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The book of stories

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Sab | 15.12.18

A noiva de papel (parte 4)

Elisabete Pereira

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A notícia chegou três dias depois do desaparecimento de Kate Morgan, uma mulher apareceu na mercearia da aldeia a perguntar onde ficava o posto de policia mais próximo, era uma mulher com cerca de 40 anos relativamente baixa e morena, mais tarde ela surgiu no pub perguntando a Patrick se havia um local onde ela poderia ficar durante uns dias.

- Tem uma pequena hospedaria a dois quilómetros daqui. - respondeu Patrick solicito - Não é muito luxuoso , mas é um lugar simpático e barato.

- Agradeço a dica. - disse a senhora depois de tomar o café ao balcão - Vou precisar de ficar uns dias, e não tenho muito dinheiro para gastar em hotéis caros.

- Desculpe a pergunta. - Patrick estava bastante curioso - Mas o que veio fazer cá?

- Gostava de dizer que era por um motivo bom. - ela sorriu um pouco mas logo voltou a ficar triste - Infelizmente vim por causa do passado...

- Como assim?! - Patrick estranhou - Não percebi nada.

- Sabe, eu fui uma jovem inconsciente - ela baixou o olhar - Não me orgulho do que fiz, mas não posso negar o meu passado, nem as coisas que fiz. Durante muito tempo tive "problemas" com a bebida e substâncias ilícitas, acabei por fazer muita porcaria, felizmente estou afastada de tudo isso há muito tempo.

- Bem, isso não é lá grande resposta. - Patrick coçou a cabeça confuso - Continuo sem entender o motivo de ter vindo cá.

- Eu sou irmã de Henry Lane. - revelou ela - Ou melhor, meia irmã, como ele sempre fez questão de frisar, a verdade é que me encontraram há poucos dias por causa das ossadas de um recém nascido que foram encontradas no jardim da mansão do meu irmão.

- Você é irmã de Henry Lane? - os olhos de Patrick estavam muito abertos - Dessa eu não estava á espera, mas como chegaram a si?

- Através de análises de ADN , julgo eu... - ela parecia verdadeiramente triste - A bebé em questão era minha filha, chamava-se Daisy...

- Ah...lamento muito...- ele ficou constrangido - Mas porque foi enterrada no jardim, e não num cemitério?

- Pois, essa é uma boa questão.- ela encarava a chavena de café vazia - Mas nem eu sei o que aconteceu.

- Como assim? - Patrick encarava-a apreensivo - Não sabe?

- Não, não sei - os olhos dela encheram-se de lágrimas - Eu fugi mal ela nasceu, era uma jovem de 19 anos revoltada por causa de um pai que nunca me assumiu, embora pagasse as contas, uma mãe amargurada por ter caido na lábia de um homem casado, e eu sentia-me rejeitada por todos...então conheci o caminho do álcool e das drogas, foi uma espiral de situações que me levaram a dar conta que tinha batido no fundo do poço, mas a essa altura eu estava grávida em estado muito avançado, fui expulsa de casa pela minha mãe, a única saida era Henry, embora ele me detestasse, aceitou que eu ficasse lá em casa até a bebé nascer, aliás, ele fez um acordo comigo, ficava com a criança, e educava-a como se fosse filha dele e em troca dava-me dinheiro para eu desaparecer de vez da vida deles. Eu aceitei, não estava preparada para ser mãe, além disso precisava do dinheiro para o vicio, a ressaca era terrível, e há semanas que não consumia, pouco depois chegou o momento do parto, que decorreu sem problemas, nem precisei de ir ao hospital, horas depois já estava de pé e a receber o dinheiro que o meu irmão prometeu, fui embora sem olhar para trás, acabei por voltar a casa da minha mãe, dias depois recebi uma carta de Henry a dizer que a bebé tinha falecido...

- Ele não disse o porquê? - Patrick estava chocado com aquilo - Não lhe deu nenhuma explicação?

- Não, foi completamente seco. - ela falava com a vez embargada - Apenas três linhas numa carta. Mas não me surpreende, até porque ele não era muito dado a afectos, naquelas semanas que lá estive, vi a sua verdadeira face, e acredite que ele não era o anjo que as pessoas julgavam, muito pelo contrário.

- Não pode ser! - Patrick não estava a entender o porquê de ela falar assim do irmão - Eu tinha ideia de que o Henry vivia para o bem estar da família.

