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Conto " O meu nome é Belle" (parte 3-final)

por Elisabete Pereira, em 14.10.18

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As minhas mãos já não são suaves e macias de quando era jovem, já não conseguem tirar melodias das teclas do piano que Jean gostava tanto de ouvir, sentado na sua poltrona favorita da sala, mas Jean já partiu faz tempo, a sala e a casa ficaram mais vazias, o piano está no canto tapado com um lençol, ponderei bem e finalmente cheguei á conclusão de que a casa era grande demais para mim, decidi mudar-me para uma casa mais pequena que fica numa aldeia nos arredores de Paris, pensei que fosse ficar triste por deixar a casa onde vivi tantos anos, mas não, na verdade sinto um certo alívio.A minha neta Belle veio buscar-me, oiço o som dos pneus do carro na gravilha da entrada da propriedade, vou viver com ela na sua casa, infelizmente o Inverno da vida fez com que eu tivesse a necessidade de ajuda de terceiros em algumas tarefas do quotidiano, mas não me queixo, faz parte do ciclo da vida. Belle rapidamente chega á sala onde me encontro:

- Avó estás pronta? - pergunta depois de me dar dois beijos - As tuas malas são só aquelas três que estão á entrada?

- São sim, não quero levar muita tralha, só o essencial.

- Tenho pena que vás vender a casa. - ela olha em volta - Esta mansão é espetacular.

- Talvez, mas é demasiado grande e perigosa para uma velhota como eu, é uma casa mais indicada para uma familia jovem.

- Bem se não te importas vou só dar uma última volta na casa - Belle deixou-me sozinha na sala enquanto eu me decidi em sentar no sofá, já sei que ela ainda se vai demorar, sempre foi assim, mesmo em criança, ela chamava esta casa de o seu castelo encantado.

Ao fim de quase 30 minutos ela volta á sala com algo nas mãos, noto que é a caixinha com o medalhão que deixei na mesa da cómoda.

- Avó, ias-te esquecendo disto! - ela entrega-me a caixa- Ainda bem que fui ver.

-Não, não me esqueci -volto a entregar-lhe a caixa- isso é para ficar aqui.

-Quê!? - ela esbugalhou os olhos de espanto - como assim?! Tu sempre usaste este medalhão...

-Há uma história que tenho de te contar Belle. - respiro fundo e indico-lhe para se sentar ao meu lado no sofá - Eu vivi maior parte da minha vida numa mentira, e tem tudo a ver com esse medalhão... O meu nome de nascimento não é Elise Tuvier, o meu nome é Belle, nasci no Outono de 1930, a minha mãe biológica era uma cantora lírica que era amante de um homem poderoso, ela engravidou de propósito para prender esse homem a ela, mas isso não resultou, ele abandonou-a grávida, quando nasci, ela estava sozinha e sem dinheiro, acabou por mendigar nas ruas de Paris, vivemos com muitas dificuldades, um dia, quando tinha 8 anos, a minha mãe abandonou-me e fugiu com um homem que lhe prometeu muito dinheiro. De repente fiquei sozinha, e acabei por me juntar a um grupo de miudos de rua, roubava-mos para sobreviver, entretanto a guerra começou e a nossa vida piorou bastante, eu tinha 10 anos quando os Nazis chegaram a Paris, a cidade vivia tempos difíceis, era comum vermos pessoas a serem levadas pelos militares, o medo tomou conta de toda a gente, muitos fugiram da cidade, Paris parecia uma cidade fantasma na época. Meses depois vi um cenário terrível que iria mudar a minha vida,era de noite, e numa das ruas em que eu fazia a minha rotina de roubos vi um grupo de militares nazis forçarem um homem adulto uma criança da minha idade a entrarem num automóvel , percebi que eram pai e filha e que deviam ser ricos devido á roupa que vestiam, o pai implorava para não levarem a filha, mas o oficial insultou-o chamando-o de "porco judeu", e empurrou-o de forma brusca para dentro do automóvel,  a filha aproveitou e tentou fugir, mas foi rapidamente apanhada, no meio da confusão vi uma coisa dourada cair do pescoço dela, quando o automóvel desapareceu, fui ver o que tinha caido do pescoço dela, e foi quando encontrei o medalhão, pensei que me tinha saido a sorte grande, era uma raridade por aqueles dias ver um objecto valioso, guardei o medalhão á volta do meu pescoço para o vender mais tarde. Mas a verdade é que nunca o vendi, ganhei apego a esse objecto e pouco depois desse episódio encontrei alguém que decidiu levar-me para um orfanato, a minha vida melhorou um pouco, tinha comida e um tecto, o que já era bom para mim. Entretanto a guerra terminou, as coisas pareciam encaminhar-se quando um incêndio deflagrou no orfanato, eu tentei fugir mas fiquei intoxicada pelo fumo e desmaiei, só acordei mais tarde já no hospital, o meu corpo sofreu queimaduras graves, passei por dores horriveis. O restante da história já conheces, fui reconhecida numa fotografia de jornal por causa do medalhão, Corinne veio buscar-me ao hospital e vim para aqui, eu não tinha qualquer memória nos primeiros tempos, só mais tarde fui recordando do meu passado, nessa altura conheci o teu avô, ele era sobrinho do medico que me tratava as queimaduras, ele tinha mais 8 anos do que eu, era um jovem advogado brilhante, em pouco tempo ele quis casar comigo, só que eu não podia aceitar, eu sentia-me uma fraude, então ele prometeu ajudar-me a encontrar a verdadeira Elise, infelizmente mais tarde ele contou-me que descobriu que ela tinha falecido, fiquei de rastos, ele disse-me que eu deveria continuar como Elise e naquele momento ele pediu-me em casamento, eu estava hesitante, mas aceitei o pedido...

