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The book of stories

Um blogue que é o meu reflexo, e onde, as pequenas e grandes histórias têm lugar

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Um blogue que é o meu reflexo, e onde, as pequenas e grandes histórias têm lugar

Qui | 22.11.18

A noiva de papel (parte2)

Elisabete Pereira

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Judy duvidou daquilo, provavelmente era só uma história inventada, como tantas outras, ninguém no seu perfeito juizo iria comprar aquela mansão.
- Ouve lá, tens a certeza disso? – perguntou ela para Emily – Dificilmente alguém iria querer enterrar dinheiro naquele lugar, ainda por cima assombrado.
- Juro que é verdade! – Emily ficou indignada – Sabes que a minha filha é amiga da agente imobiliaria que está encarregue de vender a casa, eu era incapaz de inventar o que quer que fosse. Ela não lhe deu grandes detalhes, mas disse que quem comprou o imovel era um casal jovem de Londres.
- São doidos, só pode. – Patrick abanou a cabeça – Nem que eu fosse milionário compraria um lugar daqueles, credo!
- Muito provavelmente, não vão ficar nem uma semana. – Judy atalhou – Acreditem no que vos digo.

                                                                                 *****
Rapidamente a novidade se espalhou, e poucas horas depois já toda a aldeia sabia, as pessoas faziam apostas sobre quanto tempo iam ficar com a casa, mas só quase um mês depois é que viram os novos donos da mansão pela primeira vez. Rapidamente se tornaram objecto de curiosidade por parte dos habitantes de Aubrey, quando colocaram os pés no “ Trevo de ouro “ pela primeira vez.
Eram um casal bem disposto, ela era loira e magra, ele era também magro e usava barba, pareciam um casal saido de uma revista de moda, estavam vestidos com roupas casuais manchadas de tinta branca, pareciam despreocupados e alheios aos olhares de curiosidade. Chegaram ao balcão e pediram algumas cervejas.
- Não se preocupe, não são todas para nós. - riu-se o homem virando-se para Patrick vendo este a levantar a sobrancelha - São para levar para os outros trabalhadores da obra, claro que também vamos beber uma ou outra…afinal também temos direito, já que estamos á horas a pintar a casa, sabe como é.
-John, és mesmo parvo! – repreendeu a mulher – Não ligue ao meu marido, ás vezes ele pensa que é engraçado.
Patrick entregou as cervejas em silêncio, enquanto as restantes pessoas do pub continavam a observar os estranhos, de repente alguém pergunta:
- Foram vocês que compraram a mansão de White lake?
O casal olhou um para o outro antes da mulher responder:
- Sim compramos. – ela virou-se para a pessoa que lhe fez a pergunta – Porquê?
-Devo dizer que vocês têm coragem – disse Patrick – Não é qualquer um que compra uma casa assombrada.
- Nós não acreditamos nessas coisas – John sorriu – Mas respeitamos as vossas convicções.
- Não são convicções, são factos! – Patrick respondeu veementemente – O fantasma é real, a maioria da aldeia já a viu rondar a mansão, ela não gosta de estranhos...
- Eu entendo a vossa posição. – a mulher colocara o saco das cervejas numa cadeira vazia e continuou – Mas não se preocupem, a nossa intenção é construir um alojamento rural, para quem quer sair da rotina da cidade e passar uns dias no campo, todos têm a ganhar, a própria aldeia vai lucrar com isso.
- Ninguém está a por a vossa conduta em causa. – Patrick respondeu – Mas podiam usar outra casa ou propriedade da zona, até porque naquela mansão ninguém fica muito tempo, só vão gastar tempo e dinheiro. Oiçam o que vos digo.
- Não se preocupe, acreditamos que o nosso dinheiro será bem entregue – John pousou também os seus sacos e colocou as mãos nos bolsos – Por falar nisso, alguém conhece um jardineiro na zona que possa tratar do jardim da mansão? Aquilo parece um matagal.
- Podem falar com o Higgins, ele vive próximo daqui. – Patrick respondeu – Se quiserem posso dar-vos o contacto dele.
- Agradeciamos muito! – a mulher pegou num papel e numa caneta da bolsa e entregou a Patrick – Pode escrever o contacto dele?
Alguns minutos depois os dois foram embora, um velho que estava ao balcão resmungou com Patrick:
- Então tu foste dar o número de Higgins? Mais valia dizeres que não conhecias ninguém, com o tempo iam desistir da loucura de reabilitar a mansão e punham-se a andar daqui para fora.
- Não vale a pena, nota-se que são casmurros, deixa-os estar. – Patrick encolheu os ombros – Eles vão aprender por eles mesmos que nós temos razão, quem se mete com fantasmas acaba mal…

                                                                                 *****
Durante os dias seguintes foram vendo um grande movimento em volta da mansão, a casa aos poucos ia ganhando uma imagem nova, para surpresa da população de Aubrey nenhum incidente ocorreu durante as obras, com o tempo as população de Aubrey começou a pensar que o fantasma tinha ido embora, mas, semanas depois um acontecimento revelou o contrário.
Higgins havia saido mais cedo da mansão, e foi até ao pub “Trevo de ouro", que áquela hora não tinha ninguém, Patrick ficou surpreendido por o ver por lá tão cedo.
- Então Higgins?! - exclamou Patrick - O trabalho terminou por hoje?
- Mais ou menos… - Higgins parecia incomodado – Na verdade, foi por causa de algo que encontrei no jardim.
- Então homem? - Patrick parecia divertido – Não me digas que viste uma toupeira que te assustou.
- Quem me dera que fosse uma coisa tão simples. – o rosto de Higgins ficou sombrio – A verdade é que encontrei um osso enquanto cavava o jardim...
- Ora, isso podia ser de algum cão falecido…
- Era um osso humano! - guinchou Higgins visivelmente irritado - Os Morgan também pensaram o mesmo que tu, mas eu tenho a certeza de que é um osso humano.
- Humano?! Tens a certeza?
- Patrick, o meu pai era coveiro, como bem sabes, ajudei-o muitas vezes no cemitério, posso te afirmar que sei identificar um osso humano de um de animal até de olhos fechados.

