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The book of stories

The book of stories

Sex | 25.01.19

A noiva de papel (parte5, última)

Elisabete Pereira

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As horas passavam, mas John Morgan não manifestava vontade em colaborar, o interrogatório ia longo, e apesar das provas, John negava veementemente o seu envolvimento na morte da esposa.

- Oiça, eu não tenho nada a ver com isto, é tudo um grande equivoco.

- Não me parece senhor Morgan. - o inspector respondeu impacientemente - Quando mais cedo admitir a culpa, mais cedo arrumamos o assunto.

- Não há nada a admitir. - John cruzou os braços - Estou inocente.

- Pois bem, já que não quer admitir, tenho que lhe apresentar as provas - o inspector colocou uma pasta de papel pardo em cima da mesa - Pode ver o que está aí nessa pasta.

- São apenas papeis... - John sorriu - Podem ser forjados.

- Já vi que quer jogar com a autoridade. - o inspector levantou-se e começou a andar pelo espaço - Então ou vou lhe contar, o que se passou. Tudo começou há muitos anos, 25 mais precisamente, aqui nesta terra, em Aubrey,  onde o seu pai infernizava a própria família, embora em público mostrasse ser uma pessoa exemplar. Um dia, a sua mãe tentou fugir convosco, mas foi descoberta, como castigo, o seu pai colocou-a sob efeito de calmantes e soniforos, mas mesmo assim, para ele não era suficiente e então, pegou em vós e levou-vos para o orfanato, e em seguida obrigou a sua mãe a se matar...

John recostou-se na cadeira, parecia interessado na narrativa, mas não falou nada, então o inspector continou:

- Anos se passaram, e você há muito que perdera o contacto com a sua familia, inclusive pela sua irmã, que fora adoptada pouco tempo depois de ter chegado ao orfanato, a sua revolta crescia, e por variadas vezes meteu-se em confusões, inclusive foi apanhado a roubar. Quando chegou a altura de sair do orfanato, decidiu mudar de nome...

- Vejo que o inspector fez o trabalho de casa. - John interrompeu o inspector - Mas ainda não entendo o que estou a fazer aqui.

- Não?! Tudo bem, já lá vamos. Não foi fácil encontrar a sua nova identidade, mas acabamos por conseguir, descobrimos também que de maneira ilícita conseguiu subir a pulso numa imobiliária que por ironia do destino pertencia ao pai da sua esposa, provavelmente a sua esposa já era um alvo para si, porque ao fim de menos de um ano estavam casados, no entanto você já tinha uma amante...

John ergueu uma sobrancelha, o único indicador que a história o estava a começar a afectar:

- Mas, o seu sogro deve ter notado que algo estava errado consigo, porque menos de dois anos depois, você foi despedido da imobiliária, o seu sogro nunca deu uma justificação para tal, mas, você deve ter dado grandes motivos para isso. No entanto, o senhor conseguiu convencer a sua esposa a conversar com o pai, e ele deu uma oportunidade, reabilitar uma mansão velha numa aldeia dos arredores de Londres, e tornar a casa num hotel rural, por coincidência era a sua casa de infância. Você aceitou a proposta, mas a sua amante não achou particular piada na ideia de ficar longe de si, e começou a chantagea-lo, a situação ficou de tal forma desagradável, que você teve de ir a Londres pessoalmente para a calar, mas para seu azar ela logo depois foi denuncia-lo á policia, e precisamente no dia em que a sua esposa foi morta.

- Amy... eu devia ter adivinhado que ela não iria ficar calada, apesar da quantia de dinheiro que lhe dei...Mas tenho de admitir que eu lhe devo tudo o que tenho. - John adoptara um ar sério, o sorriso apagou-se de imediato - Foi ela quem me aconselhou a mudar de nome, acreditava que era um recomeço para mim, tinha mais fé em mim do que eu próprio.

- Já se conheciam há muito tempo?

- Eu tinha 17 anos e ela teria quase 40 anos. - John remexeu-se na cadeira - Na altura , ainda era casada com um homem muito rico, acho que o tipo era director de um banco qualquer. Eu trabalhava em part-time numa oficina do irmão de um amigo meu, e um dia ela foi lá arranjar um problema que tinha no carro, o resto...bem, digamos que não lhe passei despercebido, começamos um relacionamento que durou até á bem pouco tempo. Foi ela quem mais tarde me aconselhou a casar com Kate. Também foi ela quem me ajudou com o meu pai...

