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The book of stories

Um blogue que é o meu reflexo, e onde, as pequenas e grandes histórias têm lugar

The book of stories

Um blogue que é o meu reflexo, e onde, as pequenas e grandes histórias têm lugar

Ter | 30.04.19

Bé cartoon 10#

Elisabete Pereira

Já sentia a falta de criar os meus cartoons a "martelo", e por isso, hoje decidi voltar a desenhar uma nova tirinha...desta vez é sobre a minha capacidade de atenção (ou a falta dela) nas conversas, e que ja me colocou em situações caricatas. Espero que gostem

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Dom | 28.04.19

Rabiscando no tablet 26#

Elisabete Pereira

Depois de uns dias desaparecida, regressei com o bom tempo (esperemos que desta vez o bom tempo seja mais duradouro) e com novos desenhos...

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Este mês foram apenas, dois desenhos, acabei por não ter tanto tempo quanto gostaria, para Maio espero conseguir desenhar mais.

 

Dom | 21.04.19

Hotel Imperial (parte 3)

Elisabete Pereira

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Passou algum tempo desde que Olivia e Lucas ficaram noivos, mas como ainda não tinham dinheiro suficiente para a cerimónia de casamento, resolveram aguardar mais um pouco, o casamento estava marcado para Janeiro de 1940, no dia do aniversario de Olivia, seria uma cerimónia bem simples, mas mesmo assim, eles pareciam felizes. Era a 31 de Agosto de 1939, quando Olivia veio ter comigo esbaforida, embora parecesse bastante animada:

-Maria, preciso da tua ajuda! - vi que ela trazia algo numa das mãos, parecia uma revista de noivas - A costureira que ia fazer o meu vestido de noiva ficou bastante doente, e não tenho quem me termine o vestido a tempo do casamento...

- Mas eu não conheço nenhuma costureira.- digo confusa - Não sei como te posso ajudar.

- Tu tens jeito para costura. - ela estende-me a revista que tem na mão - Podias termina-lo. Basta tirares umas ideias daqui.

- Não sei...- olho receosa para a revista de noivas que ela me estende - Nunca fiz nada parecido, acho que é demasiado complexo para mim.

- Mas tu fazes coisas maravilhosas. - ela sorriu para mim - Tenho a certeza de que vais fazer algo incrível.

- Bem...eu aceito, mas se correr mal não me venhas culpar.

- Obrigada! Obrigada! - Olivia agarrou as minhas mãos enquanto dava pulos de alegria - Tenho a certeza que vai ficar perfeito, salvaste a minha vida!

- És uma exagerada. - respondi rindo - É só um vestido.

- É mais do que isso! - ela olhou para mim seriamente - É a minha felicidade.

Revirei os olhos, mas não disse nada, ela estava feliz e era o que importava, peguei na minha caixa de costura para iniciar a tarefa de lhe acabar o vestido de noiva.

***********

Era uma manhã calma de inicio de Setembro, o verão estava a acabar mas o tempo anda se encontrava quente, os primeiros hóspedes desciam a escadaria do hotel para tomarem o pequeno almoço, Philippe, o porteiro trazia os jornais debaixo do braço para serem deixados na recepção, habitualmente comprimentava-me com um sorriso, mas desta vez parecia preocupado:

- Então Philippe? Que cara é essa?- pergunto-lhe - Algum problema?

- Ai menina Maria, nem imagina. Ou muito me engano, ou vamos entrar numa nova guerra. - Philippe desdobrou um dos jornais e mostrou-me a notícia de capa - Repare, a Alemanha invadiu a Polónia! Agora me recordo, é a sua terra não é verdade?!

- É sim. - digo enquanto leio a noticia do jornal assustada - Oh, é terrível! Valha-me Deus!

- Receio que venham dias negros menina. - Philippe fitou um ponto acima da minha cabeça - Que Deus nos valha, voltar a passar por todo aquele tormento novamente...não sei se a minha Josephine vai aguentar, perdemos o nosso filho mais velho na Grande Guerra, e agora se os nossos netos tiverem que se alistar também?

- Vamos esperar para ver o que realmente virá a seguir. - digo de forma a tentar dissipar o medo - Provavelmente será um conflito que se irá resolver rapidamente.

- Eu já ando por cá á muito menina, para saber que isto não vai acabar bem - Philippe deu um sorriso triste - Você ainda é muito nova para entender.

