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The book of stories

The book of stories

Sex | 24.08.18

A praia também não é assim uma coisa tão boa como se dá a entender

Elisabete Pereira

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Já notaram a canseira que é ir à praia? A sério, só a quantidade de coisas pelas quais passamos para estar um dia a torrar ao sol, quase que dá vontade de voltar para a cama. Acham que estou a exagerar? Provavelmente, mas dêem-me um desconto, que este ano estou praticamente tão branquinha como uma lula, e preciso de extravasar o meu azedume de praticamente mal ter posto os meus pezinhos na praia, e uma dessas vezes até ter estado nevoeiro.

Reparem, o trabalho e a chatice começam logo de véspera, a confecção da merenda para o dia seguinte, desde fritar os bolinhos de bacalhau, os panados, o frango guisado (ainda há quem o faça), depois no dia seguinte, principalmente quem tem filhos pequenos, é uma luta para sair de casa de manhã, e por vezes o dia ainda nem nasceu, pois a praia mais próxima fica a umas três horas de distância ou mais, ou então porque não querem passar horas no trânsito, depois é pegar em toda a tralha e colocá-la no carro, chegados á praia, novo drama, escolher o sitio na areia onde largar os cacarecos e estender a toalha, ali á beira das rochas tem mais sombra, mas o outro quer ir para mais próximo da água, escolhido o local, arma-se o "forte de lona", autênticas fortalezas criadas com para-ventos, guarda-sois, e uma espécie de "semi-tenda" que agora se vê muito pelas praias,  juro que já vi este combo montado na praia, é uma espécie de t0 do areal.

Claro que não podemos esquecer a fauna que habita por esta altura, as praias do nosso país, existem várias sub-especies, a saber:

- O optimista - normalmente surge num grupo de amigos que se reune para ir à praia, é facil de identificar, é aquele que basicamente traz apenas uma toalha aos ombros, normalmente são seres do sexo masculino (há excepções, mas raramente é avistado elementos do sexo feminino a serem o "optimista" ), o telemóvel e a carteira estão na mala de uma das amigas, crava o protector solar a outro amigo, pedincha sandes a outro amigo, e por aí fora, no final do dia este indivíduo passou um dia na praia á pala dos amigos, sem gastar um cêntimo, e sem ter que se chatear em preparar coisas para a praia.

- A manequim - este sub-espécie é quase exclusivo no sexo feminino, existe toda uma produção cuidada por parte da "manequim", a maquilhagem, o cabelo, a roupa, os acessórios, tudo é cuidado ao detalhe, mas não para estar de papo para o ar e apanhar areia, nem ir para o mar, por norma é para actualizar a sua rede social de fotos, e aumentar o número de seguidores, e quem sabe arranjar alguns patrocionios que lhe paguem as contas.

-A malta das raquetes - eu diria que é mais uma mania do que sub-espécie, são aqueles que têm a triste a ideia de levarem raquetes, bolas, discos voadores, etc, para a praia numa de, "vou só levar algo para entreter a familia e/ou os amigos" mas no geral isso não acontece, ou seja, coisas que 90% das vezes em que se jogar, irão sempre, algumas vezes atingir malta inocente que só quer um pouco de sossego e por norma são coisas que aleijam ou irritam, ou então, "os jogadores" no meio da demonstração das habilidades, jorram carradas de areia para a toalha dos outros, e não só. Um pequeno conselho, levem cartas de jogar em vez dessas traquitanas, pelo menos as cartas magoam menos do que levar uma bola de volei na cara.

- As lapas ou mexilhões - Não, não são os moluscos, são individuos que gostam de se colar a nós, estão a ver quando a praia está quase deserta e vêm uns quantos colarem-se quase á vossa toalha? Ou pior, ao vosso para-vento e assim protegerem-se "criminosamente" das nortadas? Há vários anos aconteceu o seguinte, uma familia emigrante de cerca de 6-8 elementos, contruiu uma autêntica cerca com dois para - ventos e usaram o nosso como terceiro para-vento, basicamente colaram-se a nós, e com a praia com bastante espaço, e foi tudo tão rápido que só notamos quando nos levantamos para ir á água, que tinhamos sido "acoplados" ao espaço onde estavam.