- Como assim? - o inspector ficou surpreendido com a afirmação de John - O que isto tudo tem a ver com o seu pai?

- Ora, ora, o senhor inspector é tão bem informado, mas afinal não sabe sobre o meu pai? - John sorriu de forma maliciosa - Pois bem, eu vou lhe contar. Eu sentia-me com raiva com o que o meu pai me havia feito, e mal saí do orfanato,  jurei vingar-me dele assim que o encontrasse, o que acabou por acontecer, não foi fácil, mas cerca de dois anos depois, descobri onde ele estava. O idiota tinha se dado bem na vida, era director de uma pequena fábrica de medicamentos, embora o tivesse feito de uma forma discreta, claramente ele não queria ser encontrado. Amy aconselhou-me a ter prudência em chegar até ele, ela sabia que eu por vezes posso ser um pouco impulsivo, e por isso criamos um plano em conjunto, fiz de conta que era um jornalista de uma revista digital que abordava pessoas de sucesso, ele rapidamente caiu na ratoeira e deu-me a morada de casa, combinamos a data e o horário de encontro. Levei todo o equipamento para ele acreditar no meu personagem, mas escondido, levava também uma pequena surpresa para ele, um pequeno frasco com um amendoim desfeito em pó, eu sabia que ele era alérgico a amendoins, e bastava um pouco daquilo para causar um grande estrago nele, aproveitei o momento em que ele se ausentou para ir á casa de banho, e coloquei o conteúdo do frasco no copo de whisky que ele pousara na mesa; quando ele voltou inventei uma desculpa de que tinha de ir embora, não queria estar ali quando ele se começasse a sentir mal. O resto toda a gente sabe, ele foi encontrado pela policia dias depois em estado de decomposição, a causa de morte foi uma severa reacção alérgica que levou a uma paragem respiratória, tudo demonstrava ter sido um incidente.

- Posso saber porque está a contar tudo agora? - o inspector parecia verdadeiramente surpreendido por aquela revelação - Sabe que a sua situação piorou bastante por causa disso.

- Perdido por cem, perdido por mil - John respondeu tranquilamente - Ambos temos a noção de que a aventura terminou para mim, por isso mais vale contar tudo de uma vez, e confesso que tenho um certo orgulho no que fiz.

- Então está disposto a colaborar, e aceitar as acusações sobre si? 

- Digamos, que estou disposto a negociar...

- Não estou a perceber.

- Eu aceito a acusação de assassinato de Kate, mas não quero ser acusado da morte do meu pai, e não quero que Amy seja incriminada também.

- E porque eu aceitaria isso?

- Simples, porque eu posso dificultar a vida, as provas que têm contra mim podem ser facilmente refutadas, e isso significaria perder muito tempo com algo que não iria dar em nada, a única prova consistente é o ódio do meu sogro por mim...

- Como explica então o facto de Kate não saber nadar? - o inspector rosnou - Que eu saiba, só alguém muito próximo saberia disso.

- E quem disse que não foi ela que escorregou e caiu ao lago? - John estava irredutível - Não há testemunhas, pode apenas ter sido um acidente...

- Eu não deitaria foguetes tão rapidamente senhor Morgan, foram encontradas pegadas na zona onde se pensa que Kate terá caído, e acontece que essas pegadas condizem com umas botas suas encontradas no caixote do lixo da sua casa, e curiosamente essas botas encontravam-se enlameadas.

- Outra pessoa poderia ter usado as minhas botas, só para me incriminar, porque duvido que tenham encontrado alguma marca, adn ou impressão digital minha. Como vê, rapidamente você vai parar a um beco sem saida, e a sua implicação comigo, uma pessoa inocente, e isso poderá levar a uma má reputação da sua imagem.

- Posso saber porque motivo não quer ser acusado da morte do seu pai?

- Porque ele mereceu, era um monstro que precisava de ser eliminado.

- Nesse ponto eu poderia dizer que você é igual a ele.