Paro um momento para recuperar o fôlego, foi muito tempo com tudo guardado dentro de mim, olho discretamente para a minha neta, ela tem os olhos marejados de lágrimas as suas mãos estão entrelaçadas diante do rosto, ela não diz nada, sinto isso como deixa para eu continuar o meu discurso:

- Como eu tinha dito, eu aceitei o pedido do teu avô, contudo colquei uma condição, queria casar, mas mais tarde, achei que ainda era um pouco nova, além disso eu queria estudar, por isso só me casei aos 20 anos. No dia do casamento contudo, tive uma surpresa desagradável, a minha mãe biológica apareceu para me extorquir, não sei como, mas ela descobriu onde eu estava, e ameaçou de que contaria quem eu era de verdade caso eu não lhe desse dinheiro, felizmente consegui fazer com que ela fosse embora dando-lhe algumas das minhas joias que valiam bastante do meu dinheiro. Eu vivi os melhores anos da minha vida ao lado do teu avô, mas havia uma coisa que assombrava o nosso casamento, o teu avô sempre foi um péssimo mentiroso, e eu soube que ele mentiu sobre a morte de Elise, e eu decidi acreditar na mentira dele ao longo do tempo que estivemos casados, eu sabia que ele só fez isso para me proteger, e por causa disso, eu aceitei colocar uma pedra nisso. Quando o teu avô morreu, decidi começar uma busca por mim mesma pelo paradeiro de Elise Tuvier, contratei um detective que descobriu que ela realmente esteve num campo de concentração, mas sobreviveu, pouco depois da libertação do campo onde ela estava, foi adoptada por um soldado Americano, e foi com ele para os Estados Unidos, mas a partir daí não havia mais rasto, o detective disse que provavelmente ela teria mudado de nome, e assim seria quase impossível descobrir o seu paradeiro. Mas não desisti, sabes Belle, as redes sociais por vezes conseguem surpreender pela positiva, coloquei na rede social em que participo que eu estava á procura de uma amiga que não via desde o fim da guerra, e que a última coisa que sabia dela é que tinha sido adoptada por um soldado Americano e que tinha ido com ele para os Estados Unidos, quase dois meses depois, e já quase perdendo a esperança, recebi a resposta da própria filha de Elise Tuvier, ela contou-me que a mãe havia mudado o nome para Elizabeth Sommers, o sobrenome era o da família do soldado que a adoptou, ela estudou, foi para a universidade, e formou-se como professora, mais tarde casou e teve uma filha, a sua vida seguiu normalmente até á sua reforma, quando pouco depois soube que tinha cancro, durante anos ela lutou contra a doença, mas no fim não resitiu, faleceu á quase 8 anos. Aquilo deixou-me muito triste, senti que de alguma forma não cheguei a tempo de a compensar, então perguntei á filha sobre a sua vida, ela contou-me que era mãe solteira de dois rapazes adolescentes, e que o filho mais velho no próximo ano queria ir para uma Universidade que ficava longe de casa e a mãe não tinha possibilidade de lhe sustentar os estudos, ofereci-me para pagar os estudos dos filhos dela, mas ela ficou desconfiada, eu disse para ela não se preocupar, eu fazia isso porque eu tinha uma divida de gratidão para com a mãe dela, e que para mim o dinheiro não era problema, ela ficou muito grata, e a verdade, é que a partir daí começamos a conversar com mais frequência...

