escorreguei várias vezes até chegar ao centro do lago onde ela se encontrava. A estrela parecia pulsar com maior vigor, o seu brilho era quase hipnótico, mas quando estiquei o braço para lhe tocar, oiço um ruído por baixo de mim, o gelo começou a estalar e rapidamente caí dentro do lago. A água ia preenchendo os meus pulmões e o meu corpo, era como se quisesse fazer parte de cada célula de mim mesma, eu debati-me, mas era em vão, naquele momento eu sabia que ia morrer, a última coisa que me lembro foi de ver a estrela a aproximar-se de mim como se me fosse abraçar no meu último suspiro, eu não ia morrer sozinha, aquela luz quente iria ficar comigo, até que de repente tudo ficou escuro.
Fui resgatada do lago horas depois, por um grupo de caçadores que andava por aquela zona, inicialmente achavam que eu estava morta, foi praticamente um milagre ter sobrevivido. Levaram-me para o hospital local para fazer exames e para recuperar do sucedido, mas a minha mãe com receio da minha exposição nos jornais, e que isso chamasse atenções indesejáveis, achou melhor levar-me do hospital onde eu estava internada, e novamente regressamos aos velhos hábitos.
Até que conheci Eric, era filho dos donos de um supermercado dos arredores de onde vivíamos, era mais velho do que eu, foi o meu primeiro amor, sempre que podia, entregava-me sacos com comida ás escondidas dos pais. Nessa mesma altura, apercebi-me de que algo começava a nascer dentro de mim, inicialmente era uma espécie de ansiedade que eu sentia no peito, depois foi-se espalhando pelo meu corpo, como algo que borbulhava quase á superfície da minha pele, até que um dia percebi que conseguia controlar a água devido a um pequeno incidente, mas depois desse episódio, comecei controlar a técnica. Infelizmente um dia a minha mãe descobriu a minha habilidade e trancou-me em casa. Pouco depois, Eric soube o que a minha mãe me fez, e ajudou-me a fugir, mas ela apercebeu-se e alertou a policia da minha fuga, dizendo que eu tinha sido raptada por Eric, a policia da região andou á nossa procura, e em pouco tempo ficamos encurralados por um rio, nem eu nem Eric sabíamos nadar, não tínhamos fuga possível, então usei os meus poderes como último recurso, utilizei água do rio como parede de proteção entre nós e a policia, mas eu ainda não controlava bem a água, e infelizmente no meio da confusão, Eric foi inadevertidamente atingido pela parede de água e morreu afogado. Tentei reanima-lo mas era demasiado tarde, doeu demais saber que a única pessoa que me amava, havia morrido por minha culpa, além disso, iria ser presa e perder a pouca liberdade que tinha, até que eles apareceram. Duas pessoas, um homem e uma mulher, com um uniforme que eu desconhecia aproximaram-se de mim, eu tentei fugir deles, pensava que poderiam ser de algum hospício, e que me iriam levar para lá, mas asseguraram-me que não.
Mas eu tinha medo e não sabia quem eram, no entanto a mulher disse que vinham da parte de uma organização que apoiava pessoas como eu, e que a partir dali, se eu fosse com eles, não teria mais contacto com a minha mãe, ainda assim eu não podia deixar o corpo de Eric. Eles disseram que não havia mais nada que pudesse fazer por ele, mas ainda assim, eu não me sentia preparada para ir com eles, era muita coisa para processar naquele momento, lembro-me de olhar para os dois, de forma a tentar descobrir se existia algum indicio de que me estariam a enganar, mas momentos depois acenei afirmativamente, já não tinha mais nada a perder, a mulher sorriu para mim e estendeu-me a mão, instintivamente apertei-a. Segundos depois a paisagem mudou, e percebi que tinha sido teletransportada pela primeira vez na minha vida.

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publicado às 18:25



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