- Talvez, mas eu estou disposto a pagar pela morte da minha mulher, coisa que o meu pai nunca o fez, se o tivesse feito, provavelmente eu não estaria hoje aqui á sua frente.

- Sabe que não cabe a mim o facto de você ser ou não acusado da morte do seu pai, só um juiz o poderá fazer.

- É verdade, mas como sabe, às vezes poderiam surgir boatos sobre a morte do meu pai, e não me parece que haja necessidade de trazer o assunto para a luz do dia.

-Não existem provas da sua ligação com a morte do seu pai, além disso o caso foi dado como morte acidental e encerrado, por isso acho que não terá que se preocupar com isso. Agora vamos ao que interessa, porque matou a sua esposa?

- Kate por vezes era...um pouco chatinha, sabe? Ela era uma mulher muito bonita, mas não tinha conteúdo, era uma autêntica piscina rasa. Amy era amiga do pai de Kate, e por isso conhecia a familia muito bem, foi ela quem me apresentou ao meu futuro sogro, disse que eu precisava de um emprego, que eu não tinha estudos, mas que era empenhado, ele aceitou. Não demorou muito até começar a aproximar-me de Kate, foi numa festa da empresa, ela tinha acabado de chegar de viagem, e ficou verdadeiramente encantada comigo, em pouco tempo começamos a sair juntos, o pai dela é que não achou graça, e parecia desconfiar de mim...mas Kate conseguiu convencê-lo de que eu tinha intenções serias em casar. Só que ele pregou-me uma surpresa, e obrigou-me a assinar um termo em que eu não teria direito a nada, caso um dia me viesse a separar de Kate, claro que isso me levou uma alteração de planos, mas mesmo assim casei com Kate, Amy achou que eu devia voltar atrás,  mas já que tinha chegado tão longe, não iria desistir. Mas a minha ganância um dia falou mais alto e fui apanhado a roubar na empresa, tinha ficado até mais tarde com a desculpa de que precisava de analisar uns relatórios de vendas por causa de uma discrepância de valores, já todos tinham saido quando fui ao gabinete do meu sogro, o meu objectivo era pegar no dinheiro do cofre do escritório dele, mas infelizmente naquele dia o meu sogro esqueceu-se do telemóvel e voltou para trás, e encontrou-me a assaltar o cofre, se não fosse por causa de Kate eu teria ficado sem nada, mas ela avisou o pai do escândalo que seria se as pessoas soubessem o que aconteceu, o meu sogro aceitou, mas nunca mais confiou em mim.

Quando viemos para cá, os primeiros dias correram bem, mas aos poucos Kate foi se queixando cada vez mais da vida do campo, e de mim também, mais tarde descobri, que ela falava com o pai ás escondidas, e tinha o plano de se separar de mim, mal a casa ficasse pronta, claro que eu não podia deixar, não podia ficar sem o dinheiro, fiz de conta que não sabia de nada, e então lembrei de fazer um seguro de vida em nosso nome, ela nem desconfiou dos meus argumentos, caso algo acontecesse a um de nós o outro receberia uma boa indemnização. Não foi dificil atrai-la até á beirada do lago, na parte mais profunda, depois aproveitei uma distracção dela e dei um bom empurrão, ela caiu, e eu fiquei a vê-la a afogar-se.  Depois fui até Londres falar com Amy, mas ela virou-me as costas, embora tenha aceitado o dinheiro que lhe dei...

- O seu caminho chegou ao fim John Morgan. - o inspector entregou-lhe um bloco de notas e uma caneta - Preciso que escreva a sua confissão, pode ser que o Juiz lhe reduza a pena pelo facto de ter confessado o seu crime.

John não respondeu, limitou-se a pegar no bloco e na caneta e começou a escrever.

*************

Nos dias a seguir não se falava noutra coisa em Aubrey, mesmo os jornais deram grande destaque áquele crime, mas ao fim de algum tempo a vida voltou ao ritmo de sempre. A mansão de white lake continuou vazia, meia arranjada meia decadente, acabou por se tornar num bizarro lugar de peregrinação por parte de pessoas que procuravam fantasmas, pois diziam que pouco tempo depois do crime, começou-se a ver o fantasma de Kate Morgan junto ao lago...