- Avó? - Belle encarou-me, já não chorava, mas os seus olhos ainda estavam brilhantes - Vamos fazer um acordo?

- Um acordo? -perguntei atónita - Como assim?

- Vamos fazer de conta que nunca me contaste isso .- ela pegou na minha mão carinhosamente- Essa informação seria terrível demais caso o resto da nossa familia descobrisse isso, além disso, já fizeste a tua penitência, não precisas que ninguém te recrimine nesta altura da tua vida. Acho que está na hora de irmos embora certo?

-Certo. - sorrio para ela quando ela me ajuda a levantar do sofá - Vamos embora.

Rapidamente a minha neta se apressa para descer as escadas e pôr as minhas malas no carro, eu pego na minha bengala e dirijo-me para a porta, mas antes volto atrás, pego na caixa do medalhão e coloco-a em cima do piano, o seu lugar é aqui, no passado.

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publicado às 16:50


Rabiscando no tablet 18#

por Elisabete Pereira, em 12.10.18

Ora acabadinhos de chegar, mais uma fornada de desenhos.

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 Por hoje é tudo, até ao próximo rabiscando no tablet.

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publicado às 16:12


Conto " O meu nome é Belle" (parte 2)

por Elisabete Pereira, em 09.10.18

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Termino a sobremesa o mais rapidamente possível, mas sem levantar desconfiança, ainda não me sinto preparada para lhe contar a verdade.

- Mdme Tuvier, o menino Jean Duville está lá fora - a criada chega mais próximo da minha mãe e diz - Ele pede desculpa por interromper o jantar, mas ele precisa de falar com Elise.

Dou um pulo na cadeira de sobressalto, a minha "mãe" sorri perante a minha atitude, provavelmente há-de pensar que é por outro motivo.

- Ele que entre, não precisa de fazer cerimónia, já é praticamente da familia - ela dá uma breve piscadela de olho para mim - Susette, depois de o mandar entrar, vá á cozinha e traga mais um prato de sobremesa.

- Sim senhora. - a criada faz uma pequena vénia e sai.

- Mãe, acho que não é necessário... - ensaio uma resposta, mas sou interrompida por ela.

- Elise, vocês têm permissão para namorar sem terem ninguém a vigiar, só peço que em troca eu possa desfrutar de alguns momentos em familia, sempre me faz lembrar um pouco do tempo antes da guerra onde esta mesa estava cheia...

O seu olhar parou no lugar vazio onde costumava estar o meu "pai", infelizmente não tenho tempo de reivindicar, porque Jean acaba de entrar, ele vai até á minha mãe e beija-lhe a mão.

- Como vai Mdme Tuvier? - cumprimenta ele - Peço desculpa por interromper o seu jantar.

- Não tem que pedir desculpa -a minha mãe aponta para uma cadeira ao seu lado - Aliás tomei a liberdade de pedir para lhe trazerem uma sobremesa, a Josephine é uma cozinheira incrível e hoje fez uma sobremesa nova.

Jean lança-me um breve olhar, mas acaba por se sentar, durante longos minutos a minha mãe praticamente bombardeou-o com perguntas sobre o nosso casamento, ainda nem éramos noivos e ela já falava sobre convites de casamento, a escolha do local do copo de água etc.

- Claro que faço questão que façam a festa de casamento aqui, o jardim é grande o suficiente para albergar 500 convidados pelo menos...

- Quinhentos? Não é um pouco exagerado? - pergunto - Acho que não há necessidade de tanta gente.

- Disparate!- diz a minha mãe com um aceno de mão - É obvio que terá de ser um grande acontecimento, até para nos ajudar um pouco a esquecer a guerra, além de que a nossa família é muito conhecida...

- Eu entendo que esteja entusiasmada - digo quando vejo que Jean terminou a sobremesa dele- mas ainda nem estamos noivos, temos muito tempo para discutir isso mais tarde, imagino que Jean tenha vindo por outros motivos e que se esteja a aborrecer com esses assuntos.