- Parecia não é?! - ela deu uma gargalhada triste - Ele disfarçava muito bem, sem dúvida. Mas os "castigos" que ele impingia á familia, eram uma autêntica tortura psicologia, a Hanna tinha tendências suicidas, várias vezes tentou cortar os pulsos, porque acha que ele foi embora com os filhos? Porque queria que ela se matasse, o que acabou por acontecer, a pobre deve ter tido um surto, e enforcou-se.

-Quem diria...- Patrick afagava a barba ruiva que já mostrava muitas brancas - Henry Lane sempre foi a imagem do pai de familia e marido perfeito.

- Mas você ainda não sabe a melhor, ou a pior neste caso. - ela parecia irritada - Ele colocou os filhos num orfanato para adopção, nem com os filhos quis ficar, que pai faz uma coisa dessas? E não foi por falta de condições financeiras que o fez.

- Ele...fez mesmo isso? - ele esbugalhou os olhos de espanto - tem a certeza disso?

- Tenho pois! - ela deu um murro no balcão - Foi o próprio que me contou, á cerca de 10 anos fui procura-lo, nessa altura eu tinha dado um novo rumo na minha vida, estava num emprego estável, casara á pouco tempo, e achei que era a melhor altura para me reconciliar com ele e estar com os meus sobrinhos, mas enganei-me, ele tratou-me muito mal, perguntou se eu andava atrás de dinheiro novamente, e para além disso ele contou que não fazia ideia dos meus sobrinhos desde que eles foram para o orfanato, fiquei para morrer quando ele me contou isso...ainda tentei procurar o rasto dos meus sobrinhos, mas não tive resultados, provavelmente foram adoptados e os seu apelidos foram mudados.

- Isso é terrível. - Patrick assentiu com a cabeça - Embora me custe a acreditar, é demasiado mau.

- Mas é a verdade - ela fungou antes de continuar - Eu diria até para lhe perguntar pessoalmente, mas tal não é possivel, Henry morreu há cerca de três anos.

- Henry morreu? Como?

- Daquilo que sei, foi uma sobre dosagem de medicamentos para o coração, acho que ele tinha um problema cardiaco qualquer e tomou comprimidos a mais.

- Não deixa de ser uma notícia triste, afinal o mais provável é que tenha morrido sozinho.

- Não se preocupe, ele morreu como quis. - ela sorriu e levantou-se do banco - Foi escolha dele. Já agora, o meu nome é Angela Morris, agradeço o café, mas tenho de ir, preciso de descansar.

- O meu nome é Patrick O'malley, se precisar de alguma coisa é só dizer. - Patrick sorriu para ela - Espero que goste da estadia por cá, apesar das circunstâncias. 

- Obrigado. 

                                                                  *******************

As sirenes dos carros da polícia faziam-se ouvir pela aldeia fora enquanto seguiam a toda a velocidade em direcção a white lake, foi encontrado um corpo a boiar no lago ainda de madrugada por um caçador que andava nas proximidades. O corpo de Kate Morgan foi levado para ser autopsiado, suspeitava-se que alguém a empurrou para dentro de água e que esta morreu afogada. A notícia apanhou todos de surpresa, e a ideia do fantasma de white lake ganhou mais força, e toda a gente da aldeia de Aubrey acreditava piamente que foi a fantasma de Hanna Lane quem matou Kate Morgan. Mas a policia tinha outra opinião, e poucos dias depois batiam á porta da mansão de white lake:

- Já descobriram quem fez isto á minha esposa? - perguntou John Morgan com ar aflito - Ainda nem acredito no que aconteceu...

Um dos policias chegou a frente e tirou um par de algemas do bolso e prendeu os pulsos de John Morgan, e este olhou atónito quando viu a prenderem-no:
- O que se passa? – olhava para o policia que o prendeu confuso – Porque me estão a fazer isto?
- John Morgan, está formalmente acusado do assassinato de Kate Morgan. – o policia deu-lhe um empurrão para que este entrasse no carro – É melhor para si não oferecer resistência à autoridade.
- Está tudo doido? Eu não matei a minha esposa!
- As provas dizem o contrário, John Morgan. – Fred aproximou-se dele e murmurou – Ou devo dizer Thomas Lane?
- Não sei do que está a falar – John empalidecera – Isto é um grande equivoco!
- Não, não é! Nós seguimos o seu rasto e o seu passado, e descobrimos que o seu nome é falso, também descobrimos algumas coisas muito interessantes sobre si.

Com um gesto vigoroso o policia fechou a porta do carro, e sem demoras John Morgan foi levado para a esquadra.