- O megafone - É um individuo que existe tanto no sexo masculino como no feminino, o "megafone" gosta de anunciar em alto e bom som para toda á praia, de onde vem, com quem está, o que faz e por aí fora, é um autêntico livro aberto...existe ainda uma variante que é o "megafone telefónico", o indivíduo que fala alto ao telemóvel, mas que faz questão de que toda a praia oiça a conversa :

" Sim filho, como está aí o tempo?...Devias ter levado um casaco...Pois, aqui estava mais quente...Estou na praia de ***** com os *****....( excerto de conversa ouvida por mim na praia, a pessoa estava a bons metros de distância de mim) essa pessoa depois do telefonema continuou o tema de conversa com os amigos ao lado, mas era como estes estivessem na outra ponta da praia :  " O meu filho foi para Aveiro, só que lá está mais fresco e ele a pensar que o tempo lá estava como cá não levou nenhum casaco, mas também vai só ficar até quarta-feira..."

Existem mais sub-especies, mas estas são as mais habituais de se encontrar; mas continuando com o dia de praia, a meio da manhã já nos perguntamos o que fomos fazer á praia, os miudos já foram cerca de 15 vezes ao mar, e mais iriam se não estivessemos de olho neles, já pediram água, comida, gelados, já andaram a lutar por causa da pá e do balde, e mesmo os adultos ao fim de um tempo também começam a ficar rabugentos, entretanto chega a hora de almoço e toca a tirar tudo o que foi tão cuidadosamente colocado na geleira, e toca a comer tudo com areia á mistura, entretanto terminada a refeição, começa novo drama, obrigar as crianças a aguardar as horas necessárias para ir para a água, entretanto reforça-se o protector solar, mas com dificuldade, pois as crianças por norma não aguentam dois segundos parados, mais tarde vai tudo a banhos, e sentimo-nos frustradas quando vemos aquela mulher com curvas incriveis num biquini reduzido, sem qualquer sinal de celulite e estrias, e pensamos que deviamos termo-nos focado mais na dieta, e culpamo-nos por termos comido aquela bola de berlim com creme, finalmente chega a hora de ir embora, e ao fim de meia hora já desmotamos as tralhas todas, colocamos tudo no carro, e enfrentamos o trânsito de forma estoica, e ao fim de uma eternidade chegamos a casa, lá vamos tomar banho para tirar a areia que se colou a nós, e descobrimos que a areia foi parar em sitios onde o sol não brilha, durante os proximos dias vamos continuar a encontrar areia no nosso corpo, e por fim, finalmente vamos nos deitar, sentimos como se tivessemos ido á guerra, mas que agora finalmente vamos poder descansar...pelo menos até ao próximo dia de praia.

Ok, eu confesso que escrevi isto apenas porque tenho inveja de quem neste momento está de férias de papo para o ar, e eu tenho de trabalhar, mas isto também serve para quem como eu também está a trabalhar e tambem para quem está de férias, e que pelo menos o bom humor nunca vá de férias. Agora vou só ali para a minha janelinha entregar a comida a clientes que neste momento estão de férias.

Sab | 18.08.18

Uma história ainda sem titulo (parte 11)

Elisabete Pereira

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 Capítulo 11

Lucy

 

Dobramos a esquina do corredor sem olhar um para o outro, há um silêncio desconfortavel entre nós. Não temos motivo de conversa, nos primeiros minutos ainda conseguimos conversar alguma coisa, pequenos nadas que rapidamente se extinguiram, e agora nenhum dos dois sabe o que dizer, os nossos passos são o único barulho que se ouve, a dada altura noto que o principe Peter mexe os dedos das mãos numa atitude de claro desconforto com a situação,  ele próprio não está á vontade. Nunca pensei que ele se fosse sentir assim comigo, de certo modo isso dá-lhe uma aparência mais normal, uma pessoa como qualquer outra e não um príncipe.

- Há alguma coisa nas minhas mãos que lhe tenha chamado a atenção? - pergunta ele, reparando no meu olhar - Tirando a cicatriz que tenho na mão direita, de resto não se diferem de outras mãos.

- Uma cicatriz?- pergunto de forma sarcástica - Cortou-se nalguma folha de papel?