Ele pega no chapéu e lentamente se afasta de mim, fico a observa-lo enquanto ele passa pelas portas de vidro da entrada do hotel, realmente isto é terrível, o meu país invadido pela Alemanha, a minha identidade... No final do expediente decido escrever um telegrama para Bathilda, preciso saber se estão a salvo.

******

1940 chegou mais rápido do que imaginavamos, em poucos meses Paris mudou completamente a sua atmosfera, até parecia haver menos gente na cidade, menos brilho menos alegria, a guerra deu um tom cinzento à cidade luz.

No dia do seu aniversário, Olivia passou o dia observando a janela, de semblante fechado, observando a chuva que caía lá fora. Lucas alistara-se para combater na guerra sem ela saber, tiveram entretanto uma discussão terrível, e ele partiu para a guerra sem fazerem as pazes. No final do dia, ela trouxe uma caixa de papelão que deixou no balcão da recepção:

- Desculpa estar a chatear na tua hora de serviço. Mas preciso que me faças algo...

- Claro. - digo de imediato - O que é?

- Quero que faças isto desaparecer. - ela apontou para a caixa - Não quero voltar a ver esta coisa à minha frente.

Com curiosidade abri a caixa, e para meu espanto vejo o vestido de noiva que eu tinha terminado de costurar há pouco mais de um mês:

- Posso saber porquê? - pergunto confusa - Pensei que era o que mais querias...

- Já não me interessa, de qualquer das formas não o irei usar.- ela cruzou os braços decidida - Eu e Lucas terminamos antes de ele ter ido para a guerra.

- Tens a certeza que é isso que queres? - olhei para ela na dúvida - Acho que devias pensar melhor no assunto.

Ela não me ouviu, apenas virou costas e foi embora. Dou um pequeno suspiro, ela por vezes deixa vir ao de cima o seu lado mais precipitado, era uma pena perder um vestido daqueles, ainda por cima o trabalho enorme que tive em fazer do jeito que ela queria. Acabei por guardar o vestido, num lugar longe do olhar dela, talvez um dia ainda me agradeça.

******

Sinto que um peso me saiu de cima, no último telegrama, Bathilda contou que conseguiu fugir com Sonya para o Reino Unido para a casa de uns familiares dela que viviam nos arredores de Londres, pelo menos para já, posso respirar de alivio.

Estou tão distraída que nem dou conta que já à alguns minutos se encontra ali um oficial ao balcão:

- Desculpe menina, sabe onde posso encontrar Olivia Montoya?

- Pode aguardar um pouco?- pergunto com delicadeza - Ela de momento está a arrumar os quartos, mas posso chama-la num instante.

- Não será necessário. - ele entrega-me uma carta fechada - Só preciso que lhe entregue esta carta.

O dia foi passando e quase esqueci a dita carta, só mais tarde é que lembrei dela, Olivia não sabe ler, e por isso, normalmente sou eu que lhe leio a correspondência que chega para ela. Abro a carta para lhe poder transmitir o conteúdo mais tarde,mas a meio da leitura deixo cair a carta em choque, ela vai ficar devastada com a notícia, como lhe vou dizer algo tão terrível? Nem de propósito ela chega até mim naquele momento:

- O que foi Maria? - ela pergunta alegremente - Parece que viste um fantasma.

- Entra aqui, preciso de falar contigo em privado. - abro a porta de um dos quartos que se encontra vazio - Infelizmente não tenho boas noticias para te dar.

Sex | 19.04.19

Óculos, esses vidrinhos que usamos à frente dos nossos olhos para conseguirmos ver o mundo

Elisabete Pereira

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Sou míope desde nascença, com um défice de visão maior no olho esquerdo, e também sou ligeiramente estrábica, os meus pais descobriram que algo não estava bem comigo quando por volta dos meus 3-4 anos batia contra os móveis. A partir daí os óculos entraram na minha rotina diária, tanto, que já nem lembro do tempo em que ainda não os usava, claro que há dias em que só me apetece atira-los pela janela, mas não o faço porque é muito parvo (e foram caros). Ao longo desse tempo fui começando a perceber situações caricatas, que quem usa óculos vai provavelmente identificar-se com isso:

- Quando algum dos nossos amigos, pega nos nossos óculos (por vezes sem a nossa permissão), colocam-nos e exclamam "ei, és mesmo cegueta!!Como consegues ver com tanta graduação", ou seja, nunca dizem "ficam-te mesmo bem, dão-te um grande estilo! Gostava de ter uns iguais!";

- Uma palavra, "vapor"...não se vê a ponta de um boi, ficamos ali com uma película nos vidros dos óculos, que nos impede de ver, e enquanto isso ficamos feitos parvos tateando no ar;