- Mas isso não explica porque saiste mais cedo.

- Bem, como é óbvio, recusei a continuar o trabalho. - Higgins respondeu nervosamente - Não vou mexer com provas de um possivel crime.

- Crime? Não achas que estás a exagerar um pouco?

- Não, não acho. - Higgins ficou aborrecido com aquela afirmação - Aliás, eu chamei a polícia para verificar a ocorrência, até porque os Morgan acharam que eu estava a exagerar, ou a inventar uma desculpa para não trabalhar. Senti-me insultado, nunca em tantos anos de trabalho, faltei aos meus deveres de jardineiro, era só o que faltava, um casal de miúdos acusar-me de preguiça! Pedi a demissão na hora.

Ficaram ambos a conversar durante algum tempo, quando chegou o filho mais novo de Patrick que era polícia daquela região, este sentou-se na cadeira ao lado de Higgins.

- Então Fred, vai ser a cerveja do costume? - Patrick perguntou ao filho - Não contava contigo hoje.

- Não posso pai, ainda estou de serviço. - depois virou-se para Higgins - Tenho que te fazer umas perguntas Higgins. Por causa daquele osso que encontraste no jardim da mansão de White Lake.

- Pergunta o que quiseres. - Higgins levantou as mãos - Não tenho nada a esconder.

- Sabes mais ou menos determinar a idade da pessoa através das ossadas? - Fred tirou uma fotografia do bolso entregando-a a Higgins e continuou - Encontramos várias no jardim da mansão de White Lake, foram levadas para ser analisadas, mas isso vai levar semanas, e precisamos de investigar o mais rápido possível,  era uma ajuda termos para já uma ideia do que encontramos no jardim.

- Bem, pelo tamanho do ossos e do estado de deterioração, eu diria que pertence a um recém nascido - Higgins observou a foto por um momento e depois voltou a entrega-la a Fred - E mais, esse recém-nascido esteve enterrado mais de vinte anos.

- Tens a certeza? - Fred perguntou enquanto guardava a fotografia no bolso - Isso significa que...

Foram interrompidos pela entrada de Judy que tranportava consigo o trolley das compras, resmungava mais para si mesma, quando notou que todos olhavam para ela.

-Hum, interrompi alguma coisa? - perguntou ela com curiosidade - Se quiserem eu venho cá mais tarde.

- Judy, por acaso estava a pensar em passar por sua casa. - Fred levantou-se e pegou na cadeira ao lado dele - Gostava de lhe perguntar algumas coisas, podia sentar-se á minha beira?

- Claro filho. - Judy sentou-se de imediato na cadeira que Fred lhe indicou - O que queres saber?

- É sobre os Lane - ao ver Judy a erguer as sobrancelhas esclareceu - Apareceram novos indicios, e eu precisava que me ajudasse.

- Mau, outra vez?! - Judy bufou de impaciência - Parece que eu é que estou amaldiçoada, mais de 25 anos depois ainda sou perturbada por causa deles. Não é nada contra ti, mas isto já cansa.

- Eu entendo a sua situação -  Fred sorriu para a idosa - Mas é mesmo importante o seu depoimento.

- Muito bem, diz lá o que precisas de saber. - Judy suavizou um pouco o semblante - Mas acho que não te vou dar nada que já não saibas.

- Sabia se Hannah teve um outro filho? - perguntou Fred - Que tenha morrido ao nascer?

- Não filho, que disparate! - Judy respondeu  - Hanna só teve dois filhos, era demasiado vaidosa para estragar o corpo, além disso, ela teve complicações no parto do filho mais novo, o que fez com que fosse quase impossível voltar a engravidar.

- Então é impossível que ela tenha tido um terceiro filho? - Fred sentiu-se desapontado - Então estamos novamente na estaca zero.

- Mas, agora que falas nisso, lembrei de uma coisa - Judy fez em esforço de memória antes de responder - Henry tinha uma irmã mais nova, ou melhor, meia irmã, o pai traiu a mãe dele com outra mulher. Notava-se que ele não gostava da irmã, um dia ela apareceu na mansão de White Lake, teria uns 20 anos, estava num estado de gravidez avançado, ele aceitou-a lá mesmo de má vontade, ela esteve lá cerca de duas semanas, até que um dia desapareceu no ar. Eles disseram que Henry se desentendeu com a irmã e esta foi embora.

- Não soube de mais nada?

- Não, também não perguntei claro, não sou bisbilhoteira.

- Pode ser alguma coisa...- Fred levantou-se rapidamente - Tenho de ir embora, algo me diz que vou ter ainda um dia longo de trabalho. Adeus a todos.

Judy virou-se para Patrick mal Fred saiu do pub:

- O teu filho trabalha demais, já mal pára por cá. - depois notou Higgins na mesa ao lado com uma expressão estranha - O que é que se passa convosco? Até parece que morreu alguém.