- Não, foi um pouco mais grave do que isso, fui atingido por um punhal. - ele respondeu secamente - Há uns anos o palácio foi atacado, e ao tentar defender-me de um rebelde, ele deu um golpe na minha mão, a minha sorte foi um que um dos guardas deu um tiro no rebelde, e levou-me para um lugar seguro.

- Ah....não fazia ideia - Aquela resposta surprendeu-me, mas não me dou por vencida. - Eu tenho várias cicatrizes.

- Várias? - ele franze o sobrolho - Ou está apenas a tentar impressionar-me?

- Claro que tenho várias cicatrizes, asseguro que é verdade. - mostro com orgulho as minhas cicatrizes nos braços - Estas nos braços, eu tinha 9 anos, foi quando perdi uma aposta com Thomas, tive que invadir o galinheiro do velho Oliver Baggins e roubar uma galinha como castigo, o velho Baggins descobriu e veio atrás de mim com uma forquilha na mão, a dada altura coloquei mal um pé, e caí no chão, nem sei como não parti nenhum osso, foi uma queda um bocado feia, alem disso a galinha bicou os meus praços e abanava as asas para tentar fugir, mas mesmo assim consegui a galinha.

- Impressionante. - ele respondeu fingindo surpresa- Isso demonstra uma vida quase selvagem.

- Mas isso não é nada de mais- digo enquanto pego na saia do vestido, e levanto até á zona joelho da perna esquerda para mostrar uma cicatriz praticamente em forma de borboleta - Isto foi uma bala que passou de raspão, mas deixou o osso á mostra na altura, demorei semanas a recuperar.

- Uma bala? - noto que ele desviou a cara quando levantei o vestido, não deixa de ter a sua graça o seu lado de cavalheiro - Posso perguntar qual o motivo?

- É melhor não. - volto a baixar o vestido - Talvez noutra altura eu conte.

- É uma jovem cheia de mistérios - ele parecia divertido - Está a sair melhor do que a encomenda.

- Não sou assim tão misteriosa, mas tenho os meus truques na manga - respondo prontamente -aliás, como se costuma dizer, um mágico jamais revela todos os seus truques.

- Imagino que sim, no entanto para mim não deixa de ser um mistério a súbita intimidade entre si e o meu irmão - ele emenda logo de seguida - Embora eu fique contente por ele interagir com outras pessoas, para além da familia.

- Não me diga que tem medo de perder a amizade do seu irmão para mim. - digo com um sorriso brincalhão - Não se preocupe que não lhe pretendo roubar o lugar.

- Não é isso, o problema é outro, Noah tem 16 anos, e nunca se apaixonou por ninguém, e temo que ele esteja a confundir as coisas entre vocês - já não há vestigios do humor de à pouco no seu rosto - Não duvido que a Lucy sinta apenas uma sincera amizade por ele, mas no caso de Noah eu não tenho tanta certeza....

Dou uma gargalhada perante o ridiculo da situação, até entendo a atitude de irmão protector, e é só por isso que eu aceito que ele diga isso, mas afirmar uma coisa daquelas, é algo que supera o bom senso.

- Desculpe, mas acho que está a exagerar. - digo sem rodeios - Somos amigos e é só.

- Será? - de repente ele para e volta-se para mim com um ar sombrio - Não sei se deveria contar isto, mas aquele incidente que viu na primeira noite no palácio não foi totalmente inocente... Noah viu as raparigas a chegar através da janela do quarto dele, ele nunca assistira a tanto movimento á sua volta, normalmente ele nunca participa em cerimónias oficiais devido ao seu "problema" ,e curisamente ele ficou fascinado por uma das raparigas, e por causa disso, nesse dia ele esteve bastante instável, não parava de falar da tal rapariga, na altura não associei as coisas, e no meio de tudo isso, ele aproveitou uma distração minha e roubou a chave do quarto dele, no auge da crise ele acreditava que a tal rapariga estava á espera dele no lago do jardim, quando não a viu mergulhou no lago á procura dela, a sorte é que eu descobri a fuga dele a tempo, e foi quando eu vi a Lucy a fugir da varanda, não deu para ver bem se você era a tal rapariga que ele viu. No dia seguinte quando a chamei á biblioteca também era para me certificar se era você a misteriosa rapariga por quem Noah se tinha encantado, e verifiquei que realmente era...por isso fiquei de sobreaviso caso ele arranjasse maneira de ir ter consigo, o que realmente acabou por acontecer, não nas melhores circunstâncias . Mais tarde ele foi inteligente em atrai-la até ao mundo dele, através do xadrez para conseguir chamar a sua atenção e assim conquista-la.