- Limpar os óculos, e ao fim de cinco segundo, estão sujos novamente;

- "Onde pus os óculos, que não os encontro em lado nenhum?" Cinco minutos depois noto que estão na minha testa, entretanto desarrumei a casa inteira á procura deles;

- A chuva senhores! Quando começa a chuver e não tens guarda-chuva, e daí a segundos as lentes estão salpicados de gotas de água, nessas alturas quase pensamos que seria boa ideia termos escovas para - brisas nas lentes dos óculos;

- Óculos de sol, é difícil usarmos uns sem parecer ridículo (pois como não são graduados andamos sempre a bater contra coisas e a tropeçar) ou gastar uma pipa de massa nuns óculos de sol graduados...são opções complicadas;

- Quando os nossos amigos pedem para nos verem sem óculos, e nós franzimos os olhos para os conseguirmos ver sem óculos, ao melhor estilo "míope chique", e parecemos aquele meme do panda sem as manchas negras á volta dos olhos.

Já pensei usar lentes ou fazer cirurgia, mas como boa cobarde que sou prefiro continuar com o bom velho par de óculos de sempre.

Sex | 12.04.19

"Coitadinho (a), é deficiente..." ou como por vezes podemos descriminar sem querer

Elisabete Pereira

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Não sei se alguém já deparou com pessoas que quando vêem alguém com algum tipo de deficiência, dizem logo algo do género "coitadinho, é deficiente" e isso acaba por ser algo irritante, mesmo que não seja intencional, acaba por ser preconceituoso para com a pessoa, como se elas limitassem a vida á sua deficiência, quantas vezes são mais pro activas e corajosas do que os considerados "normais", até porque a vida muitas vezes os obriga a isso.

Eu própria, também cometo deslizes, mesmo não sendo intencional, aliás este texto é um pouco para mim também, não que alguma vez eu tenha dito ou pensado algo do género (pelo menos que eu me lembre), mas existem situações em que também eu falhei, por exemplo, há algum tempo num centro comercial, uma jovem que não deveria ter mais de 20 anos e que usava uma prótese no lugar da perna direita (era visível pois ela usava uma saia), a jovem passeava normalmente de mão dada com o namorado, e eu fiquei um pouco... senti-me culpada pois eu não deveria dar tanta atenção a essa jovem (até porque havia outras pessoas no centro comercial), afinal era só mais uma pessoa na sua vida quotidiana, pergunto se isso não será tão mau quanto as pessoas que olham para essas pessoas com pena. Não serei eu também uma pessoa preconceituosa mesmo sem perceber? Se bem que, pensando agora a esta distância, eu acho que até seria mais inveja do que outra coisa, afinal, ela parecia bem segura de si mesma, além disso ela tinha namorado e eu não. Mais uma lição de vida aprendida, pelo menos assim o espero.

Qua | 10.04.19

A minha experiência num apartamento partilhado

Elisabete Pereira

eduard-militaru-98570-unsplash.jpgPor necessidades da vida, estive durante 6 meses num apartamento partilhado, não foi uma experiência de todo ruim, bem pelo contrário, mas se fosse hoje, optaria por um apartamento só para mim, ou então um quarto com casa de banho privada, e passo a explicar o porquê disso.

Mas antes, tenho a dizer que foi uma experiência importante na minha vida, pois foi a primeira vez que estive tanto tempo fora do ninho materno...ok, eu ia a casa dos meus pais uma vez por semana, mas mesmo assim foi uma situação em que eu estive por conta própria, o que já foi uma aventura...e nem foi para encontrar quarto, até porque existem plataformas online excelentes para isso, aliás, eu até tive muita sorte, pois encontrei um quarto excelente, a 5 minutos do trabalho e por um preço bem em conta...o problema foi tentar abrir a porta do apartamento pela primeira vez, tive de tocar à campainha, e uma das minhas "roommates" em pijama e ensonada abriu a porta, ela ainda me ensinou como se abria, mas como o meu foco é igual ao de um peixinho dourado, o meu cérebro apenas processou "blábláblá...blábláblá...", resultado, quando mais tarde fui levar as minhas coisas para o quarto, não consegui abrir a porta novamente, fiquei 20 minutos a dar voltas com a chave, mas nada. Tive de levar a minha tralha comigo para o trabalho, e rezar para que à noite alguém me conseguisse ajudar, felizmente isso acabou por acontecer, e a partir daí consegui atinar com o truque de abrir a porta.

