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The book of stories

The book of stories

Ter | 13.11.18

A noiva de papel (parte 1)

Elisabete Pereira

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Os habitantes de Aubrey dizem que ainda se vê em noites de lua cheia, a vaguear pela mansão do lago, o fantasma de Hannah Lane, vestida de noiva, da mesma maneira que foi encontrada á 25 anos numa manhã de Inverno pela criada da Familia, o momento ainda é contado nos dias de hoje no pub da aldeia, Judy entrou esbaforida pelo pub "Trevo de ouro", seria ainda bem cedo, Patrick o dono do pub ainda estava a arrumar as cadeiras que estavam ainda em cima das mesas, quando ela lhe pergunta se podia usar o telefone, que era muito urgente, Patrick ao vê-la naquele estado ficou algo confuso, mas acedeu ao seu pedido, daí a pouco a polícia chegava ao pub e Judy foi ter com eles, e desapareceram logo em seguida, só naquela noite quando Judy voltou ao pub é que se soube o que aconteceu. Perante uma plateia intrigada ela contou o insólito e macabro, Judy trabalhava três vezes por semana na casa dos Lane,  e na manhã seguinte lá foi ela fazer o seu trabalho quando viu a patroa enforcada á entrada do quarto vestida com o seu antigo vestido de noiva.

- Foi horrível. - disse ela com ar aterrado - Nunca irei esquecer aquela visão por mais anos que viva.

- A policia desconfia de alguém? - pergunta um velhote num canto do pub.

- Ainda é cedo para isso - Judy bufou -pelo menos foi o que disseram.

- E o marido dela Judy? E os filhos? - uma mulher próxima levantou a duvida - Ouvi dizer que ele desapareceu. Não é um pouco suspeito?

- Ora Emily, posso te afirmar que o marido não tem nada a ver com isso - Judy levantou-se indignada com a pergunta - Eu vi-o abandonar a casa com os filhos no último dia que lá estive, ele deixou a esposa de vez.

-Quê?! - quase todos perguntaram surpreendidos, os Lane eram conhecidos por serem uma familia modelo na aldeia.

- É verdade, e eu até acho que ele demorou em deixa-la de vez - ela rebate - Era uma galderia, e uma preguiçosa de primeira, não que eu lhe desejasse este fim...mas o marido dela passou por muito, acreditem que vi muita coisa naquela casa. Pobre sr. Jameson, ele sempre se preocupou demasiado com a filha, mais do que ela merecia, por isso ele contratou-me para ajudar a filha mal ela casou, infelizmente ela saiu á mãe, não fazia nada em casa nem tinha vontade de fazer, nem mesmo com os filhos.

Todos conheciam Hannah Lane, desde que ela nasceu, ela era a filha mais nova dos Jameson, uma familia remediada da aldeia que tinham uma padaria, a mãe de Hannah fugiu quando esta tinha quatro anos, e foi o pai que sozinho criou os três filhos ao mesmo tempo que trabalhava na padaria, enquanto que os irmãos mais velhos eram trabalhadores e esforçados, Hannah era o oposto, até na escola, era inteligente e esperta, mas não gostava de estudar, e o pai temendo pelo seu futuro, acabou por coloca-la a trabalhar ao balcão da padaria da familia, infelizmente ela não revelava interesse, e quando um dia Henry Lane apareceu na padaria pela primeira vez, ela decidiu seduzi-lo e conquista-lo, ele não era rico, mas era trabalhador e ambicioso, e rapidamente colocou o seu plano em prática, não foi fácil, porque ele era um homem timido e respeitador, mas ela conseguiu dar-lhe a volta, e pouco tempo depois ela ficou grávida, foi um choque para o pai dela, mas Henry disse que assumiria a criança e que iria casar com ela. O pai dela e a família dele queriam que eles casassem o mais rapidamente possível, para não se notar a barriga, mas Hannah bateu o pé, ela queria uma grande festa, e não um casamento á pressa, queria usar um vestido de princesa, e não um vestido para ocultar a barriga, a contragosto a família de Henry concordou, e para espanto da população de Aubrey, Hannah desfilava sem pudores a sua enorme barriga pela aldeia, as pessoas comentavam sobre o seu estado, mas ela nem ligava para isso. Meses depois, o casamento realizou-se, era digno de um conto de fadas, Hannah estava felicíssima, e foi sem dúvida o grande destaque com o seu vestido de noiva, que chegou a escandalizar algumas almas mais conservadoras devido ao seu generoso decote.

A vida parecia correr na maior tranquilidade para os Lane, inicialmente eles foram viver para uma casinha alugada, mas Henry rapidamente foi promovido no emprego e cerca de três anos depois ele comprou uma mansão ao lado do white lake que fica um pouco afastado de Aubrey, nessa altura Hannah estava grávida novamente, foi nessa altura que o pai de Hannah contratou Judy para esta ajudar a filha, e assim as coisas foram andando durante quase onze anos, em aparente harmonia, até ao dia em que Hannah foi encontrada morta.