- Isso é um absurdo! - digo peremptoriamente - é uma completa distorção da realidade.

- Assim o espero. -  ele dá um leve suspiro - mas conheço o meu irmão o suficiente para ter motivos para me preocupar.

O ambiente estava pesado sobre nós, como se algo incomodo tivesse sido revelado, até que me lembrei do encontro que ele teve hoje:

- Sinceramente, acho que está apenas a criar macaquinhos no sotão. E acredito que neste momento deve ter coisas mais importantes em que pensar - digo parecendo chateada - Mais precisamente no encontro que teve com a Josie Fleetwood.

- Pois, realmente não foi bem que eu esperava- ele parecia recordar algo verdadeiramente incomodo - Ela tinha dito que a familia criava cavalos, mas no final nem sabia montar a cavalo...foi um desastre de encontro, no fim acabou por cair em cima de um monte de...fezes, não foi bonito de se ver, fez um autêntico escândalo.

Não sabia se devia rir ou ter pena dele, mas honestamente a escolha em ter um encontro com ela foi dele, preferi continuar a ouvir a narrativa dele sem dizer nada.

- Ela é uma pessoa famosa, e pensei que fosse alguém capaz de se adaptar bem á vida na realeza, daí ser a minha primeira escolha para um encontro, ela seria supostamente uma das melhores opções , e por isso queria conhece-la melhor, saber se tinhamos pontos em comum, se era alguém interessante de se conhecer, mas não existe mais nada por detrás daquela personagem que ela criou, é uma pessoa completamente vazia de conteúdo...e adora mexericos, a quantidade de histórias que me contou sobre a vida alheia, deixou-me completamente sem palavras.

- Então vai manda-la embora?

- Não posso, os conselheiros não o permitem, ela é uma pessoa extremamente influente na população de Eran, se a mandar embora, isso poderá não ser bem visto, pelo menos para já tenho que a manter aqui.

- Imagino que já tenha alguém em mente para um próximo encontro.

- Sim, tenho uma ideia de quem será, mas como é obvio, não lhe poderei contar. 

- Nem eu pedi para o fazer, apenas constatei um facto. - Olho para os meus sapatos e respondo com um certo azedume - Somos apenas peões no seu jogo de xadrez alteza, vê em todas nós um motivo de interesse mas que é puramente apenas para o seu bem, se alguma não tem aquilo que pretende, descarta-a sem qualquer pudor, como fez com todas as outras que já abandonaram o palácio.

- Eu acho que você não se pode queixar. - diz ele respondendo alto mas sem gritar - Já teve praticamente três encontros comigo e ainda não foi "descartada".

-Três encontros? - bufo mostrando o meu desagrado - Isso não foram encontros de verdade! O primeiro foi praticamente para me dar uma bronca, o segundo foi para tirar as mãos do seu irmão do meu pescoço, e a terceira é esta, mas nem conta, pois foi o seu irmão que pediu para me acompanhar...

- Quer um encontro de verdade? - pergunta ele encarando-me de um jeito que me deixa desconfortavel - É disso que se trata?

- Eu não disse isso..eu...quer dizer..eu gostava de podermos nos conhecer melhor...- sinto as minhas bochechas a ferver enquanto gaguejo, nem sei porque reajo assim - Sem...sem segundas intenções claro, apenas duas pessoas que um dia eventualmente possam ser amigos, a palavra encontro pode levar a interpretações erradas.

 - Está a dizer que não tem interesse mais nenhum em mim, que não a amizade? - ele demonstra um sorrisinho que me deixa bastante nervosa - Então porque se candidatou? Quais são então as suas verdadeiras intenções para comigo? Ou apenas quer aproveitar-se de mim?

- Eu... - ele aproxima-se mais de mim, e começo a sentir uma estranha eletricidade entre nós - Eu não sei...