- Não há problema - responde Jean com um sorriso - mas a verdade é que não domino esse tipo de assuntos, mas a Mdme de Tuvier pode ficar descansada, terá carta branca na organização do nosso casamento, assim que o pedido oficial for feito claro.

-Fico muito contente por isso - respondeu a minha mãe batendo palmas de contentamento  - Quer dizer então que o pedido será para breve?

- Tudo depende da Elise, por mim já teriamos casado. - ele levanta-se e estende-me o braço - Se me der licença, vou roubar por momentos a sua filha.

- Claro, estejam á vontade - a minha mãe parecia nostalgica quando olhou para nós - aproveitem bem o tempo, porque ele passa muito rápido.

Deixamos a sala e fomos em direcção á estufa de vidro, lá soltei o braço de Jean e sentei num banco próximo, observando a lua lá fora, por momentos fico sem reacção, apenas observo a lua.

- Não devias colocar essas coisas na cabeça da minha mãe. - digo sem olhar para ele - Era o que tinhamos acordado, a farsa está a ir longe demais.

- Que farsa Belle? - Jean parecia zangado - Sabes que os meus sentimentos são verdadeiros!

- Mas eu não sou verdadeira, não sou Elise - aponto para mim e para a minha volta - eu não sou verdadeira, isto não me pertence, não aguento continuar a engana-la.

De repente começo a chorar aos prantos, mas Jean ajoelha-se e segura as minhas mãos.

- Belle, o meu motivo para ter vindo hoje para cá , é porque tenho novidades, encontrei o paradeiro da verdadeira Elise Tuvier.

- Onde ela está? - digo contendo um soluço - Finalmente isto pode tudo acabar.

- Está morta. - Jean olha para mim de forma estranha, ficou tenso de repente - Morreu num campo de concentração pouco antes da guerra acabar.

- Não! - grito e de imediato retiro as minhas mãos das dele - Pensei que finalmente estaria livre.... e agora...

- Agora tens de seguir em frente Belle, imagina que contavas agora a Mdme Tuvier que a verdadeira filha estava morta, ela não ia aguentar, tu viste como ela estava feliz pelo nosso futuro casamento.

- Tu queres que eu minta? - pergunto surpreendida olhando-o como se nunca o tivesse visto de verdade- Queres que eu a engane para o resto da vida?

- Eu quero que dês a felicidade a uma mulher sofrida Belle. - ele sorri ao se aproximar de mim, e retira do bolso uma pequena caixinha escura, que ele abre e retira um anel de ouro com uma pequena pedra transparente - E a mim também.

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publicado às 16:57


Quando vês o futuro no fundo de um ecoponto do papel

por Elisabete Pereira, em 04.10.18

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Por vezes a vida tem metáforas estranhas, e hoje vi uma delas, e foi assim num momento inesperado, mais precisamente quando fui levar o lixo para os ecopontos, e ia fazendo a separação normalmente, quando noto que no ecoponto do papel, uma pilha de manuais escolares do 5° e 6° ano e praticamente novos, eh pah...aquilo para mim foi desconcertante, os livros tinham um aspecto bem conservado, e até percebo que quem os colocou ali, achasse que já não tinham utilidade, mas não o podia ter levado antes a um banco de livros escolares usados? Existem vários pelo país, é só fazer uma busca na internet que facilmente se encontram, é verdade que agora existem os manuais escolares gratuitos, etc e tal, mas ainda assim...

Eu ainda guardo os meus velhos manuais de escola, tenho um carinho especial por eles, aprendi muita coisa através das suas páginas, se um dia já não os quiser, prefiro oferecer a alguém do que os deitar fora, mesmo que já estejam ultrapassados. Vá lá que pelo menos quem lá os colocou teve o bom senso de ainda assim os pôr para reciclar, pois não duvido que haja quem os fosse colocar no caixote do lixo.

Senti que aquilo era uma metáfora algo estranha, do género "as pessoas nem se preocupam com o futuro, atirando para o lixo a oportunidade de outros poderem usufruirem daquilo que já não tem utilidade para elas."