As pessoas remexiam-se incomodadas nas cadeiras do pub "Trevo de ouro", ninguém imaginava aquilo, todos acreditavam que Henry era apaixonado por Hannah, ele era muito dedicado á familia e á esposa.

- o que aconteceu Judy? - perguntou uma mulher ao lado dela - Porque ele foi embora?

-Bem...eu só sei que tudo teve a ver com um diário, era tudo o que eu entendia nos gritos dele. - ela respondeu pensativa - Pelos vistos ela tinha um diário secreto onde escrevia, e ele encontro-o. Devia estar mesmo bem escondido porque eu limpava aquela casa de uma ponta a outra e nunca o encontrei. Mas não me esqueço da cena, ela estava na sala a ver televisão, as crianças estavam a dormir nos quartos, e eu estava num anexo ao lado da sala a passar roupa a ferro, deviam ser quase quatro horas da tarde, quando oiço um carro a parar do lado de fora da casa, estranhei porque ele só chegava a casa por volta das sete da tarde. Rapidamente Henry foi ter com a esposa á sala, só ouvi gritos da parte dele, ela ouvia tudo calada, quando quis ver o que se estava a passar ele veio ao meu encontro e pediu-me para eu fazer a mala dele e das crianças pois eles iam embora dali, obedeci e pouco tempo depois ele colocou as malas no carro e eu ajudei a levar as crianças ainda sonolentas para o carro, ele por fim pagou-me adiantado o mês e disse-me que não era necessário eu voltar mais ali, ele depois voltou para dentro de casa, e eu fui embora. Foi a última vez que o vi, eu tive pena dela e decidi ir hoje fazer umas limpezas na casa, ver se ela precisava de algo, tentei ligar para casa deles mas a tempestade da noite passada deitou abaixo o poste do telefone que fazia ligação para minha casa, e por isso fui a pé até lá, quando a encontrei pendurada na trave da porta do quarto. Provavelmente matou-se porque sabia que não ia voltar a ter a vida de rainha. Enfim, pelo menos que isto sirva de exemplo para quem lhe quiser seguir as passadas .

Durante dias a polícia rondou a mansão, mas chegaram á conclusão de que aquilo terá sido suicídio, o funeral foi realizado, com muitos curiosos das redondezas a encher a pequena igreja da aldeia, inclusive o jornal local deu destaque aquela morte bizarra. Mas passado pouco tempo tudo passou ao esquecimento. E assim foi durante 25 anos. Pelo meio a mansão passou por várias pessoas, mas nunca ninguém ficava muito tempo, nos últimos 10 anos não vivia lá ninguém e a casa deteriorou-se bastante, o jardim parecia uma selva, a vegetação subia sem critério pelos muros, a própria casa mostrava sinais de obras urgentes. 

Num dia aparentemente igual a tantos outros, os habitantes de Aubrey descobriram que a casa havia sido novamente comprada, tudo começou quando Judy tinha regressado de Londres e passou pelo trevo de ouro.

- Olá Patrick. - acenou ela para o dono do estabelecimento - Queria a bebida de costume. 

- Então, como foi a semana em Londres Judy? - Patrick entregou-lhe um copo com xerez - Gostaste de lá estar?

- Aquilo não é para mim Patrick - ela pegou no copo e deu um gole - É demasiado movimentado para mim, demasiadas pessoas...

- Mas pelo menos estiveste com a tua filha e os teus netos. - Patrick voltara para o balcão para continuar a limpar copos - Sempre deu para matares saudades.

- Um pouco, mas os meus netos já são adolescentes, são bons miúdos, mas as maquinetas estragam um pouco...Bem, não ligues aos meus resmungos, coisas de velha. E por cá, houve alguma novidade na minha ausência?

- Sabes como é, nada de especial ou relevante, tirando a cadela de Algie que finalmente teve cachorros, infelizmente todos mortos.

- Pobre Algie, a criação de cães galgos é o seu ganha pão, ainda por cima ele perdeu quase todos os cães que tinha no ano passado, a esperança dele estava na velha Magie e na sua última ninhada.

- É, ele está devastado, está inclusive a pensar em deixar Aubrey e...

Emily entrou interrompendo a conversa, estava com ar de quem sabia de coisas que os outros não sabiam.

- Vocês não imaginam o que eu acabei de saber- ela fez uma pausa dramática antes de continuar- compraram a casa dos Lane!

- O quê? - Patrick perguntou atónito- Quem iria querer comprar aquela velharia?

(Continua)

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