- Não sabe? - ele coloca um dos bracos á volta da minha cintura e aproxima a cara dele cada vez mais próxima da minha - Ou não quer dizer?

Ele estava tão proximo do meu rosto que eu conseguia sentir a sua respiração, eu sentia o meu coração a bater descompassadamente, institivamente fechei os olhos, no entanto, um barulho de fundo, leva-nos a afastar um do outro, e embora não tenhamos visto ninguém a passar, o momento perdeu-se, e ficamos completamente constrangidos com o nosso comportamento inconsciente de há pouco.

Ele pigarreia um pouco, antes de falar:

- Peço imensa desculpa pelo meu comportamento, não é de todo do meu feitio...

- Não tem mal - digo evitando olhar para ele - eu também peço desculpa pelo que fiz.

- Se me dá licença, tenho uns assuntos importantes a fazer. - ele está claramente embaraçado com o que aconteceu, ou ia acontecendo - ...hum...uns documentos urgentes que preciso de tratar... lamento não a puder acompanha-la até ao seu quarto...

- Sem problema, eu vou bem sozinha - respondo fingindo ajeitar o vestido - Eu compreendo.

- Antes que me esqueça, o meu pai vai ter alta daqui a três dias, e vai haver uma cerimónia formal e um baile para comemorar a sua recuperação...e...bem, eu terei de entrar com uma das candidatas para dar inicio ao baile...hum...por isso, aceitaria ser a minha acompanhante?

- Será uma grande honra. - digo fazendo uma pequena vénia para ele não ver que estou a corar - Alteza aceito o seu convite.

- Obrigado.

Sigo o meu caminho sem olhar para trás como se nada tivesse passado, mas ao mesmo tempo com milhares de pensamentos confusos na minha cabeça.

 

**************************

 

O salão da princesa, que é um espaço dedicado á futura princesa de Eran, mas que para já são as candidatas da seleção que o ocupam quando têm tempo livre, está cheio de animação, o dia do baile chegou rapidamente, todas as selecionadas estão bastante animadas com o acontecimento, porque é um baile aberto a várias familias importantes do reino, além disso vai passar em directo na televisão, e quem sabe, caso não fiquem com o principe, consigam arranjar um futuro marido, ou pelo menos sondar os melhores partidos. Eu estou apenas nervosa, depois daquele pedido, não voltei a ver o principe Peter, e ainda tenho a cabeça presa naquele momento entre nós.

-Hoje não estás mesmo aqui pois não?! - Violet surgiu de forma repentina no cadeirão ao meu lado -Aliás de há uns dias para cá que tens estado muito ausente.

-Não é nada de especial, só saudades de casa. - tento mudar de assunto - Sempre conseguiste acabar o vestido?

- Claro que sim. - mas ela olha para mim desconfiada - Mas porque é que andas tão preocupada com o vestido? Andas constantemente a perguntar por ele.

- Por nada de especial - tento fazer de conta que não é nada de mais - Só que, como vou acompanhar o principe Peter na abertura do baile, o vestido tem de estar á altura da ocasião.

- O quê? - ela fica de olhos arregalados - Ele convidou-te? E não me dizias nada?

-Posso experimenta-lo já... - digo ansiosa - Caso haja algum ajuste a fazer ainda vamos a tempo...

-Espera, espera...qual é a pressa? - ela está ainda mais desconfiada- O que se passa Lucy? Até parece que queres agradar alguém.

- Não tem mal nenhum se de vez em quando uma pessoa queira dar nas vistas. - digo tentando parecer normal - É uma coisa normal.

- Mas não no teu caso. - ela coloca a mão no meu ombro num gesto de preocupação - Lucy, o que é que estás a esconder?

-Nada, mas pensa comigo, se eu vou abrir o baile com o príncipe, eu tenho de estar no meu melhor, toda a gente em Eran vai ver. - faço figas mentalmente para que ela acredite no que estou a dizer - por isso é fundamental que o vestido seja no mínimo deslumbrante, e tem de estar perfeito, nada pode sair do lugar.

-É, tens razão. -ela coloca a mão no queixo pensativa - Realmente, agora que falas nisso, e sabendo agora que vais entrar com o príncipe, o caso muda de figura, vou ter que fazer umas alterações no vestido, nada de especial, mas que lhe vai dar outro aspecto. Vou já tratar disso, até porque já não tenho muitas horas para fazer essas alterações.