(Tenho pena de na altura não me ter lembrado de tirar fotografias aos livros que estavam no ecoponto)

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publicado às 08:14


Conto " O meu nome é Belle " (parte 1)

por Elisabete Pereira, em 28.09.18

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Falta pouco mais de uma hora para o comboio chegar á estação de Côte d'Azur, o Verão de 1946 está a ser particularmente quente, e mesmo com a janela aberta o calor teima em não ir embora, a nossa sorte é o nosso compartimento estar praticamente vazio, apenas mais uma pessoa partilha o espaço, uma senhora com os seus 40 anos, algo curvilinea que abana o seu leque de forma elegante, Mdme de Autibes é herdeira de uma fortuna, e não se importa de o demonstrar na sua maneira de vestir algo extravagante, no entanto foi simpatica o bastante para me ter oferecido uma caixa de bombons, ela diz que os chocolates são bem melhores do que amantes, porque só existe a parte do prazer e no fim não pedem dinheiro. Corine fica algo escandalizada com a conversa bastante atrevida da senhora,  mas eu não consigo deixar de sorrir, afinal tenho apenas 16 anos, e o que sei da vida? Eu nem me lembro de quem sou realmente, a minha memoria foi apagada no incêndio do Orfanato onde eu vivi até á bem pouco tempo.

-A senhora não devia ter esse tipo de conversa com uma criança presente aqui!- retorquiu Corine- É de um profundo mau gosto!

-Não estou a ver nenhuma criança aqui. - Mdme de Autibes sorri antes de apontar com o leque para mim - Ela já tem desenvoltura suficiente para ser uma mulher, e saber como as coisas funcionam, provavelmente não demorará muito para casar,  e é importante ir sabendo ao que vai, se a minha mãe o tivesse feito quando eu era mais nova, muito provavelmente nunca me teria casado.

-Como pode dizer isso de forma tão leviana? - Corine olha para ela estarrecida - O casamento é um contrato sagrado!

-Diz isso porque nunca casou obviamente! - responde Mdme de Autibes sem se alterar enquanto acende um cigarro e o coloca na boquilha - Posso lhe afirmar que agora que sou viuva, sou muito mais feliz do que quando era casada, Gastón era um imprestável enquanto foi vivo, quase delapidou a nossa fortuna no jogo e em mulheres, felizmente consegui trava-lo a tempo e dar a volta por cima, e hoje em dia consegui multiplicar a fortuna que tinha.

- Uma mulher deve sempre apoiar o seu marido, independentemente dos seus deslizes. - Corine contra-ataca - É verdade que nunca casei, para me poder dedicar á familia Tuvier, mas não me arrependo da minha escolha, e se tivesse casado era assim que iria proceder, a mulher deve ser sempre o pilar do seu marido, e nunca apontar as suas falhas.

- Os tempos são outros minha cara, a guerra mudou tudo, na época em que casei as mulheres eram obrigadas a casar com o homem que a sua familia escolhia, a sua vontade não era tido em consideração, assim foi comigo também. - ela dá uma pequena baforada na sua boquilha antes de continuar - Eu tive de aguentar muita coisa que não gostava, o divórcio estava fora de questão, o meu pai deserdava-me caso o fizesse, hoje em dia as coisas são mais praticas nesse aspecto, e ainda bem.

-É a sua opinião. - Corine decide voltar ao seu crochet e dar conversa por finalizada - Mas agradecia que não enchesse os ouvidos de Elise com as suas ideias "progressistas".

-Acho que ela é inteligente o suficiente para fazer as suas escolhas - diz madame de Autibes enquanto se levanta e sai do compartimento - Vou dar um passeio por onde as minhas ideias não escandalizem ninguém, se me dão licença...

Ela fecha a porta do compartimento, e quando o seu chapeu verde desaparece de vista, Corine dá um suspiro de impaciência. Ela já tem bastante idade, e imagino que isto lhe faça muita confusão,  mas eu adorei conhecer a Mdme de Autibes, ela é uma mulher muito segura de si mesma. Ajeito a manga do vestido por cima da gase que protege as marcas mais profundas das queimaduras que sofri no incêndio do orfanato, já não doi muito, mas o que custa mais é ter perdido a memória, não ter nada que me agarre ao passado, fui descoberta apenas por causa do medalhão que trago ao pescoço e assim ganhei uma identidade, sou Elise Tuvier, mas o nome soa muito estranho para mim. Corine nota o meu desconforto:

- Está tudo bem Elise? - Corine larga o crochet e olha para mim - As queimaduras estão a doer muito?

-Não mais do que o habitual. - respondo enquanto largo a manga do vestido - mas a gaze é um pouco desconfortável com este calor.