De resto, não tive mais problemas, as minhas colegas de apartamento, tal como eu, eram bastante discretas, raramente nos cruzavamos, e quando acontecia, cumprimentavamos e cada uma seguia o seu caminho, as pessoas do prédio também eram bastante sossegadas e educadas, era tudo quase perfeito, quase, porque havia uma coisinha, que tirava essa perfeição, a casa de banho. Nem sequer falo das pilhas de embalagens de champôs e géis de banho das minhas "rommates" que ocupavam boa parte da banheira, o problema era a sujidade, mais especificamente, o sarro que se acumulava, e nenhuma se preocupava em limpar, volta e meia, e ia limpando aquilo, mas fui notando com o tempo que só eu me preocupava com isso, tanto que estive uns tempos sem estar no quarto e quando voltei, numa manhã em que o esquecimento me fez levar os óculos para a casa de banho, notei que a sanita, o lavatório, o bidê e a banheira tinham uma boa camada de sujidade, nessa mesma tarde fui limpar tudo. O resto das divisões, não sei se teriam o mesmo tratamento por parte delas, pois não usava a cozinha nem nada, só mesmo o quarto e a casa de banho, mas lembro de ver no corredor, uma grande bola de cotão num canto durante vários dias (alguém terá varrido o corredor e deixou o lixo num canto), até que me fartei de ver aquilo, e deitei aquela coisa ao lixo. Por isso é que hoje em dia, se precisar de procurar um quarto novamente, prefiro procurar um em que possa usar a casa de banho só para mim, pode ser picuinhas da minha parte,mas da minha higiene eu sei bem, quanto à dos outros...já não tenho tanta certeza.

 

Sab | 06.04.19

Os 30 já cá cantam, e até agora não está a ser tão ruim...

Elisabete Pereira

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Bem, finalmente posso dizer que sou uma solteirona (pelo menos segundo o livro "amores de uma solteirona" de Lilian Bell, em que a personagem começa a narrativa na antecâmara dos 30...e solteira, como eu). Cheguei ao número redondo dos 30, a sensação é a de estar próxima de um abismo e espreitar lá para dentro, mas a única coisa que vês é escuridão...ok, estou a ser um pouco dramática e exagerada, mas se pensar bem, uma boa parte da minha vida já passou (e provavelmente a melhor parte, principalmente na parte das maleitas), e por isso começo a ser mais introspectiva, a pensar que a partir daqui é sempre a descer....pronto, está bem, é verdade que nem tudo é mau, mas, já não temos 18 anos e não somos tão inocentes, e supostamente deveriamos actualmente saber o que queremos da vida, mas o facto é que aínda não sei quem sou, nem sei o que quero fazer da vida, ainda me sinto tão perdida como quando tinha 18 anos, todos os planos que eu tinha naquela época esfumaram-se, e por isso, prefiro hoje em dia não planear tanto. 

Verdade seja dita, já passou uma semana da data fatídica, e até agora as coisas não foram muito más, e por isso, para fugir um pouco a esta aura depressiva em que me tenho sentido, decidi criar uma lista de coisas que gostaria de fazer até aos 40, é apenas um exercício de imaginação tornado em cápsula do tempo, para ser lido por mim daqui a 10 anos (giro, era quando chegasse aos 40 ler este post e rir com os disparates que escrevi hoje, e ver o quanto as coisas bateram ao lado, claro que, se até lá o blogue ainda se mantiver de pé):

- Primeiro, caso, e sublinho a palavra "caso", eu alguma vez me casar e a ter filhos, espero que seja até ao máximo, 37-38 anos, não tenho nada contra quem case e tenha filhos mais tarde, mas não me vejo a ser uma mãe tardia, e se não acontecer até mais ou menos a idade em que referi acima, não irá acontecer de todo;

- Se não tiver filhos, quero ter pelo menos 3 gatos;

- Quero ter uma casa ao pé da praia (ou apartamento);

- Quero viajar, e conhecer outros países;

- Quero conseguir ter algum sucesso literário, melhor aínda era conseguir viver da escrita;

- Quero conseguir fazer finalmente uma licenciatura;

- Quero poder levantar-me todos os dias e pensar que faço o que gosto;

- Quero que este blogue ao fim destes anos todos continue sobre rodas, e que ainda me satisfaça escrever aqui;

- Quero manter-me com boa saúde, olhar para o espelho e gostar do meu reflexo;

Pronto, acho que não é pedir muito ao meu eu do futuro, por isso esforça-te miuda, estou a contar contigo!!