Ela põe-se de pé num pulo e desaparece rapidamente da minha vista, suspiro aliviada, para já consegui distrair a sua atenção, temia que ela fosse fazer demasiadas perguntas, se nem eu própria sei as respostas.

 Hethel, uma rapariga loira e com bastantes sardas no rosto senta no cadeirão onde esteve à pouco Violet, ela sorri timidamente para mim, não a conheço muito bem mas parece ser bastante simpática:

- Violet é uma rapariga engraçada, mas por vezes fica demasiado obcecada nos vestidos. - ela olha para mim com compreensão - Não nota as pessoas á sua volta, nem mesmo quando uma amiga está a ficar apaixonada. 

- Não..eu nunca... - olho para ela atrapalhada - Eu não estou apaixonada por ninguém.

- Não te preocupes que eu não conto a ninguém. - ela coloca as suas mãos nas minhas num gesto de conforto - Se um dia quiseres falar sobre isso, tens uma confidente á tua disposição, sei que não nos conhecemos muito bem, e que isto é uma espécie de competição, mas isso não significa que não possamos fazer amizades com as restantes selecionadas.

Sorrio de volta, e agradeço a sua gentileza, ela levanta-se pouco depois, e vai ter com um grupo de raparigas que está a jogar ás cartas, fico a pensar nas suas palavras, e lamento pelo facto de não me abrir tanto com as outras candidatas, provavelmente poderia encontrar outras raparigas como a Hethel, mas nunca é tarde para começar, e por isso também eu me dirijo para o grupo que está a jogar ás cartas.

 

Dom | 12.08.18

Quando uma "micro-coisinha" acaba por estragar o teu o dia

Elisabete Pereira

Há situações no dia a dia que acabam por tirar o nosso bom humor, ás vezes são bem pequenas, tão pequenas que nem deviam ter importância, mas têm, aliás ganham contornos épicos de chatice, no meu caso foi uma pequena peça de plástico que tramou o meu dia, nomeadamente da caneta que uso para desenhar no tablet, é um genero de disco que fica na ponta da caneta e permite desenhar, e sem isso não há nada para ninguém, e num pequeno incidente caiu, para nunca mais voltar, ainda estive um bom tempo de rabo para o ar a procura da dita, mas eclipsou-se.

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Eu tenho outra caneta de um modelo diferente, mas da mesma marca, mas para mim não é tão boa como esta, pois esta permitia fazer um desenho mais preciso e a outra não, esta é mais simples, mas consigo de certa forma controlar melhor o traço. Claro que posso resolver a situação rapidamente, e encomendar no site da marca para arranjar uma peça igual para a substituir, mas iria custar com os portes de envio incluidos, mais de 30 euros ( e sinceramente não vale a pena até porque tenho outra caneta). Mas chateia porque já estava habituada á caneta, e esta para mim é mais dificil, logo a começar a caneta que uso agora é eletrónica e a outra não, e o traço aparece ás ondinhas na app que eu uso para desenhar, e por isso tenho que ter mais cuidado a desenhar, e por vezes o desenho não sai como queria.

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Até me ambientar á nova caneta, lá vou treinando uns desenhos mais ou menos tortos, no meu tablet (fixe era uma das grandes marcas facultar-me um daqueles tablets xpto com canetas próprias para desenhos, mas como não sou nenhuma "influencer" bem posso tirar o cavalinho da chuva, e amanhar-me com o que tenho, o que já não é mau ,mas como sonhar ainda é de graça, lá vou sonhando com o dia em que uma simples peça de plástico não me estrague o resto do dia

 

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Seg | 06.08.18

Finalmente...a praia e o mar

Elisabete Pereira

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Já passou mais de um ano desde a última vez que fui á praia, foi algures em Junho do ano passado, quando tive uma semana de férias, que acabou por coincidir com uns dias que o meu pai ficou em casa, terei ido cerca de duas vezes, e depois o meu trabalho e mais tarde um acidente de trabalho que o meu pai teve, acabaram por me afastar das idas da praia. E eu que gosto muito de

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praia desde que me conheço (tirando a temperatura glacial da água do mar), também gosto de ir na companhia dos meus pais, nunca fui aquela pessoa que ia á praia com um grupo de amigos, ou sozinha, sempre fui com os meus pais, e nunca tive vergonha deles, sei que não é muito comum, mas a verdade é que para mim sempre me pareceu algo natural, sou um ser algo esquisito eu sei.