-Realmente está muito calor - ela retoma o crochet - mas a menina tem de usar a gaze até melhorar totalmente, além disso a pior parte já passou.

-Sim é verdade. - estremeço quando me lembro de quando acordei no hospital e as dores horriveis que tive de suportar - Há coisas muito piores.

- Como essa Mdme de Autibes! - Corine fala de maneira azeda - Onde já se viu uma mulher falar daquela maneira?!

 -Eu gostei dela. - digo encolhendo os ombros - é no minimo uma pessoa original.

- Original? É uma fresca, isso sim - ela olha para mim seriamente  - A menina não ligue aos disparates dela, por amor de Deus, essa mulher não tem juizo nenhum.

Sorrio em resposta, pelo menos serviu para me distrair dos meus pensamentos, sei que a minha mãe está á minha espera na estação, é terrivel não ter uma memória que seja dela, para mim é um fantasma sem rosto, tenho a esperança de que ao vê-la as minhas memórias possam começar a voltar, mas de momento a minha vida é um ponto de interrogação .

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publicado às 17:18


Conto "A metamorfose da água"

por Elisabete Pereira, em 27.09.18

Há umas quantas luas, participei de um concurso literário, e como não ganhei, pensei em colocar o conto no blogue, e assim o fiz.

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A metamorfose da água


Quando me olho ao espelho vejo aquilo que os outros não vêm, a Alice que aparece no reflexo do espelho esconde um segredo. Até aos 12 anos eu tive uma vida miserável, vivia com a minha mãe, uma mulher abusiva e instável que me usava como meio de sustento. Andava-mos de terra em terra como nómadas, onde eu era obrigada a pedir dinheiro ou a roubar, dormia-mos em lugares abandonados. Numa noite igual a tantas outras vi a viajar pelo céu, uma estrela tão brilhante que quase parecia o sol. Quando a vi cair sob o lago à frente da cabana onde estávamos, esgueirei-me porta fora, era quase fim do inverno e a neve e o gelo tomavam conta da paisagem, eu estava descalça mas mesmo assim segui caminho pela paisagem nevada até chegar ao lago, aproximei-me da margem, e verifiquei se estava gelado o suficiente até conseguir alcançar a estrela, escorreguei várias vezes até chegar ao centro do lago onde ela se encontrava. A estrela parecia pulsar com maior vigor, o seu brilho era quase hipnótico, mas quando estiquei o braço para lhe tocar, oiço um ruído por baixo de mim, o gelo começou a estalar e rapidamente caí dentro do lago. A água ia preenchendo os meus pulmões e o meu corpo, era como se quisesse fazer parte de cada célula de mim mesma, eu debati-me, mas era em vão, naquele momento eu sabia que ia morrer, a última coisa que me lembro foi de ver a estrela a aproximar-se de mim como se me fosse abraçar no meu último suspiro, eu não ia morrer sozinha, aquela luz quente iria ficar comigo, até que de repente tudo ficou escuro.
Fui resgatada do lago horas depois, por um grupo de caçadores que andava por aquela zona, inicialmente achavam que eu estava morta, foi praticamente um milagre ter sobrevivido. Levaram-me para o hospital local para fazer exames e para recuperar do sucedido, mas a minha mãe com receio da minha exposição nos jornais, e que isso chamasse atenções indesejáveis, achou melhor levar-me do hospital onde eu estava internada, e novamente regressamos aos velhos hábitos.
Até que conheci Eric, era filho dos donos de um supermercado dos arredores de onde vivíamos, era mais velho do que eu, foi o meu primeiro amor, sempre que podia, entregava-me sacos com comida ás escondidas dos pais. Nessa mesma altura, apercebi-me de que algo começava a nascer dentro de mim, inicialmente era uma espécie de ansiedade que eu sentia no peito, depois foi-se espalhando pelo meu corpo, como algo que borbulhava quase á superfície da minha pele, até que um dia percebi que conseguia controlar a água devido a um pequeno incidente, mas depois desse episódio, comecei controlar a técnica. Infelizmente um dia a minha mãe descobriu a minha habilidade e trancou-me em casa. Pouco depois, Eric soube o que a minha mãe me fez, e ajudou-me a fugir, mas ela apercebeu-se e alertou a policia da minha fuga, dizendo que eu tinha sido raptada por Eric, a policia da região andou á nossa procura, e em pouco tempo ficamos encurralados por um rio, nem eu nem Eric sabíamos nadar, não tínhamos fuga possível, então usei os meus poderes como último recurso, utilizei água do rio como parede de proteção entre nós e a policia, mas eu ainda não controlava bem a água, e infelizmente no meio da confusão, Eric foi inadevertidamente atingido pela parede de água e morreu afogado. Tentei reanima-lo mas era demasiado tarde, doeu demais saber que a única pessoa que me amava, havia morrido por minha culpa, além disso, iria ser presa e perder a pouca liberdade que tinha, até que eles apareceram. Duas pessoas, um homem e uma mulher, com um uniforme que eu desconhecia aproximaram-se de mim, eu tentei fugir deles, pensava que poderiam ser de algum hospício, e que me iriam levar para lá, mas asseguraram-me que não.
Mas eu tinha medo e não sabia quem eram, no entanto a mulher disse que vinham da parte de uma organização que apoiava pessoas como eu, e que a partir dali, se eu fosse com eles, não teria mais contacto com a minha mãe, ainda assim eu não podia deixar o corpo de Eric. Eles disseram que não havia mais nada que pudesse fazer por ele, mas ainda assim, eu não me sentia preparada para ir com eles, era muita coisa para processar naquele momento, lembro-me de olhar para os dois, de forma a tentar descobrir se existia algum indicio de que me estariam a enganar, mas momentos depois acenei afirmativamente, já não tinha mais nada a perder, a mulher sorriu para mim e estendeu-me a mão, instintivamente apertei-a. Segundos depois a paisagem mudou, e percebi que tinha sido teletransportada pela primeira vez na minha vida.