Qui | 04.04.19

Hotel Imperial (parte 2)

Elisabete Pereira

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Olivia fez carranca, quando voltei a recusar saír com ela, mas eu não lhe dei muita atenção, estava mais preocupada com outras coisas naquele momento.

-Maria, como podes fazer isto comigo? -ela fez beicinho enquanto pegava no chapéu ao lado da cama- Eu pedi ao Lucas para trazer um amigo com ele...

- E podem perfeitamente sair os três sem mim. - corto-lhe a palavra sem sequer olhar para ela, estou mais focada em coser um botão num casaco - Que eu saiba, não te pedi para fazeres de casamenteira.

- É a nossa folga! - Olivia voltou á carga - É Domingo, podemos passear por Paris á vontade.

Olivia é um autêntico furacão em miniatura, adora passear, namorar e usar os vestidos que estão na moda, é uma parisiense de corpo e alma e uma verdadeira coquette, chama a atenção dos homens por onde passa.Somos bem diferentes uma da outra, já que eu sou bem mais discreta, mas curiosamente, a nossa amizade foi praticamente imediata.

- Talvez, mas não me apetece sair. - digo com sinceridade -Vou ficar por aqui mesmo, tenho algumas coisas para tratar...

- Como coser botões em casacos. - Olivia responde com ironia - Não há duvida que é um tempo bem passado.

-Pois, mas não te queixaste no outro dia quando consegui arranjar o teu vestido favorito.- respondo prontamente - Até porque mais tarde disseste que eu fui a tua salvadora e que por causa do vestido...

- Pronto, já percebi. - Olivia ergue os braços dando-se por vencida - Fiz os possiveis, mas não posso obrigar ninguém a fazer o que não quer. Desta vez escapaste, mas para a próxima vou conseguir levar-te comigo.

-Vou pensar no teu caso. - não consigo deixar de sorrir ao vê-la tão animada em sair com Lucas - Diverte-te!

- Vou fazer por isso - ela pisca-me o olho antes de sair - Au revoir ma chérie.

Volto á minha costura, e mal oiço a porta a fechar, coloco o casaco de parte e pego na minha mala que está debaixo da cama, pego na folha de papel que tinha começado a escrever, mas que ainda está inacabada, tenho de terminar antes que Olivia volte:

 

"Paris, 20 de Outubro de 1937

Querida Madame Berger, espero que se encontre bem, assim como toda a sua família, envio-lhe esta carta para lhe agradecer a ajuda que me deu, afinal, se não fosse por si, não teria conseguido este emprego. Pierre Langlais, o director do hotel, ainda olha para mim algo desconfiado, como se no momento seguinte eu fosse fazer alguma asneira terrível, mas Olivia diz que é o jeito normal dele, para eu não me preocupar com isso. A adaptação tem sido rápida e acredito que em pouco tempo vou conseguir o meu objectivo..."

Pego na pena para continuar a escrever, mas as palavras custam a fluir na minha mente, tenho tanta coisa para dizer, mas por fim decido por uma linha de raciocinio:

"...Tenho muitas saudades de casa, da minha família e do meu país, mas enquanto não conseguir o que me trouxe aqui, não conseguirei ter paz na minha vida. Eu sei, que me avisou que seria uma tarefa muito difícil, mas eu prometi aos meus avós que iria fazer-lhes justiça. Também sei, que me inclui nas suas orações, e agora, mais do que nunca, necessito do seu apoio, nem que seja em pensamento.

Um abraço 

Maria Woziscky"

**********

Deve ser quase meia-noite, quando oiço a porta do quarto a abrir, Olivia tenta ser silenciosa, mas sem sucesso, quando um dos pés bate contra a cadeira.

- Raio da cadeira! - grita ela agarrada ao pé - Como é que ela aparece no meio do caminho?

- Acho que sempre esteve aí. - digo, divertida em vê-la naquela situação caricata - Se tivesses aceso a luz do quarto, provavelmente não terias batido contra a cadeira.

- Não te queria acordar. - noto naquele momento um brilho nos olhos dela - Mas, já que estás acordada, tenho de te contar...o Lucas pediu-me em casamento!

- A sério?! - olho para o anel no dedo da mão que ela estende para mim - Parabéns!  Fico muito feliz por vocês.

Ela não responde, apenas sorri de felicidade, de repente sinto uma enorme tristeza, porque relembro que já passei pela mesma situação que a dela, e que mal eu sabia nessa época, que o pedido de casamento seria o inicio do inferno para mim e para a minha família.