E este ano, com o tempinho que temos tido, até quase ao inicio de Agosto, e sempre que era o meu dia de folga, nunca estava bom tempo para ir á praia, e eu a pensar que ia passar o restante do verão sem pôr os meus pezinhos na areia, por um incrível cruzamento cósmico, estes dias, finalmente fui á praia, foi só uma manhã mas soube-me pela vida. 

Eu sei que há as praias fluviais e piscinas fantásticas, mas para mim não é a mesma coisa, eu tenho que sentir a areia a arranhar os pés, o cheiro da maresia, ver as ondas do mar, etc. Acredito que me dá forças para enfrentar mais um ano ou é só uma cena esquisita minha. De qualquer das formas, foi muito bom para mim poder ter ido lá, só que toda a bela tem o seu senão...e como numa espécie de ironia do destino, a água estava cheia de algas, o que não é muito comum nessa praia, aquilo estava uma espécie de caldo verde, (quando cheguei a casa e tomei banho, encontrei algas inclusive em sitios "onde o sol não brilha" ) só faltava as rodelas de chouriço, e estava pronto a servir...mentira, que ninguém come sopa gelada...tirando o gaspacho...

Eu vou a esta praia em especial, desde os meus nove anos, e a partir daí ficou a praia de eleição da família, todos os anos estamos lá batidos, é uma praia que não tem muito comércio á volta, tirando o hotel que está praticamente ao lado da praia, e uma ou outra loja (ok também tem uma discoteca conhecida que fica próxima da praia) é daqueles lugares que ainda consegue ter algum sossego, não te sentes sem lugar para pôr a toalha (tirando os tipos de pessoa que gostam de se colar a ti o mais possível, mesmo tendo imenso espaço em toda a praia só para eles). Lembro de durante anos, ver uma placa á entrada que dizia o seguinte "praia com ar condicionado" (sempre achei imensa piada á placa, é de um grande sentido de humor) . Entretanto essa placa desapareceu, e este ano vi na praia, espetada na areia uma placa a dizer:

"Keep Calm 

Praia com ar condicionado

Hoje não está Nortada!"

(Podem ver a tal placa na primeira foto do post).

Neste momento cruzo os dedos para poder pelo menos ir mais uma vez á praia este ano, é que sabe sempre a pouco, se bem que hoje o tempo trocou-me as voltas, talvez consiga na próxima semana, mas até lá, digo para mim mesma, Keep calm...

Sab | 04.08.18

Rabiscando no tablet 15#

Elisabete Pereira

Desta vez são menos desenhos, e assim aproveito para anunciar que vou dar uma pequena pausa nos desenhos, em princípio retomo em Setembro, não por ir de Férias (infelizmente ainda nem sei quando vou) mas por ser uma época de muito trabalho na minha área, e por isso não me consigo de momento me comprometer com a quantidade de desenhos que eu gostaria

Por isso...enjoy!!

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Sex | 03.08.18

Apesar de tudo, és mais forte do que eles

Elisabete Pereira

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Há um tempo em Espanha, todas as mulheres se uniram por um caso de violação que deu muito que falar devido á injustiça da maneira como foi tratado nos tribunais, que alegavam que foi um caso não de violação mas de abuso as suas repercussões foram além fronteiras, e as várias ashtags criadas na altura (entre elas #Nonesabusoesviolation) e estas correram o mundo ,mas apesar de tudo isso, o desfecho final, não foi dos mais felizes, e o grupo conhecido como "La manada" foi libertado por "terem perdido o anonimato e por viverem a mais de 500 km da vítima " e portanto, sendo assim tudo bem não é? Nem há o perigo deste bando atacar outras mulheres nem nada.... (pausa para tentar entender o ridiculo da sentença final...hum...não...peço desculpa, mas não consigo entender...)