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publicado às 18:25


Rabiscando no tablet 17#

por Elisabete Pereira, em 22.09.18

Bora lá a mais um grupo de desenhos novos.

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 Por hoje é tudo. Mais desenhos virão. 

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publicado às 11:30


A eterna insatisfação de se ser apenas quem se é

por Elisabete Pereira, em 21.09.18

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Se há algo de que tenho bastante orgulho é de as minhas raízes serem do mesmo concelho de António Variações(e do chefe Silva também, mas isso são outros quinhentos). Para mim é uma referência de alguém que superou muita coisa e que ainda hoje em dia, apesar de ter falecido á cerca de 34 anos, continua a ser lembrado, a sua música é de uma originalidade tal, que mesmo nos dias de hoje não há quem imite o género, há quem diga que ele era uma pessoa á frente do seu tempo e que mesmo agora continuaria a estar á frente do seu tempo, infelizmente o seu brilho durou pouco, mas mesmo assim deixou marcas na música portuguesa.

Eu ainda era muito nova quando comecei a ouvir as músicas dele através dos discos de vinil que o meu pai colocava na aparelhagem com gira discos (que é bem mais velha do que eu, e que ainda hoje funciona), lembro de o meu pai de dizer com orgulho de que ele era natural de Amares, mais precisamente da freguesia de Fiscal e facilmente percebi o porquê desse orgulho, afinal, o concelho onde vivo fica no interior do minho, imaginem como eram as coisas há uns 30-40 anos, nao havia o desenvolvimento que há hoje, claro que sei que António Variações emigrou para Amesterdão bem antes de ter alcançado o estrelato, até porque a vida por estas bandas era muito dura (o meu pai também acabou por sair daqui, com 14 anos aventurou-se na cidade do Porto), penso que o meu pai chegou a conhecer alguns dos familiares dele, na altura em que fazia o trajecto Porto-Amares durante as férias na sua famel zundapp em que praticamente percorria as festas e romarias do concelho nos finais dos anos 70 e inicios dos 80. Este texto vem a propósito de eu ter lido algures que o filme sobre a vida de António Variações estaria a ser rodado, e até me lembro de ter visto na rua alguns folhetos colados em postes para quem estivesse interessado em fazer figuração no filme ( secretamente disse uns palavrões para mim mesma por neste momento não estar desempregada, porque eu iria querer participar no filme, mas como estou a trabalhar...ora batatas ), segundo li, o filme deverá estrear lá para 2019, e tem como protagonistas Sergio Praia, Lucia Moniz e Victória Guerra.

Confesso que estou em pulgas para a estreia do filme que acredito que irá a ajudar a conhecer melhor a vida deste ícone da música Portuguesa.

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publicado às 12:40

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Lembro bem de quando entrei na escola primaria há 23 anos, eu ia de mochila vermelha, branca e verde que tinha o logotipo do totobola ás costas, (foi-me oferecida uns tempos antes em conjunto com outros brindes dos jogos da santa casa)dentro da mochila iam várias coisas, o porta lápis herdado do meu irmão mais velho, os livros forrados com esmero pela minha mãe com aquele plástico transparente com figuras da Disney, assim como esses livros iam identificados com etiquetas pela letra redondinha da minha mãe com o meu nome, os cadernos novos, os marcadores carioca (aqueles que só traziam seis cores), os lápis e canetas novos... mas também lá dentro iam a alegria, a aventura pelo desconhecido, a ânsia de fazer novos amigos.

Para mim ir para a escola era uma aventura nova e divertida, ( rapidamente tornei-me uma das melhores alunas da turma ) estava muito feliz em começar algo completamente novo, sempre fui daqueles alunos que quando recebia os livros novos antes das aulas começarem, ficava horas a fio a lê-los (até os de matemática). Foi uma época muito boa, até porque nos primeiros tempos eu não tinha trabalhos para casa e brincava com o meu irmão, que é 5 anos mais velho do que eu, pelo facto de ele ter e eu não...mas daí a pouco saberia o conceito de T.P.C.

Quando me recordo de tudo isso é com nostalgia dos momentos em que tudo era novidade, as coisas eram mais simples, concluindo, era muito feliz mesmo sem ter a noção disso (ok, ainda sou feliz hoje em dia...hum...) mesmo não tendo coisas de marca, foi a época em que fui fazendo novos amigos, aprendi brincadeiras, que comecei a fazer aqueles teatrinhos escolares, etc. Também recordo que na altura, alguns colegas meus faziam um berreiro tal no primeiro dia de aulas, não largavam as mães de jeito nenhum, e eu não percebia o porquê disso, porque eles choravam para ir para a escola, hoje percebo perfeitamente, mas na altura achava que eram um bocado parvos.

A verdade é que partir daí, começou um novo capítulo da minha história, uma história que ainda hoje estou a escrever e em que novos capítulos são adicionados, mas sem dúvida de que para mim, este é um dos capítulos mais especiais.

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publicado às 17:07


"O cliente tem sempre razão"... Hum, nem sempre

por Elisabete Pereira, em 15.09.18

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Tem alturas em que uma pessoa pensa que não devia ter saído da cama, e foi o que eu pensei por estes dias, estava perto da hora de ir embora e ir finalmente de folga, quando surge uma cliente habitual (por norma só leva sopa para os filhos, e uma vez ou outra levou panados, se não me engano) com os filhos pela mão, pousou - os no balcão, e como passava ligeiramente das 22:30, e a essa hora a cozinha já não tem praticamente nada para servir, basicamente só sai frango assado. Foi isso que eu transmiti á cliente e ela passou-se, reagiu como se eu lhe tivesse dito um palavrão (que não disse, mas mais tarde apeteceu dizer), eu ainda fui á cozinha verificar se ainda podiam fazer alguma coisa, mas ela nem quis ouvir, queria porque queria , o livro de reclamações, perguntei então a um colega meu pelo livro, ele olhou para mim e disse :

-Estás doida?! Se lhe entregas o livro és despedida.

E fiquei chocada com aquilo, como é que é possível uma coisa daquelas, uma pessoa ser tão facilmente despedida, mesmo que o cliente tenha razão na queixa, ou não.

Entretanto esse meu colega foi ter com a tal rapariga e tentou acalma-la, e aí ela entrou em modo "bitch":

- O quê!? Não podem dar o livro de reclamações?! Se isso acontece é porque alguma coisa não bate certo! A sua colega não falou comigo da melhor forma, não tem nada lá fora escrito a avisar....e blábláblá...

E esteve nisto longos minutos, no final, foi embora sem levar nada. O que me custa nesta situação é ela ser uma cliente habitual e até ali nunca tive nada que dizer sobre ela, e também pelo facto de que eu sei que esta cliente também trabalha em algo semelhante, e nem por isso ter tido um pingo de empatia e entendimento. Dou-lhe o desconto de que provavelmente teve um dia mau e descontou em mim, mas saber que por causa disto o meu emprego esteve por um fio deixa-me bastante pensativa, porque afinal não existem empregos garantidos, mas pronto, isto também faz parte da vida, e serve como aprendizado.

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publicado às 16:15


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