Culpabilizo-me um pouco, por só agora falar disto, quando a sentença final foi há mais de um mês, e isto é daquelas coisas que nunca deve ser esquecida, porque nós as mulheres ainda carregamos (somos vistas) mesmo inconscientemente, de que a culpa de alguma maneira, é sempre nossa, de que os homens coitados, sucumbem aos nossos encantos (pausa para eu fazer um gesto de revirar os olhos) de que é quase impossível fazer frente. Isto é terrível nos dias de hoje, e é para mim uma questão de união feminina, porque todas nós sem excepção estamos sujeitas a isto, ou acham que algumas decisões em tribunal mesmo cá em Portugal são tomadas a partir do quê? (Lembram-se de casos de juízes darem veredictos de violência doméstica em que culpabilizam as mulheres, e até mesmo de que um estalo numa mulher não faz mal nenhum, sim isto infelizmente ainda existe em pleno sec XXI)  Mas não é disso que quero escrever aqui, até porque já muita coisa foi escrita sobre o assunto, mas sim, da forma como esta jovem em questão reagiu a tudo isto.

Abaixo ficam várias citações de uma carta que esta jovem corajosa e forte decidiu enviar para um canal de televisão espanhol, e que acima de tudo revelam alguém que apesar do que se passou não se escondeu no papel de vitima, muito pelo contrário, ela levantou a sua voz para que outros não passem pelo mesmo.

 

"Suponho que vão pensar que esta carta é para contar a minha versão e a minha experiência, mas não é. Esta carta é de agradecimento. Mãe, pai, obrigada não só pelo apoio mas por arranjarem forças onde não as tinham e terem-nas dado a mim. Obrigada por tudo o que me ensinaram e por tudo o que me vão ensinar, mas sobretudo por não me abandonarem, e por não se abandonarem um ao outro", começou por escrever a jovem, que agradeceu ainda a mais familiares e amigos pelo apoio.

"Quero agradecer a toda a gente que sem me conhecer tomou Espanha e me deu voz quando muitos a tentaram tirar. Obrigada por não me deixarem sozinha. Por acreditarem em mim, irmãs. Obrigada por tudo, de coração", continuou por dizer.

"Obrigada a todos os que falaram de mim um segundo para repudiar o que aconteceu. Associações, pessoas na rua, personalidades politicas, famosos, jornalistas que me respeitaram e, em geral, a todos os que se preocuparam comigo. Obrigada por me fazerem sentir outra vez parte da sociedade em que parece que se te violam tens que levar um cartaz de violada pendurado ao pescoço"

 

"Obrigada por lutarem, gritarem, chorarem e apoiarem esta causa. Por último, e para mim o mais importante: denunciem. Ninguém tem que passar por isto. Ninguém tem que se arrepender de beber, de falar com pessoas numa festa, de ir sozinha para casa ou de usar uma mini-saia. Temos que nos lamentar todos da mentalidade que tem esta sociedade onde isto pode acontecer a qualquer pessoa. Garanto-vos. Tenham cuidado com o que dizem, não sabem quantas vezes ouvi falar da ‘rapariga de San Fermín’ sem saber se essa rapariga estava sentada ao seu lado. Seguramente, não sou a ‘rapariga de San Fermín’. Sou a filha, neta, amiga e talvez, esse ‘de’ são alguns de vocês, assim que por favor pensem antes de falar"

"Da mesma forma que estamos mentalizados e não gozamos com uma doença, não podemos gozar com uma violação. É indecente e está nas nossas mãos mudá-lo. Por favor, só vos peço que por muito que achem que não vão acreditar em vocês, denunciem"

"Para todas as mulheres, homens, raparigas, rapazes, que estão a passar por algo parecido: pode-se sair. Vão pensar que não têm forças para lutar, mas vai surpreender-vos a força que têm os seres humanos. Contem a um amigo, a um familiar, à polícia, num tweet, façam-no como quiserem, mas contem. Não fiquem calados, porque se o fizerem, estão a deixá-los ganhar".

 

E ela tem razão, denunciem, não fiquem calados. Mesmo numa situação tão delicada, ela demonstrou que apesar de tudo, é mais forte do que eles...

 

(Parte da fonte da pesquisa da informação foi retirado do site do Diário de Notícias e do Correio da Manhã)